27 de jul. de 2010

Um microconto, do livro inédito Tesselário

Por Geraldo Lima
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XXXII. JOÕES.
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Parecia-lhe impossível a execução do plano: como poderia um simples personagem agir fora dos limites impostos pelo autor? Como saltar da ficção para a realidade? E não fora fácil tomar aquela decisão. Entre a amolação da faquinha e aquele momento, travara-se uma batalha infernal entre a parte boa e a podre da sua consciência. Um maioral dentro dele. Por fim, ei-lo ali. O escritor, pasmo:
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— Epa, João. Que fazes aqui?!
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Merecido espanto. Então se dava ao prazer de expô-lo nas mais diversas tragédias, estripando a mulher, estuprando mulheres, estragando os filhos, estocando o amante da cadela... Brandiu a faquinha, quase já roçando a cara do escritor.
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— Que merda é essa, João? Sou teu criador. Sou Deus!
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Orra, ainda por cima um herege. Bem merecido.
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Chovia em Curitiba, gotas vermelhas pingavam das vestes.

8 comentários:

Anônimo disse...

Há personagens que são fantásticos, e que roubam a cena. Parabéns pela mágica tessitura. (Joel)

HOMERO GOMES disse...

Ótimo ver Curitiba também em suas palavras, Geraldo. Além dos próprios curitibanos, como Dalton Trevisan, quem se atreveu até hoje a escrever sobre essa cidade fora do eixo e dos trópicos. Chuva é comum por aqui (aliás até demais), mas principalmente a névoa sanguinolenta e fria que paira em algumas noites, metaforicamente ou não. É a capital gótica do BR.

Tânia Souza disse...

ah, estes personagens que se querem existência, adoro isso.

Eloí Bocheco disse...

O nome deste blog é incrível! Nossa, eu adoro os bules. Este blog é um bule cheiiiio!
Parabéns!
Eloí Bocheco

Geraldo Lima disse...

Joel, Homero, Tânia e Eloí, muito obrigado pelo comentário. Um abração.

Anônimo disse...

Graaande sacada, Geraldo. :D Hahaha. Não pude deixar de rir. Usar a tinta da caneta e "grilhar" João, num paradoxo do escritor que busca se libertar através do texto. Ora! Respeito, João!

Abraço,

André.

Cris disse...

Muito bom, Geraldo. A petulância de nossas personagens é um displante dos mais interessantes.
Já me aventurei nessa, mas a história tá lá empoeirada numa pasta, ops, empoeirada não porque a pasta é digital.
Abraços!

Geraldo Lima disse...

André e Cris, muito obrigado pelo comentário. Cris, por que você não tira da pasta esse conto em que há um personagem petulante?
Um abração!