30 de ago. de 2010

Lullaby

Por Mauro Siqueira

“Não quero dormir”. Disse a pequena com o sorriso de janelinha. A Mamãe sabia o que ela queria; queria uma canção ou historinha. “O que você quer ouvir? A do Tio das Sandálias ou da Dona Pandinha?” De chiquinhas e pijama pulava na cama,... cama,... cama macia. Ela pedia: “Tio..., Tio..., Tio das Sandáias,... Tio das Sandáias...”

Com os olhinhos fechando, mas lutando; e o urso Osvaldo num abraço apertado; a voz da Mãe sumindo; no teto, estrelas de adesivos brilhando; o livro no finzinho, quando num grito pede: “Chega. Não quero mais...” “Agora só falta um tiquinho: ‘o Tio, que curioso era, sabia onde o calo apertava! Arrastou o grande armário atrás das suas sandálias, que voaram..., mas para a sua surpresa, uma aranha gigantesca soltou!...’”

Mamãe parou assustada, sua filha dera um grito e, agora, debaixo do cobertor chorava (e com força enforcava o urso Osvaldo). “Foi a aranha?” Ela só balançou a cabeça que sim. A Mãe sóabraçou a filha. “Não conto mais essa história, filhinha”. Ela beijou a menina e riu, fez-lhe cosquinhas e a janelinha apareceu de novo. Ela beijou e beijou. “Não precisa ter medo...” “Como você sabe?” “Por que já fui do seu tamanho”. A janelinha estava toda aberta, mas ainda preocupada. “Mas se ele voltar?” “Quem?” “O Aranha-grande” A Mãe não entendia e achou melhor repetir, era tarde: “Não precisa ter medo, não vai acontecer nada; ela não vai te pegar.”

Acordou espantada como das outras vezes, os olhos demoraram para se acostumar com o negror do seu quarto, ora rosa. Como antes, ela sabia: “não estou sozinha”, ela parou de respirar para ouvir... em vão. Segurava o urso Osvaldo, quis gritar. Mergulhou na sua cama querendo afundar nela...

Engolfado na escuridão, escondido num canto, cheirando o medo; sua respiração era sólida. Estava do lado da janela (fechada), do lado da cama, como antes fizera.

E não estava sozinha. Ela tentou gritar. Começou a chorar de mansinho: era o Aranha-grande que vinha para jantar. Sentiu o estalo da cama, seus braços de pêlos, suas pernas de pêlos, seu rosto de pêlos pelo o seu.

Um gosto amargo.

Ela sabia gritar, mas como? Não tinha força.

Estava com raiva da mamãe.

O Aranha-grande veio para jantar hoje.

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>>> Publicado originalmente no livro
De vermes e outros animais rastejantes (Multifoco, 2008) e na edição 18 da Revista Ficções

>>> E no dia 16 o episódio 05 da Balada Imprudente de Alice e Alex.

6 comentários:

Michele disse...

Vixi, Mauro!! Isso é complicado, porque dá muito o que entender, como vc já deve ter previsto!! E eu por ser mulher, fico puta da vida com essas "Aranhas".Vc é muito corajoso de escrever isso rsrs ficou inocente, mas completamente sem vergonha!

Ricardo Novais disse...

Sensacional! Refinadamente sarcástico.

Nanda disse...

Eu entendi tanta coisa, inventei alguns finais... mas algo me tocou:
“Como você sabe?”
“Por que já fui do seu tamanho”

Acho que eu sempre sonhei com isso quando menina... uma segurança... mesmo com o maior dos medos do HOMEM ARANHA.

Beijos querido!
Adoro te ler!

Geraldo Lima disse...

Sutil demais. Dá o que pensar.

Anônimo disse...

Wow velho. Quantos cruzamentos: do fantástico-fantástico ao ultrarealismo cru.

Aracnofobicamente complexo, Mauro. Eu nem preciso citar todas as possíveis interpretações e por que não, já que é a mente de uma criança - cheia de mecanismos de defesa fantasiosos -, citar que todas essas interpretações de aracnosas se cruzam na mente dela como um mundo só.

Abração velho.
Fico na espera de Alice e Alex.

Unknown disse...

Michele: O menor dos problemas é ficar "sem vergonha"... o maior é a Aranha!

Ricardo: Valeu, está quase do nível dos seus!.

Fer e Geraldo:Gosto desse conto pois ele da margem para muitas leituras. As manifestas e principalmente as latentes.

André: sempre no cerne, hein? Mecanismos de defesa... transposições... metaforizações. O caminho é esse mesmo. Esquece o Kelsen e se joga psique!

Abraço a todos e grato pelos comentários.