6 de jul. de 2010

Ontem dormi tarde.

Por Mauro Siqueira


ATO 1

Sentado ali no balcão, diante do café e do bolinho Ana Maria ele voava em seus pensamentos:
“Todos os dias são como os anteriores: entro, peço o café e, antes que esfrie, engulo-o rápido; na saída encontro o mesmo guarda barrigudo e armado com o .38 velho e enferrujado no coldre, sigo pro banco do outro lado da rua e nem sequer olho para os clientes que atendo, que, um a um, como vacas sagradas hindus, vêm de uma fila que nunca acaba. Ainda, sou perseguido pelo gerente; a loira dos meus sonhos do guichê ao lado me trata como uma das samambaias que enfeitam o banco e nem sabe que existo.”
Nem ao menos havia tocado o café. Já estava ali parado há uns cinco minutos. Vestido como um típico bancário – camisa branca, gravata, cabelos alinhados, o perfeito engomadinho – resignado em sua condição.
Estava pronto para uma revolução.
Estava pronto para despertar.
Levou a xícara à boca, parou no meio do caminho. Nos décimos de segundo decorridos entre o balcão e ato de beber, uma ideia desconcertante queimou seu cérebro.
“Por que não me levanto, tomo a arma daquele guarda, mato meu gerente e arrasto aquela garota pelos cabelos e a levo comigo?”
Ele observa com atenção a xícara de café em suas mãos, olha ao redor. Toda aquela perfeição cotidiana o incomoda. Tão perfeita quanto a xícara. Ele estava pronto para uma revolução.“Por que não?”, indaga-se. Estava pronto para despertar.
Num gesto rápido ele levanta e arremessa todas suas frustrações junto com a xícara que, em milhões de pedaços espatifa-se contra a parede de azulejos brancos impecáveis, tão brancos quanto a xícara, tão brancos como sua camisa. Tão brancos como sua vida...
O café que ele bebia todos os dias escorria, agora, numa enorme mancha pela parede... como sangue.

ATO 2


“Vai ser só uma festa”, disseram. No dia seguinte, segunda-feira teria de estar às oito horas  no banco. “Será só um encontro de amigos, coisa pequena”, insistiam. Três e meia da manhã e eu ainda não tinha voltado pra casa. Jack Daniels, José Cuervo, ecstasy, especial K e Drum ‘n’ bass foram alguns dos convidados da festinha. No dia seguinte, no balcão da lanchonete onde sempre tomo o café, ainda mastigado, ainda entorpecido, fui incomodado pelo atendente que sempre me via arrumado e bem vestido; perguntando:
“O que é que você tem hoje?”
“Ontem, dormi tarde”, respondi, muito depois, quando voltou com meu café.

ATO 3


A ressaca ferrava com a mente dele, talvez a sensação de repetição. Todos os gestos daquele dia pareciam tão iguais aos outros feitos por ele que... “Dejà vu”, pensou, lembrou-se de Matrix, mas também se lembrou de viver numa eterna rotina, como uma máquina a dar voltas numa pista redonda, um hamster na roda da gaiola – sempre em movimento e sempre estagnado; ou um daqueles macacos que foram ao espaço: “push the button”, “pull the switch”, “turn the key”. Uma peça branca de um quebra-cabeças também branco... como sua xícara. Olhou para o relógio na parede: o ponteiro parecia retroceder. Olhou para o seu: parecia parado. “Foda-se!”, pensou em voz alta mais uma vez. “Bom dia!”, disse o guarda barrigudo ao passar por ele. Seus ouvidos doeram ao ouvi-lo. Sentia-se desconfortável naquela manhã, sentia-se diferente, deslocado, por que não dizer outro. Uma inquietação pertinente crescia dentro dele, tomava conta dele, um grito primal que do âmago mais escondido, surge pouco a pouco reivindicando LIBERDADE.
A seu ver tudo parecia fora do lugar, pequenos detalhes que mal ele mesmo sabia. “Sonho?”, uma possibilidade. “Realidade?”, outra possibilidade.
Ideias estranhas passavam por sua cabeça, dominavam-no... guardas, loiras, armas, gerentes... muita merda numa cabeça cheia dela. Ele estava pronto para uma revolução. Estava pronto para o despertar.
Já ia bebendo o café quando pensou:
“Por que não?”

***

 Aproveitando a recente entrevista resolvi postar um conto significativo para mim, este, que foi o primeiro que decidi selecionar para o meu livro.  

 

8 comentários:

fab disse...

