28 de ago. de 2010

As falsas autorias - Malagueta # 7

Por Geraldo Lima

É público e notório que a internet encurtou a distância entre as pessoas. A facilidade de comunicação através de E-mail, Facebook, Orkut, MSN etc. é a comprovação do que acabo de dizer.

Nesse espaço virtual, a informação circula livre e, às vezes, sem critérios. Um texto pode ser repassado ad infinitum e sofrer, nesse percurso, modificações. Isso, no entanto, não é novidade. Os textos orais, compilados tempos depois, sofrem também esse tipo de intervenção: os copistas podem introduzir ali modificações que alterarão o sentido do texto. Os textos bíblicos são um bom exemplo disso.

Esse preâmbulo todo tem um único objetivo: arejar o ambiente para que eu fale de um fenômeno que tomou conta da internet: os tais textos atribuídos, de maneira equivocada ou não, a alguns escritores e artistas, como Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Charles Chaplin, Artur da Távola e, acabo de descobrir, nosso poeta-mor Carlos Drummond de Andrade.
Tocadas pelo caráter positivo de muitos desses textos, as pessoas vão repassando-os, numa cadeia infinita, sem se preocuparem com a veracidade da autoria. O importante, nesse caso, é o teor da mensagem. Logo, o impulso maior é passar adiante essa mensagem tocante, instrutiva e apaziguadora. É um processo contagioso. Como nos diz Jean Baudrillard, “... a mídia moderna tem em si uma potência viral, e sua virulência é contagiosa”. E esse vírus, esse texto de falsa autoria, mas engraçado ou edificante, vai bater, sem dúvida, na sua caixa de mensagens.

A essa altura do texto, alguém já deve estar me indagando indignado: E qual o problema de se repassar esses textos, seu estraga-prazeres, se a intenção é sempre a melhor possível? A princípio, não vejo nenhum problema, mas para alguns autores cujo nome aparece nesses textos talvez haja sim. Alguns sentiram a necessidade de negar publicamente a autoria do texto atribuída a eles. Ariano Suassuna, por exemplo, negou, num programa de TV, a autoria de uma carta que começou a circular na internet após a derrota do Sport na Libertadores. Na carta, entre outras coisas, havia provocações à torcida de outros times pernambucanos, coisa que o autor de O Auto da Compadecida jamais faria, ainda que seja torcedor apaixonado do Sport.

O que me deixa pasmo é a facilidade com que as pessoas vão tomando esses textos como verdadeiros em relação à sua autoria. Se você conhece o texto de Luis Fernando Veríssimo, jamais vai tomar como de sua autoria um texto que apresente um humor grosseiro, sem sutilezas, e de linguagem deselegante. O mesmo pode-se dizer do texto de um Jabor, sempre inteligente. O estilo deve ser inconfundível. A temática também. Desde 1999, circula na internet um poema atribuído ao ganhador do Nobel de 1982. Trata-se do poema La marioneta, ou a despedida de Gabriel García Márquez. De teor sentimental, o poema espalhou-se pela rede e chegou a ser comentando em importantes jornais. Como se descobre a falsa autoria do tal poema? O uso insistente da invocação a Deus. Marxista e humanista, o autor de Cem anos de solidão dificilmente faria uso desse recurso. Linguagem e conteúdo, nesse caso, estão distante do estilo do autor colombiano.

Recebi, dia desses, um texto atribuído a Carlos Drummond de Andrade. O título do poema: Eterno. De cara tomei os primeiros versos como sendo, realmente, do autor de A rosa do povo; os outros, porém, destoavam em muito do seu estilo. Não dava para engolir aquilo como obra do poeta itabirano. Eis os primeiros versos: “Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,/mas com tamanha intensidade, que se petrifica,/e nenhuma força jamais o resgata”. Caramba, isso é lindo! E é lindo não só pela mensagem, mas por apresentar um estilo elegante, refinado. Nota-se, por trás de cada verso, o labor do poeta, o domínio da técnica e da língua. Aí vem a segunda estrofe e a coisa desanda. É como se você saltasse do lombo de um mangalarga marchador para o de um pangaré trotão. Vejam se não tenho razão: “Fácil é ouvir a música que toca./Difícil é ouvir a sua consciência./Acenando o tempo todo,/mostrando nossas escolhas erradas”. Onde que isso é Drummond?! Você pode achar que é bonito, que é construtivo, sei lá, mas a quebra de estilo é violenta. Sai-se do alto padrão de expressão para o simplismo da construção frasal.

Pesquisando na internet, descobri variações desse texto, onde os versos de Drummond ( os verdadeiros!) vêm ora no início, ora no meio, ora no final. O que mostra as intervenções que cada copista faz no texto, adaptando-o, talvez, ao seu gosto e, por que não dizer, ao seu estilo. O poema de Drummond, cujo título é Eterno, passa longe do tom otimista e edificante desse texto ( ou textos) que circula na rede. Nesse poema, Drummond apresenta-se irônico como em muitos dos seus textos, e logo no início deixa isso bem claro: “E como ficou chato ser moderno./Agora serei eterno.” Aqui o eu lírico afirma sua intenção de ser eterno, talvez por enxergar no espírito do moderno apenas o transitório, a precariedade da existência. Nos textos apócrifos, tudo isso desaparece. E continuará desaparecendo na grande rede da globalização.

18 comentários:

Unknown disse...

Grande Geraldo! Beleza de texto.
Pouco se toca no incômodo de ter um texto atribuído a você e que não é! É péssimo para um autor ler algo que tem seu nome impresso ali e saber que não é seu e que as pessoas tomam como verdade... Desfazer mentiras virtuais é mais complicado do que criá-las.

