12 de ago. de 2010

Um microconto, do livro inédito 'Tesselário'

Por Geraldo Lima

XI. VÔMITO.

Situação mais ridícula aquela: o Sol prestes a desabrochar, o dia acordando laborioso, responsável, e ele, ali, de quatro junto ao vaso, a cara quase lá dentro, o azedume recendendo, sobressaindo-se ao odor agradável do desodorizador, comida estragada, carne, vinagrete, arroz, feijão tropeiro, e a cerveja e a vodka fermentando tudo, ácido, e acordara de madrugada com um deserto na garganta, quase um litro d’água ingerido, e o Saara resistindo, até o estômago começar a se mover de dentro de si mesmo, subindo, vindo à tona pelo cano da garganta, um bolo inchando, impossível retê-lo mais, por fim o jorro, duas, três... setes vezes, como se não fosse sobrar mais nada dentro dele, esvaziando-se na marra, contraindo-se num parto de alto risco, via oral, e suando frio, o tal friozinho da morte, e mais um jorro, e outro mais, manhãzinha quase, um dia começando já estragado, uma broca na cabeça, perfurando, lembrar-se nessa hora dos zelos da mãe, o chá de boldo preparado por ela, melhor ainda os conselhos dados ali no banheiro mesmo, pensar no futuro, não estragar a vida com esses vícios, a mãe orando baixinho, Deus Pai Todo poderoso, dava até pra sentir-lhe a mão sobre a cabeça, terna, milagrosa; lembrar-se do irmão nessa hora, desejando tanto que ele o encontrasse ali, junto à parede, definhando, sem forças até para suportar as contrações estomacais, e o carregasse até o chuveiro, resmungando, é bom que se diga, mas zeloso também, sempre sóbrio, correto; lembrar-se também da esposa que nem existia ainda, mas que, se Deus quisesse, estaria por aí nalgum lugar, ela que por certo viria ficar ao lado dele, amparando-o junto ao vaso, uma companheira de verdade, na alegria e na tristeza, tão perfeita que talvez nem existisse, daí a solidão, o vazio, e ele suando frio junto à parede, achando o vaso tão distante agora, a felicidade então nem se fala, não restava mais nada dentro dele, a não ser a sensação de que ficaria ali para sempre, colado aos azulejos, à espera apenas da morte ou de um milagre qualquer.
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Encerro aqui a postagem dos microcontos do livro Tesselário; aguardemos a sua publicação pela Editora Multifoco. Na sequência, postarei a minissérie Dobras.

7 comentários:

Giovanna Lima disse...

Sujo e extremamente verdadeiro. Já me deparei com a situação descrita meia dúzia de vezes. Não descreveria melhor.

Giovani Iemini disse...

hahaha... detesto crise de vireida (virei d´avesso).

Adeilton Lima disse...

A escrita como metáfora do vômito... Ou um jorro profundo de literatura, soco na boca do estômago.

Geraldo Lima disse...

Olá, Giovanna, obrigado pelo seu comentário. Que tal você descrever a sua experiência etílica?

Geraldo Lima disse...

Giovani, acho que você conhece bem essa realidade etílica.(rsrsrs) Bom vê-lo por aqui. Obrigado.

Geraldo Lima disse...

Adeilton, que surpresa boa o seu comentário. Acho que você captou o espírito da coisa: "A escrita como metáfora do vômito". É isso aí. Esvaziar-se na marra! Obrigado.

Anônimo disse...

Geraldo, já vomitei assim. Mas devo ter algo de "insano"... Pois a sensação da decadência me atrái. Um jogo de estar e sair dela e voltar então.