Acho que é a primeira vez que comento aqui. O blog tá de parabéns pelos autores e pelo conteúdo. Gostei pra caralho deste conto, sem frescuras, sem rodeios, um fragmento do dia de um bancário zé-ninguém, a porra da realidade, como deve ser. Abraço.

Michele disse...

Eu já passei por isso, não uma idéia tão revolucionária como essa do personagem, mas fiz algumas coisinhas no mesmo santo dia como: liguei pro meu chefe e mandei ele pra aquele lugar (foi ótimo), peguei o carro e fui pra Pirinópolis (cidade próxima) e fui tomar banho de cachoeira e pra finalizar...bebi (entenda, eu não bebo).Resultado, minha irmã foi me buscar, não conseguia dirigir, minha mãe comeu meu rabo com farinha (desculpe rsrs) e meu chefe, a melhor parte, me deu uns dias de descanso!! E tudo isso pq eu me cansei de falarem "Vc é mt certinha", "Vc é mt boazinha", "Vc tem mta paciência", "Vc faz todo o serviço do seu chefe de boa?", "Vc não bebe NADA??". Afinal de contas, o que tem de errado nisso?? O mundo tá fodido mesmo, pq se as pessoas criticam por vc ser correta, lascou!
Bom, rsrs, voltando ao conto, esse dia de revolta, chega mais dia, menos dia pra todos.
Bom assunto Mauro.
Abço, Michele.

Anônimo disse...

bom texto me indentifique com essa realidade. "o sistema está empreguinado em tudo"

Parreira disse...

Ou seja, um dia a bomba explode. A minha tá quase.

E a virtude do texto é não ter rodeios: pá-pum! É isso aí!

Unknown disse...

Oi Fabrício, fico feliz que tenha gostado d'O BULE e é um espaço seu também, fique à vontade para comentar sempre e colaborar. Quanto ao seu comentário, quer mais algo opressor que rotinas como essa? É nem enxergar essa cadeia. Abçs.

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Oi Michele! Pois é... uma questão e tanto esse conflito entre imagem pessoal VS aquela que você ‘vende’ para sociedade e como essa mesma sociedade cobra certas atitudes e comportamentos de cada um. Uma hora TODOS questionamos isso e nos perguntamos: “Por que não?” O próximo passo que é o mais difícil (e também perigoso). A sua história é tão boa quanto a do personagem do meu conto e muitos outros, como também de um conto do Daniel Galera, chamado “Será numa quinta-feira”, acho que vale a leitura. bj

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armamentesÉ ruim essa identificação, não? Acho que sempre rola uma pequena identificação. Cada vez mais falta tempo para as coisas prazerosas em prol de alimentar esse 'Sistema", e pra quê?

Abçs

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Parreirão: Segura tua onda! :D Corta o fia azul, ou seria o vermelho, dessa bomba?

Anônimo disse...

Gosto desses contos, Mauro. Nos quais parece se desenhar um momento epifânico(?), uma espécie de flash de uma liberdade plena (que é impossívele existir para a vida em sociedade) como uma resposta a quantidade de tolhimentos que o sujeito sofre e não precisaria sofrer. O jogo do psicológico (id, ego, superego) apostando numa roleta quem tem mais força pra segurar o sujeito sob seu jugo.

Muito bom.
Espero sinceramente, já que é um conto, que ele saia matando todo mundo. (Um pensamento irresponsável meu, fazer oque?)

Abraço,
André.

Filha da Noite disse...

Olá, Mauro!

Já tinha lido esse conto há um tempinho lá nos drops do blog. (outra coincidência(?)?) Lembro que, na época, estava eu também, como o seu personagem, tentando sair da bola do hamster.. E também, como no seu conto, acabei parando no "por que não?" - sem dia de fúria para mim! rsrsrs Às vezes não é necessário pegar o .38: jogar a xícara na parede foi suficiente pra mudar muita coisa.. =)

Gosto muito do seu estilo e dos temas que escolhe.. identificação inevitável.

Abração!

Unknown disse...

Fala André! Pois não é que você acerta um tiro bem perto da mosca, brother!? Esse conto, como dito, pertence ao De Vermes... caso o leia por completo, vai ter mais desses exemplos de "momentos de despertar" - epifânicos ou não. Mas há sim esse embate de quereres do indivíduo versus socidade, dessa tensão e da posição que os personagens assumem que o título - estranho - do meu livro começa a ganhar sentido.

E como é um conto e aberto, você pode continuar a história e detonar todo mundo. :)