Os autores reconhecidos ainda podem se queixar de maneira mais extrema, nos meios de comunicação e os que não tem? E aqueles que dependem mais de si do que a influência das editoras que pertencem? E o contrário não é menos grave, quando lhe roubam a autoria, a gangue do CTRL+C/CTRL+V, conhece?
Já tive contos repassados por outros, isso não me incomoda, pelo contrário: quero que me leiam. Só peço o crédito. Já tive o meu texto e outros conteúdos "kibados" assinados pelo Joaquim das Couves e/ou pela Margarida das Bertalhas. E é complexo dizer para eles que o texto é seu... Da dor-de-cabeça.
É um novo abacaxi para os filólogos: como criar outros critérios de análise - fora o estilo - para determinar a autoria de um texto?

Geraldo Lima disse...

Opa, Mauro, esse assunto da gangue do CTRL+C/CTRL+V pode render um outro texto.A maladragem é grande. Obrigado pelo comentário.

Tânia Souza disse...

Geraldo, realmente a internet tem papel muito importante nessa atribuição de autoria, algo interessante de se notar, por exemplo, nos slides com mensagens motivadoras, é tanto a atribuição de autoria ou negação, retira-se o nome do autor e assina-se Autor desconhecido. Li em algum lugar sobre pessoas escreverem e atribuirem textos a autores reconhecidos somente para ver a aceitação dos leitores. Gostei do texto, deixa espaço para muitas reflexões.

Simone Fernandes disse...

Muito bom. É bom que as pessoas que tem o péssimo hábito de assumir autoria de textos alheios saibam que nem todo mundo é ignorante e reconhece a autoria e o estilo de um texto com uma simples vista d'olhos.
Fez muito bem em falar do assunto. A rede é grande mas não é infinita.

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Tânia. A ideia é esta: provocar a reflexão. Com a enxurrada de informações que nos assalta todo dia, precisamos de mecanismos que nos mantenham sempre críticos.

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Simone. Creio que falta leitura. A maioria das pessoas não tem mesmo afinidade com o texto dos autores vítimas dessas falsas autorias.

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Mandou muito bem Geraldo. Vou voltar a perturbar os amigos que me perturbam com esses textos respondendo que estão equivocados (rs)

Abçs, R.

Malva Mauvais disse...

Sempre fiquei encanadíssima com a questão da falsa autoria na internet. Imagino que as pessoas queiram agregar algum status literário a certos textos, na tentativa de fazer com que os outros o leiam. Há alguns anos, a Cora Rónai publicou um livros sobre textos falsos "clássicos" que rolavam pelo mundo vrtual, chamado "Caiu na Rede". Não sei se mais alguém ainda se dedica a "caçar" falsa atribuição de autoria.

Geraldo Lima disse...

Sofro também com isso, Rodrigo. Como são amigos, às vezes nos calamos. Obrigado pelo comentário.

iracema disse...

É...penso muito sobre isto...acho que por causa do excesso de informação, muita gente se sente quase "obrigado" a "saber" sobre todos os assuntos, ou pelo menos "citar" um escritor, um poeta, um cineasta, um músico...não há tempo para a reflexão muito menos para o "aprofundamento". Parabéns!

Geraldo Lima disse...

Olá, Malva, não sabia desse livro da Cora Rónai. Vou correr atrás. Obrigado.

Geraldo Lima disse...

Iracema, obrigado. Este é o problema: falta tempo para uma reflexão mais profunda.

Ricardo Bruch disse...

Eu que não sou porra nenhuma passei por isso. E é por essa razão que não coloquei mais nada no meu blog, e não comento mais blog nenhum (pq chegaram inclusive a copiar um comentário meu, criando um login falso para parecer que fui eu quem comentou - como se meu comentário valesse um quiabo mordido). Obviamente que abri uma exceção pra comentar no bule pois gostei da iniciativa em suscitar essa discussão.

É isso. Ainda de luto e silente.
Um abraço.
R.B.

Geraldo Lima disse...

Ricardo, ainda bem que você encara tudo isso com humor (ou não?). Parece-me que a rapinagem na rede vai além do que eu imaginava. Seus comentários são sempre bem-vindos. Obrigado.

Cris disse...

Como sempre, impecável! Adorei o texto, excelente contribuição, não pros leitores do Bule, pra literatura como um todo, digo.
Abraços!

Crika disse...

Eu sempre tentei entender o que se passa pela cabeça de pessoas que adulteram um texto e o fazem circular na rede. Penso, diante de casos como o do texto citado (Eterno), naquele famoso louco de hospício que diz ser Napoleão. Sinceramente, estou longe de desvendar esse mistério e, por isso, tenho cuidado ao repassar e-mails dessa natureza. É uma lástima vermos como essas coisas se espalham rapidamente, como vírus contagiosos. Muito bom você tocar nesse assunto, Geraldo. Há muito gente incomodada com falsas autorias, plágios e outros males que acometem nosso universo virtual.
Abraços ninjas. ^^

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Cris, pelas palavras elogiosas. Este é o nosso papel: esclarecer.

Ninjagirl, parece-me que esta é uma questão bastante séria. Só nos resta manter o senso crítico, a lucidez. Obrigado pelo comentário.

Rosa Maria Ferrão disse...

Geraldo, tenho uma página no Facebook justamente para colaborar com esta "batalha". Seria mt legal, se pudesse dar uma passada lá. E deixar qualquer comentário https://www.facebook.com/CitacoesQueEuNaoCitei?ref=hl