26 de jul. de 2010

Impulso (des)humano

Por Ricardo Novais
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A dúvida me consumia. Andei pela rua. Jantei fora. Minha mulher me traía, de repente eu tive certeza. Não resposta absoluta, mas tive todos os indícios que vieram da primeira dúvida – se esta confusão mentia um pouco, e é possível que mentisse, não era por mal. Além de que a dor e a vergonha são maiores que o sentimento de ciúme. Madalena enganava-me com o primo. Isto, irrefutavelmente, torna tudo mais obtuso. Ao jantar, eu tomei a decisão. Daria cabo de minha vida. Sim, senhor que lê este triste conto, é caso de honrar-me com meu próprio sangue; não há descrédito maior a um homem que a desonra familiar perante aos vizinhos.
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A figura do sangue escorrendo de meus miolos abertos por arma de fogo devolver-me-ia a honra perdida; entretanto, como esta imagem sanguinária trouxe muito asco às minhas mãos, fui à casa farmacêutica. O balconista olhou-me, desconfiei dele. Voltei para minha casa. Entrei ao site da mesma farmácia e solicitei uma droga que me levasse para o além-túmulo. Não pense que foi necessária prescrição médica; oh, não. E, afinal de contas, quem precisa de opinião de um doutor para dormir em sono eterno sem sonhos? Além de que por certo que qualquer doutorzinho com ares positivistas dir-me-ia diagnóstico de cientista arauto: "Não é patológico, meu rapaz, estais a sofrer da síndrome de Otelo". Ora! Eu não precisava de tanta ciência, apenas desejava facilitar o caminho do anjo da capa preta. De modo que na tarde seguinte, chegaram a mim os comprimidos devidamente lacrados e exclusivos; ação tranquila e sem empecilhos de nenhuma autoridade do governo ou de casa de saúde, qual, inclusive, eu indico àqueles leitores que, por ingerência afetiva ou outra grave afetação, estejam ajuizando encontro mais discreto com a morte.
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Peguei do envelope contendo a droga e coloquei-o no bolso direito do paletó. Fui à cozinha. Servi-me de caneca de café pela metade e não muito quente. Encaminhei-me, vagarosamente, à saleta que servia de pequenina biblioteca. Descansei a caneca à escrivaninha. Fiquei a olhar para os livros velhos, espantei-me. A ironia apresentou-se diante de coleções de títulos de leis, de decorações, de jardinagens etc. que pareceram uma chamada de volta à vida. Ignorei a repreensão. Levei a mão ao bolso, peguei do pacote e retirei os comprimidos. Amassei-os raivosamente com uma colher pequena até virarem pó branco. Empurrei a substância mortífera todinha para dentro da caneca de café; à mesa não sobrou visível nenhum vestígio do conteúdo esmagado. O café já apresentava aspecto gélido; mas a dose era boa.
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Quando encostei a borda da caneca à boca para beber a coquetel letal, desisti. Tive outro medo. O que existe no além-túmulo? Eu estava nesta consideração metafísica quando Madalena entrou, repentinamente, ao gabinete avisando que o jantar estava pronto.
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- Que há?
- Nada.
- Você anda muito estranho estes dias, Pedro... – ela trazia um olhar triste e jogava-o fingidamente, assim o julguei. – Diga tudo, Pedro; diga, diga, diga...
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A insistência em dissimular daquela mulher comoveu-me...
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Ai, dona leitora, eu tenho certeza que irá julgar-me sórdido e cruel agora; e é possível que o senhor leitor arrepie-se e diga-me coisas feias. Chamaram-me: assassino monstruoso. De modo que quase me arrependo de contar-lhes o que fiz, mas digo tudo, vá, que isto é confissão. Tive ideia boa de oferecer à minha querida esposa a caneca de café. Isto mesmo; eu apontei gentilmente um brinde mortal à minha Madalena, a adúltera.
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- Quer café?
- Não, já tomei.
- Beba.
- Obrigado!
- Beba, querida, está bom; beba e acalme-se antes de conversarmos.
- Não quero; está frio!
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Não julgue, leitor; já disse! Eu era o homem, ela a mulher, e havia ciúmes. Maldito impulso que também é infiel à condição humana! Levantei a cabeça, dei com a figura de Madalena me fitando assustadoramente.
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- Que está acontecendo, meu amor?
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Eu nada dizia. Meu silêncio era constrangedor até para mim. Ela continuava perguntando, eu continuava mudo. Disse-me tolo, louco, insano. Falou que eu fantasiei algo doente que saiu do meu cérebro afetado. Mas não, amiga leitora. Quem dera fosse... Havia algo lá entre ela e o meu comborço.
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O desgraçado do primo dela já estava morto. Morrera três meses antes de desastre automobilístico. Mas a infelicidade era saber que Madalena pensava nele, não como parenta de finado fresco, ela lembrava como quem lamenta a perda do amante. Que vá encontrar-lhe então! Pro diabo com isto!
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- Insinua que o traio?
- Não disse nada.
- Tem coisas que não precisam dizer...
- Foi ao cemitério hoje?
- Que tem isto?
- Nada.
- Os mortos não traem, Pedro.
- Mas os vivos, sim!
- Sórdido!... Louco! Está louco, Pedro, louco!
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Os olhos dela eram incrédulos. Por fim, com olhar tão triste fingido, de súbito, ela saiu da sala, subiu correndo as escadas e trancou-se em nosso quarto de casal venturoso. Não jantamos. Eu ainda fiquei naquele recinto melancólico por algum tempo. Ficaria lá toda a noite e o resto da eternidade, mas não. Olhei os livros velhos, escrevi um bilhete sorumbático, peguei da caneca de café e desliguei as luzes. Fui à cozinha e... derramei o café funesto no ralo da pia – sempre haverá sites de farmácias para qualquer eventualidade. Dei às costas, subi as escadas, pé ante pé, pé ante pé, bati à porta do quarto, Madalena abriu e eu entrei. Fizemos sexo por quarenta minutos e fomos dormir.
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Ricardo Novais - Escreveu o romance debochado O Boêmio e o livro de contos Trem Noturno, ambos pela editora Bookess. Bloga em:http://blogdoricardonovais.blogspot.com

