17 de jul. de 2010

Ménage à trois

Por Layse Moraes
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"O coração tem mais quartos que uma pensão de putas" Gabriel García Márquez
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Entrei no quarto escuro de mãos dadas com aquele a quem chamo de amor. Ela já esperava, sentada em frente ao computador, tentando escolher alguma música na falsa esperança de tirar o cheiro de velório do meu ventre, do nosso ventre.
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Podia sentir dentro das minhas próprias entranhas as contrações de prazer que vinham de dentro dela. Coisa de mulher - você me diz. Coisa de mulher - te respondo em total afirmação.
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O grande problema em fazer um ménage à trois, é que você perde o controle dos olhares - um dia eu te disse. Simplesmente perde. Meus seios, os seios dela, minha cintura, a cintura dela, o cheiro dos meus cabelos, o cheiro dos cabelos dela. Não se controla mais o olhar. Você não sabe, homem que és, não sabe fazer duas coisas ao mesmo tempo. Não consegue. Ou me olha, ou olha pra ela, com seus cabelos um pouco mal pintados e sua boca bem desenhada.
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Desprendimento da carne, desprendimento da matéria. Vamos lá, meus amores. Vamos todos nos lamber enquanto o mundo grita por um pouco de amor, por um pouco de coração. Esqueçamos essas bobagens românticas criadas por algum poeta do século XVI cujo nome esqueci. Esqueçamos das respirações na nuca, das mãos juntas - grudadas de suor ou de esperma. Esqueçamos também dos movimentos cardíacos, da alma que se perde em uma saliva que escorre do canto da boca, do pulmão a se esforçar com tanta respiração contínua, do gozo dividido entre dois corpos e dois "eu te amos" ditos ao mesmo tempo.
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Você tirou a minha roupa e começou a me beijar de um jeito diferente. Eu gostei.
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Ela veio logo depois e me fez sentir coisas que eu nem sabia que existiam. Nos possuímos feito três doidos, prestes a serem comidos por formigas carnívoras a qualquer momento. O único fim é o prazer. Doa a alma de quem doer.
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O coração tem mais quarto que uma pensão de putas, disse García Márquez. Eu, no mais baixo escalão da literatura, com dois corpos suados deitados no tapete da sala, digo que o sexo tem mais portas que esta mesma pensão. O maior problema é que depois de abri-las, não se é mais possível fechar.
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Layse Moraes - Estudante de Jornalismo e Estudos Literários. Apaixonada por literatura contemporânea, se pudesse se descrever em escritores teria o desassossego de Clarice Lispector, a poesia marginal de Caio Fernando Abreu e o coração de Vinicius de Moraes. Bloga em http://coracaononsense.blogspot.com

3 comentários:

Parreira disse...

As portas abertas, pois é!

Unknown disse...

Bárbaro!


3 almas? quantos olhos?!

adorei!

bjs

Giselle Zamboni

Anônimo disse...

Um texto que tem muito mais nele do que aparenta, não? Abertas as portas que não se fecham, o quanto surge diante de nós (coisas boas e ruins. ruins que parecem boas, boas que parecem ruins.)

Sincero texto Layse.

[]'s,
André.