3 de jul. de 2010

Reflexão do camundongo

Por Ricardo Novais
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Hoje de manhã, andando pela rua, vi do outro lado da calçada uma moça belíssima. Meus pensamentos, que até então eram esparsos e vazios, voltaram-se para àquela figura agradável e que enleaste minhas primeiras horas do dia. De modo que fiquei, em certa altura, admirando o desenho dela à calçada, e esta ao lado do muro escolar próximo ao ponto de ônibus e à estação do metrô.
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Se eu obedecesse ao prazer de meus pensamentos, ficaria no outro, sem nunca ter iniciado este post. Mas não há lembrança que não se sobreponha à outra, se esta for menos agradável. E esta é. Sendo assim, meus olhos viram, à distância e entre as máquinas de outro homem, uma manchete de jornal online: “Cientistas Criam Vida Inteligente”. Foi isto que me fez esquecer a bela moça que andava elegante e despretensiosamente pela calçada oposta à minha.
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Maldito gênio matinal que me tirou memórias deleitosas!... Fui então à minha máquina tomar conhecimento da notícia cientifica com maiores pormenores. Tratava-se de afirmação polêmica de médico italiano e seu colega norte-americano cientista de novas mídias, fundamentados por filosofia de Königsberg, de arriscada experiência biológica que promove a capacidade de um ser, de vida natural, em armazenar todas as informações que existentes no mundo.
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O jornalista que escreveu o artigo, por certo tão preparado quanto os que lêem tais notícias, expunha que a Igreja Católica manifestou-se contrária a tal manipulação genética e que a classe política internacional é avessa ao conhecimento geral. Mas foi a declaração do rato, cobaia no experimento de criação da vida mecânica baseada na vida natural com capacidade de guardar dados, que causou a maior controvérsia. Verídico, leitor; não foi uma declaração oral, mas ocular. Havia uma fotografia abaixo da manchete e ao lado do texto, “Cientistas Criam Vida Inteligente”, onde se podia perceber toda a reflexão do camundongo. Verdade que as fotos não falam, talvez nem seja aptidão dos camundongos a organização cerebral; entretanto, via-se nos olhos arredondados e profundos do calunga a meditação de especialista em ciência e em opiniões tecnológicas.
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Eis qual foi o solilóquio do rato:
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“Este meu dirigente sofista quer criar vida... E inteligente! Estais a brincar de Deus. Meu querido diretor não se importa com pudores religiosos nem morais. Ousado és tu, tenta criar vida humana a partir de meus poucos esforços intelectuais... Clona-me, portanto. Não há de ser nada. Enquanto estudas teus experimentos, vou ajuizando que teu império não vale muito; sou eu quem me alimento de teus inventos quando estes forem tão-só lixo. Sou eu o protozoário que transmitirá tal parasita ao hospedeiro intermediário para que no futuro chegue ao hospedeiro definitivo. Além de que não tenho tuas angústias, amigo cientista, nem tuas implicações éticas, muito menos teu ‘papel de Deus’ criador da vida clarividente estimando (in)sensivelmente quantos fetos, ou bebês, defeituosos serão descartados na disputa do pioneirismo da clonagem existencial de ser arauto de todas as notícias da Terra – é de teu ofício, senhor, esta linha de montagem industrial...”
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Vi esta imaginação na imagem, nem tão grande nem tão curta, daquele camundongo que apareceu em artigo de jornal editado pela internet. A própria reflexão resignada apareceu nas retinas dele, pouco cáusticas e mais sinceras; pobre diabo! Não pude ver-lhe o gesto na fotografia, nem ouvir-lhe palavra ou cogitar-lhe outro julgamento; apenas pude ler-lhe os olhos arredondados e profundos.
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Eu ri do rato, ele também riu de mim. Depois fui ter em outras coisas, outras figuras de moças belíssimas, outros pensamentos esparsos, enfim, fui cuidar da vida; vida esta que consta já sofrer de ‘síndrome da fadiga da informação’. Maldição de 'Weil'? Ou será apenas a ação natural do 'toxoplasma gongii'? Aquele camundongo de ofício cobaia nada mais pode dizer; é que assim que ele alcançou a natural liberdade, tornou logo a antigo litígio com um felino, certamente hospedeiro intermediário, já seu conhecido.
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Ricardo Novais nasceu em São Paulo há 30 anos e diz ainda procurar uma musa aspiradora que aceite casar-se com ele ou que, ao menos, o deixe visitá-la em seu trabalho noturno – são suas essas palavras. Publicou (em formato e-book) o romance O Boêmio, as confissões de um religioso. Bloga em http://blogdoricardonovais.blogspot.com/

6 comentários:

Alliah disse...

Não é todo dia que nos deparamos com a declaração de um camundongo. Talvez por ser inquietante demais. Gostei bastante desse texto, tem um ar de incomum daquele tipo que nos parece uma brincadeira com não só um, mas muitos fundos de verdade.

Ah, e não poderia deixar de comentar, a troca de risos foi o melhor.

Márcia Cristine disse...

Que texto engraçdo, diferente. Adorei! Ri com vontade dessa reflexão, mas também fiquei embaraçada. Parece que os homens admiram ideias extravagantes e os ratos se divertem com isso. Muito bom.

Ricardo Novais disse...

Veja só, querido Ricardo. Esta espalhando ceticismo por outros caminhos, né?
Eu já conhecia esse ratinho, do texto viu! Parabéns, você escreve num estilo todo particular e isto dá uma originalidade maravilhosa. Tem uma marca nos textos que já reconheço como sendo sua assim que leio as primeiras linhas.
Devo agradecer também, porque aceitei o "convite" que você fez no seu blog para conhecer o Bule, adorei o site! É ótimo!

Um beijo, gargalhando!

Ricardo Novais disse...

Olá!

Primeiramente gostaria de esclarecer que as palavras que publiquei no comentário acima são da querida Fernanda Cavalcanti (@FernandaCapitu) que avisou-me no twitter que comentou no meu prórpio blogue. Por vaidade - já que o texto está aqui - ou por que sinceramente gostei das palavras dela, resolvi transpô-las cá.

Devo dizer também que estou muito feliz e agradecido d'O Bule, um espaço tão respeitado, ter publicado um texto que escrevi, tão simples e quase de brincadeira. Muito grato a vocês, caros editores.

No mais, agradeço também a todos que leram o texto; mesmo os que não gostaram dele.

Reitero meus agradecimentos, a todos.

Um abraço,

@RicardoANovais

Anônimo disse...

Ricardo, bem vindas as palavras deste camudongo-homem-deus e um tanto católico. Hahaha. Aquele comentário opinativo que soa desimportante para buscar a importância das coisas.

Ricardo Novais disse...

Caro André,

Obrigado pelo comentário. Entretanto, este pobre camundongo não é católico; aliás ele é ateu, graças a Deus!

Um abraço a você, rapaz.

Ricardo.