2 comentários:

Anônimo disse...

Ricardo, por que eu não consegui deixar de ver Machado pairando com aquela ironia no seu texto? Hahaha. Maldito(ou bendito) Machado de Assis! Depois dele o adultério não será mais o mesmo. Também senti um ar de Nelson Rodrigues (sei lá por que).

O Otelo Moderno é neurótico na mesma medida de sua Desdêmoda, e de seu ambiente. De tão certo, fica errado e só fica certo de verdade quando começa a parecer meio "subversivo".

Ricardo Novais disse...

Muito obrigado pelas ponderações, caro André. Contudo, este texto foi uma reflexão prolixa que acometeu-me diante de tantos julgamentos, muitas vezes precipitados, que fazemos dos impulsos cruéis e assassinos alheios.

Certa vez, em ofício ocioso, julguei esta nossa sociedade mais decente que as de outrora, pois além do próprio cadáver carrega também os cadáveres dos homens de outro tempo; eu ri disso. Hoje acho este pensamento ridículo, mas continuo carregado de pessimismo.

Confesso que, às vezes, não consigo dominar as vozes rodriguenianas que gritam de todos os lados - a velha poluição que vai juntando sob os telhados das casas e escorregando por excesso no asfalto; ainda mais difícil é não ver aquele desgraçado bruxo do Cosme Velho em tudo... Toda vez que o avião vai pousando no Rio eu o vejo da janela, a rir de mim, sempre num movimento perpendicular de lábios, sutil e discreto, sórdido e indiferente; juro-te! Por vingança, atrevo-me a escrever. Sei que é impossível alguém ser mais genial que aquele bruxo; mas, sendo honesto, devo dizer que nunca pedi a Deus a genialidade, de modo que contento-me em pensar que o velho bruxo se revira no túmulo; embora eu logo me envergonhe disto por saber que ele se revire em seu mausoléu suntuoso de Botafogo por puro deboche. Bruxo desgraçado!

Tudo isto quer dizer apenas que eu não sei o que sou capaz de fazer a fim de dominar o meu impulso, quase humano.

Um abraço.

Ricardo.