17 de ago. de 2010

Cachalote: menos que uma baleia branca, mais que outra graphic novel




Quando a Cia. das Letras anunciou a criação do seu selo de quadrinhos não pude esconder o entusiasmo, mesmo já dispondo obras de peso na área, como as de Will Eisner e Art Spiegelman. O mesmo entusiasmo não diminuiu quando soube que um dos primeiros títulos nacionais do selo seria realizado por Daniel Galera e Rafael Coutinho com o também interessante título Cachalote – tal qual a espécie de Moby Dick, um dos livros preferidos do autor. E a obra surge num momento propício de popularização da 9ª arte, então nada melhor que um autor ascendente e pop como Galera para ajudar nessa tarefa. A graphic novel é composta de cinco histórias (ou seis, se consideramos o prólogo que da título à obra); histórias estas, sem título, com poucos diálogos, que não se entrecruzam, mas que dialogam entre si em função dos conflitos internos de seus protagonistas – homens, que dominam alguma arte: seja atuar ou dar exímios nós. Aliás, essa última arte, talvez pertença a melhor das histórias: a de um balconista de loja de ferragens que sai com mulheres que apreciam a técnica do bondage, mas que se apaixona por uma delas, perdendo o completo entusiasmo pela experiência sádica e por consequência aquilo que atraía nela. Destacam-se também a história do escultor recluso que aceita o convite para atuar numa filmagem que se assemelha a sua vida e a do ator chinês decadente, que promove ao mesmo tempo risos e melancolia durante a narrativa. A história do escritor em crise criativa e esquizofrênico é serena, com momentos de tensão e um final que não vale adiantar.

 
Com Cachalote, Daniel Galera nos mostra o quão interessante pode ser a sua obra – contista, romancista, tradutor, articulista de jogos, já teve histórias adaptadas para o cinema e o teatro e, agora, demonstra ser um bom argumentista de quadrinhos – mesmo com pouco texto, mas a leitura das imagens é Galera! Está a descrição acertada, os cortes a eloquência. A graphic reflete e nos (re)mostra um pouco do Daniel Galera do início de carreira, o autor de Dentes Guardados, algumas dessas histórias podiam configurar seguramente no pequeno e autoralíssimo livro de estreia, bem como alguns dos contos daquele seriam traduzido imageticamente com o traço correto de um Rafael Coutinho, responsável pela arte de Cachalote, cada vez mais seguro e original (como na sua participação na adaptação dos Contos de Grimm, da editora Desiderata) e que já avisou via twitter que a produção da animação Cachalote não tarda.
E assim, meu entusiasmo não diminui mesmo.

* O BULE não tem por hábito sortear os livros aqui resenhados; este será uma exceção. Ainda será definido o dia e os critérios do sorteio.


* Livros podem ser enviados a’O BULE para serem resenhados, cabendo aos editores d’O BULE a seleção. Tratar pelo email coisaprobule@yahoo.com.br

4 comentários:

Unknown disse...

Vamos esperar para ler...

ítalo puccini disse...

tô doido por este livro!
agora, 'inda mais.

abraço!

Laura Assis disse...

Li uma prévia que saiu na Piauí ano passado, parece ser demais mesmo. E gosto muito dos livros do Daniel Galera. Pretendo comprar a revista ainda essa semana (e parece que tá mesmo fazendo sucesso, já rolou até uma reimpressão).

Leonardo Villa-Forte disse...

Bela resenha/crítica/desfrutar, Mauro. Acho que é a primeira em que leio sobre o lugar do Cachalote dentro da obra do Galero, fazendo vínculos com seus outros trabalhos, incluindo os ótimos contos de Dentes Guardados, às vezes esquecidos em textos sobre o trabalho dele. Parabéns.