12 de jun. de 2010

Um microconto, do livro inédito 'Tesselário'

XX. NO FUNDO DA ALMA.
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Por Geraldo Lima
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Já pensei naquela bola um milhão de vezes.
(Do goleiro Barbosa, sobre o último gol do Uruguai.)
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De tão trágico, aquele lance deve ter sido maquinado antes mesmo da gênese da palavra bola, num tempo em que pulsavam apenas o abismo e a solidão divina.
Anterior à ideia de grande área. Antes, muito antes da noção de alegria e de tristeza. Antes, muito antes, num espaço vazio, num tempo oco, começara a existir: súbito objeto esférico, feérico, fêmea libidinosa, sinuosa, matreira, vindo por entre as pernas dos jogadores, nem sempre tocando o chão, prestes quase a alçar voo, rolando sobre o gramado, rendendo-se ao assédio dos pés no leito verde, sob apupos, sob aplausos, indiferente a tudo, vindo, vindo, se aproximando imensa, lua cheia belíssima, planeta longínquo ainda por ser descoberto, astro luminoso cegando-o completamente, furtando-lhe o movimento preciso, a agilidade, a alma de felino...
Por fim, cruzou rente à sua vida, tocou o fundo da rede, cessou... e continuou a rolar na sua mente, no campo esmaecido da memória, refazendo trágica o mesmo percurso, indefinidamente.

10 comentários:

Parreira disse...

E assim vai continuar pelo tempo afora, infinitamente, ad infinitum.

Fernando Rocha disse...

Acho que os micro-ontos chegaram para ir onde Virgínia Woolf, Clarice Lispector, apontaram , mas não chegaram por um problema diacrônico, o mais sublime que é um instante, o seu conto partindo de um mote, consegue por meio de analogias interessantes extrair beleza das palavras.

Anônimo disse...

Pensei o mesmo do Claudio Parreira: e vai se repetindo até a eternidade.

Os tempos que não eram tempos são a chave de muitas portas de mistério.

Geraldo Lima disse...

A angústia maior é esta, Parreira: o pulsar da memória, a lembrança que gruda e não deixa a mente repousar em paz.
Obrigado, meu caro.

Geraldo Lima disse...

Olá, Fernando, obrigado por seu comentário. Condensar, em poucas linhas, todo o drama existencial que Clarice e Virgínia fizeram pulsar nos seus textos longos, verdadeiras viagens pelos labirintos da linguagem e da alma humana, é um desafio. Essa é uma meta que persigo com meus microcontos. E suas palavras veem iluminar tudo isso com mais intensidade.
Um abração.

Geraldo Lima disse...

Os tempos míticos, André, são portas abertas para o mistério.
Obrigado.
Um abração.

Anônimo disse...

No Fundo da Alma: eis o texto de quem sabe domar as palavras. (Joel)

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Joel, pelo comentário. Volte sempre.

HOMERO GOMES disse...

Perfeito para ser lido no intervalo do jogo do Brasil. Postei no Facebook... vai que tem um doido lá. Amar literatura e futebol dá nisso, conseguir poetizar momentos assim não é pra qualquer moleque! Bravo, Geraldo.

Geraldo Lima disse...

Valeu, Homero, pelo comentário e pela divulgação no facebook. Já fui bom de bola, meu caro!