6 de ago. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: A Invasão Chinesa - ep.03 [parte final]

Por Mauro Siqueira


A vingança é um prato que se come frio.
Ditado Klingon

Siga o coelho branco.
Charles Lutwidge Dodgson


Quando Alice e Alex despertaram, certa noite, da indução alucinógena a que foram conduzidos viram-se transformados... em porra nenhuma. Aqui não há artrópodes humanizados ou relações pai-e-filho metaforizadas, nada disso!
O estado em que se encontravam, durante o estranho sono não lhes reservou nada: não sonharam, não choraram, não sentiram dor alguma. De certo, mal sabia como estavam ali; e o ali era o porta-malas de um velho Opala SS 75. Alice foi a primeira a acordar, piscou os olhos e tudo ainda continuou escuro, sua cabeça doía e os latejos pareciam ribombar nos tímpanos, a percepção do ambiente demorando a agir o desespero não tardou. E com ele os erros: chamou um “Oi” por alguém, bateu com a cabeça no tampo do porta-malas tentando levantar, esperneou. Percebeu o exíguo espaço e a completa escuridão palpável ao seu redor, sentiu tudo menor e, levando uma das mãos ao peito, um calor e um sufocamento que até então não estavam ali, agora estavam... e o pavor.
E então tomou o susto de uma vida
Sem saber e de maneira muito igual, Alex despertou do seu próprio mundo e como Alice, por segundos, se viu só, mas ao contrário da parceira, tateou o ambiente e um breve esticar de mão a encontrou.

– Alice?!, Alice?! É Você?! Onde estamos?!?!
– Sim!!!, Alex, sou eu!!! Eu não sei, acho que é um carro ou um caminhão... A minha cabeça dói...
– A minha também... para onde estamos indo? Que está dirigindo, Alice como viemos parar aqui? Me tira daqui Alice... eu quero sair...
– Para de choramingar! Eu também quero sair!
– Como viemos parar aqui? – Alex repetiu.

Alice não respondeu, não possuía as respostas (ou achava que não). Só de tentar imaginar algo, sua cabeça doía mais ainda e para o seu espírito prático, aquilo não importava no momento, mas sim...

– Como sair daqui. É só isso o que eu quero agora, Alex.

Alice e Alex não sabiam, mas o Opala SS 75 pertencia ao filho da velha chinesa. Ela, feito rainha, vinha sentada no lugar do carona; fumava um cachimbinho estranho e fedorento, resmungava com filho a audácia dos dois; e ele, concentrado na estrada, ainda assim parecia dar toda a atenção à mãe.
O filho da velha, era... diferente e seu nome transmitia isso, chamava-se Jiu-jiu, que significava “Nove-nove”, pois era o número de dedos que possuía nas mãos e nos pés – nascera com uma anomalia. Tinha por volta dos quarenta anos, mas aparentava bem mais (uma característica da família?), os cabelos evidentemente tingidos não escondia os fios revoltosos e brancos que saltavam no centro da cabeça chata e escorriam na direção da nuca; tinha um bigode que acompanhava essa tendência e nas pontas o branco ressaltava, Jiu-jiu parecia um gato velho e era com essa alcunha que se firmara e se tornara conhecido. O Gato Velho era um dos maiores contrabandistas em atividade, era responsável por entulhar a cidade e oferecer a mim e a você quinquilharias de que não precisamos e guarda-chuvas que não nos protege, apesar do que sugere o nome, mas isso é tudo fachada, o menor dos problemas, a mentira sincera, sem contar os cassinos clandestinos, mas a brincadeira mais séria mesmo é o tráfico de mulheres. Então, quando sua mãe ligou dizendo que uma coisinha ... de uns ... anos, de cabelos coloridos e olhos ... apareceu por lá, invadindo o apartamento Ásia, ele pegou o mais rápido que pode seu Opalão e segui para lá, ao chegar, diz a lenda que quase chorou e que prostrou diante de Alice beijando-lhe a testa suada – e não deixou de notar na tatuagem da garota.

Tirar Alice e Alex do Ásia não requereu grandes esforços da velha senhora chinesa, ela observou o seu filho carregar Alice nos próprios braços, enquanto que Alex fora carregado por dois moradores daquele andar – um nepalês e um... quem nasce no Sri Lanka é o quê?

Agora, subiam a estrada do Alto, sinuosa, balançava o velho carro de lá pra cá, e talvez tenha sido o chacoalhar que tenha despertado Alice e Alex antes do imaginado e agora, sem saber como ao certo, Alex, apenas de cuecas e Alice de calcinha e sutiã, esforçavam-se com um pedaço de ferro o ferrolho interno do porta-malas de um Opala SS 75, que desesperados, sentiam o sangue escorrer dos dedos.

