17 de jul. de 2010

Pecados (sete microcontos)

Por Bruna Mitrano
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Orgulho
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Abaixo a cabeça, o sangue pinga na letra redonda (a tal carta). Borra vermelha sobre fundo falso, minha tela mais viva.
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Inveja
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O desgraçado tão calmamente lambe o próprio saco, depois levanta os olhos pra mim como se me desafiasse a fazer o mesmo. Mas eu, que, apesar de curvo, mal consigo olhar pra baixo sem sentir a nuca retrair, perdi de vista o meu, esquecido entre os pelos longos e embaraçados, sobre os quais descansa um pedaço de carne flácida, meu pau indolente. “Cachorro filho da puta, sabe como humilhar um velho”, digo rosnando, minha boca salivosa.
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Ira
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Ela enrosca um fio de cabelo no meu mindinho. O fio ruivo faz um torniquete no meu dedo. Ela me quer mutilado, ela me quer incompleto.
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Indolência
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Afundo as unhas nas minhas coxas e arranco um pedaço da casca dura que brotou sobre minha pele. Surgem pontos vermelhos que crescem. Vejo pouco. Meus olhos foram abraçados por véus de poeira. Mas os pontos vermelhos crescem, na carne branca que, antes, escondia-se sob a casca.
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Avareza
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“Não dou”, ela diz.
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Gula
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Nunca passei fome, mas é como se passasse. Esconda essa nuca melada de suor, ou sua cabeça penderá sem metade do alicerce.
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Luxúria
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Não acreditava no papo engana-trouxa de amor sem sexo. Era uma mulher e tudo o que queria era ser vista como tal. Foi por isso que ela empinou o tronco e, com o dedo indicador como um pêndulo inverso disrítmico na direção do nariz dele, encheu a boca para dizer:— não preciso de um homem que me ame
----------[pausa]
--------------------preciso de um homem que me coma com vontade.
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Bruna Mitrano - Tem 24 anos e mora no "velho oeste carioca". Trabalhou tanto em micropaleontologia como em alfabetização de idosos. Hoje não faz muita coisa além de ler, ouvir música e observar pessoas desconhecidas.
Teima em manter o
http://www.deliriolilas.blogspot.com/. Ah: e nunca publicou um livro.

14 comentários:

Parreira disse...

Uau, Bruna!

Unknown disse...

B(r)unita, tu tens uma força gigante de escrita. É por isso que tu sabes escrever pouco, muito pouco, pouco mesmo, e sempre completo. Cada linha é uma porrada na cara (e o soco arde, mas a gente volta pra te deixar socar mais uma vez).

Um abraçãozão, my dear.

Leonardo Villa-Forte disse...

Curto e seco. Bela mão, Bruna.

ítalo puccini disse...

animalescamente bons!

parabéns.

beijos.

Eliza Barroso disse...

Sempre pensei, será de A
mélias que eles gostam?
Amélias não tem atitude,
não falam verdades,não
são sensuais, nem impetuosas
tampouco como vc escreveu!
São apenas convenientes.

Arrisca um livro vai ... (por favor, rs)
Inté

romério rômulo disse...

muito bom,bruninha.
um beijo.
romério

Anônimo disse...

Direto e Hermético. É possível? Acho que sim.
Seu pecados tem um tempero meio quente, Bruna. Soa como poeira, sujeira, sangue misturado e doença. Soa bem humano.

Abraço,
André.

Giuliano Gimenez disse...

Gostei dos pecados.
Principalmente a avareza.

Abraços!

Ana Claudia disse...

Gosto muito de microcontos, Bruna. Gostei muito dos teus. Go, Bruna.

Elisa Gaivota disse...

Sucinto, direto e conclusivo. Cheios de ponto final e reticências implícitas num texto escancarado, "naturalista" e fundamentalmente criativo.

Marcelo Novaes disse...

Bruna,


Estes textos têm a sua digital e "anatomia literária": unhas e cascas, suores e nucas, fios de cabelo e "tudo que se descama ao chão"...





Um beijo, amiga.

Fred Matos disse...

Bruna não é uma promessa de escritora, é uma escritora pronta. Não sei se tem uma produção volumosa, mas todos os textos dela que já pude ler no “delírio lilás”, e em outros sites da Internet, têm esta combinação apontada no comentário de André: são, concomitantemente, diretos e herméticos.
O hermetismo decorrente do uso de metáforas quase sempre originalíssimas contribui para injetar nos contos uma boa dose de boa poesia e a linguagem objetiva, sem desnecessários rodeios, fornece o ritmo que pega o leitor impedindo-o de interromper a leitura. É uma combinação poderosa, responsável por instaurar um clima denso no texto que, entretanto, não esgota-se em si mesmo, como se exigindo que dele o leitor participe, tentando interpretar as metáforas de Bruna ou a elas atribuindo os significados que tornem o texto uma peça de criação bilateral.
Parabéns a Bruna e ao blog por publicá-la.

Unknown disse...

hahaha muito divertido o da inveja.
gosto de suas observações...
e anotações.

beijo

Ricardo Freitas disse...

Uau! Demais! está mais objetiva sim, mas em 2 ou 3 linhas faz caber um mundo.