– Vai seu viadinho!!! Abre logo!
– Tô quase, to quase...
– Tá dizendo isso há uma hora... vai, antes que alguém perceba que a gente acordou!!
– Acho que consegui... Não, não consegui.
– Deixa eu tentar... – Alice falou tomando o pedaço de ferro. Meio de lado, meio ajoelhada, lutou por um bom tempo até se dar por vencida. Parecia não haver esperança ali. O que fariam? Esperariam o carro parar e no momento em que abrissem o porta-malas tentariam fugir?

Alex não via, mas podia perceber algo novo, algo que nunca presenciara: Alice desistia. Era, sob certo aspecto, excitante aquilo. Ele queria poder vê-la e ler no seu semblante a derrota, a frustração, a tristeza; sensações corriqueiras para ele. Era excitante, pois assim a fazia igual a ele...

– Alice...
– Quié...
– ...Alice...
–Fala, cacete! O que você quer?!

Alex não disse nada, mexendo a mão na direção dela alcançou seu cabelo. Desceu a mão pelo rosto de Alice, foi um toque diferente e ela percebeu, reagiu com um arrepio.

– O que é isso – disse ela.
– Não é nada, só queria fazer isso: ver seu rosto.

Um estranho silêncio se fez. Uma longa pausa. Alguns movimentos limitados pelo espaço e pela inibição e por um momento, só por um momento, os dois esqueceram que viviam um pequeno inferno e foi somente a sensação do carro parar que os tirou daquele lugar no tempo, fazendo seus instintos de preservação e sobrevivência dizerem em uníssono: “É agora a nossa chance”.

De fato o carro parou, mas foi um momento muito breve, pouco para uma atitude corajosa/estúpida da parte dos dois. O terreno agora parecia mais acidentado – onde diabos estariam? Tudo levava a crer que o perímetro urbano ficara para trás, do nada, Alice e Alex sentiram o estômago na garganta: o carro descia velozmente: trepidavam, batiam cabeças, pernas, braços uns nos outros – os dois no metal, a velocidade só aumentava, mesmo, agora apertavam-se no fundo do porta-malas – a física exibia-se.
Então o estrondo.

E tudo continuou escuro por mais um longo tempo.
E...
E... o que já não tinha agravou-se: a noção dos dias e das horas, meros conceitos abstratos. Mais uma vez, Alice fora a primeira a acordar: o sol cuspia na sua cara uns 40° graus de delicadeza e possibilidade cancerígenas – ela adorou a ideia. Saiu com dificuldade do porta-malas, percebeu que como por um milagres, nada fora quebrado ou partido, mas as dores inevitáveis. Alex. Alex... parecia experimentar o sono dos justos, parecia até sorrir. Ela agora, que livre, querendo entender tudo: por que estavam naquele carro? E quase sem roupas? E como se acidentaram. “Acidente”. Somente ao pensar nele que se deu conta que a respostas as suas perguntas podia estar bem próximo, dentro do carro. E estava, porém morto. Alice se deparou com china de cabelo estranho e de rosto “todo fodido de sangue”, como falou para Alex mais tarde, ainda naquele dia. Um objeto chamou a sua atenção, caído no assoalho no Opala, um estranho cachimbo. Não pegou de imediato, ficou olhando de longe, quase que com medo. Ela mesma começa a se incomodar com as frescuras que vinha sentindo.

– Que merda ‘cê tá fazendo?

A voz de Alex surgindo por detrás dela.

– Nada...
– Puta merda, o que foi isso, hein?! Cara... que acidente... sorte que estamos bem, como será que... – Alice não estava nem aí para Alex, só interessava o cachimbo, mas não tinha certeza que queria pegá-lo...

***

– Duvido que você consiga...
– Por quê?
– Ora... porque sim, idiota! Ha-ha-ha!
– Quer apostar? –
– ... ...você não vai conseguir! – Alguém parecia inseguro.
– Quer... a-pos-tar?... – disse Alice com um brilho doentio nos olhos.
Alguém parecia muito seguro.
– Vamos lá, é uma simples paga, se você perder...
– Valendo o quê?
Um passo além para os dois.
– Valendo o quê?... deixe eu pensar...
– Dinheiro?
– Você sabe que não me interesso por dinheiro... não preciso dele.
– É, eu sei, eu sei; também não me importo. O que a gente aposta?
– Um cu: o seu ou o meu.

Surpresa, pavor, palidez, livor, descoramento, palor, lividez, desassossego, inaudição, incerteza, secura, dúvida, embaraço, esgotamento, incômodo. Silêncio. Congelamento. Hesitação, excitação, ventura, desafio, aceitação, convergência, imaginação, confiança, curiosidade... sensações experimentadas em muito pouco tempo.

– Feito!
– “Selemos a nossa paga, embebida com o nosso sangue!”
– Bonito, é Shakespeare?
– Não, é Sherlock Holmes.
– Repetindo: quem perder a aposta paga com o cu. A forma e quando, cada um escolhe. Sem avisar ao outro.
A 7 anos dali, na palma da mão de ambos, um risco, uma cicatriz aniversariava.
– Hum, hum... Combinado.
Alguém lambia o sangue que escorria até o pulso.

***

O mais difícil não foi escolher a vítima, assustá-la, persegui-la, lográ-la como gado, guiando-a para onde quisesse: um beco fora dos olhos. Nem mesmo acabar-se de rir enquanto chutava as costelas e rosto da setuagenária desabada no chão; ao ouvi-la, ainda assim, na merda que estava, pedir pelo amor de Deus que parasse. Ela não entendia que naquele momento, Alice era Deus, o destino da velha repousava violentamente na bota da garota com camisa de coelho que chutava a sua cara. E ela, Alice, ria da ignorância e incompreensão da velha – ela não se lembrava deles.
O mais difícil para Alice era saber a hora de parar.

– Alice... Alice, acho que está bom... Alice, para, se não você mata a velha...
– Você acha?
– Acho.
–Você não lembra dela, não é? Olha bem perto...

Não precisou muito, Alex reconheceu: a velha senhora chinesa.

– Continua – quase implorou ele.

Alice olhou para a senhora no chão, arfava feito bicho cego na hora da morte – e talvez de fato fosse, não tinha certeza se a velha conseguia vê-la – estava com o rosto guardado pelo sangue. Alice queria que ela a visse. A menina ergueu o seu vestido florido-primavera e por entre a calcinha mesmo mijou sobre o vermelho-sangue-violência da velha. Era morno, era um alívio. Ela sentia o cheiro do mijo subindo no ar. Se abaixou e com sua mão mesmo esfregou o rosto mijado da vovó chinesa... inexpressão & espanto, dor & prostração, hálitos & vapores.
Alice se levantou rápido e virando para Alex, seu namorado, Alice disse:

“Teu cu é meu.”

***

...Alice, estranhamente tomada, de um ímpeto pegou o estranho cachimbo e como um feitiço reviveu cada instante no Ásia: a velha senhora, a estranha sopa, a sua quase nudez e de Alex completamente gratuita, o filho de dedos faltantes, as intenções dele de vendê-la para a Espanha, a velha estrada de Santos, o estranho desvio, o enfarto de Jiu-jiu, a batida na árvore e a velha sair quase que incólume de tudo. Caminhando com um leve mancar, na direção do mirante e o sol nascente a sua frente.
Alice engoliu secou e cuspiu areia e jurou vingança recitando um velho ditado Klingon. Um coelho parou perto da estrada e antes que um caminhão em alta velocidade sujasse o asfalto com as suas vísceras frescas e o pelo branquinho, Alice e Alex seguiram a direção em que o bicho correra, parecendo estranhamente atrasado para algum compromisso.


~~~
» No próximo episódio, Alice e Alex, após conhecerem o coelho branco, põem-se a caminho de uma estrada de tijolos amarelos.
» Anteriormente... A Balada Imprudente de Alice e Alex: A Invasão Chinesa - ep.02 [parte um]

3 comentários:

Michele disse...

Vou te contar viu, essa história dava um filme. Cada vez melhor e cada vez que leio, é totalmente diferente do que eu imaginava! Ô imaginação fértil!!
Adorei, Mauro!

Unknown disse...

Um filme? Será, Michele...quem sabe o Tarantino não se habilita ou o Heitor Dhalia. :) bj

Anônimo disse...

Mauro, perceba como eu estou atolado de coisas e atrasado nas leituras. Hahaha. (Ao menos para quem comentava quase todo dia). Sobre o texto: QUE TEXTO! Agora sim uma subida em alta velocidade que provoca vertigem. Tudo claro com pitadas de sadismo, autoflagelo e outras coisas que escapam ao controle daquilo que é tido como Normal e regido pela normalidade.

Abração,
André (que precisa voltar a escrever).