27 de jun. de 2010

Um microconto, do livro inédito 'Tesselário'

Por Geraldo Lima
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VIII. ZEZÃO.
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A figura atravessou a ponte e veio no rumo de casa. Menos que um homem visto assim mais de perto: um espantalho, um bicho.
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Corremos pra dentro de casa. De lá, espiando pela greta da janela o ser desgrenhado especado ali no terreiro. Nosso pai veio lá do curral e se aproximou dele. Com certa alegria, a voz do nosso pai: Ora, mas se não é o Zezão de guerra! Quem é vivo sempre aparece... Abrimos então a janela: ali, à nossa frente, no ser maltrapilho, a lendária figura de Zezão. Com quantas festas acabara? Havia roubado a mulher de quem? Duas mortes nas costas, nenhum peso na consciência.
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Louco. Andara pelas estradas e pelos ermos. Nos campos, entre o gado, roendo coco e chupando ingá — João Batista, no deserto, sobrevivendo com quase nada. Noção nenhuma de vida e morte. De cócoras, quase nu diante da nossa casa. Por pudor, as mulheres lá na cozinha. Em troca da roupa limpa, a mão suja estendida cheia de coco indaiá. Um quase sorriso em meio à barba cerrada. Ruína de dentes. Tudo o que lhe restara: o silêncio e uma generosidade insana.

13 comentários:

Anônimo disse...

Eu não sei se o microconto é uma coisa que "funciona" sempre. Pessoalmente, nunca escrevo contos curtos assim (creio o meu mais curto tem três páginas, isto é, uns 5000 caracteres).
O texto "Zezão" não é apenas bem escrito, possui imagens expressivas, de grande beleza poética, mas não o vejo como um conto inteiro: são três parágrafos de um conto maior que não teve prosseguimento, e sendo assim, está faltando o resto. É uma pena.

Gil Cleber
www.gilcleber.com.br

Fabrício Brandão disse...

Belo conto, Geraldo! A força das imagens salta aos olhos, é a pedra fundamental,diria.

Abraços literários!

HOMERO GOMES disse...

A literatura não deve ser classificada, muito menos calculada à base de calculadora. Geraldo teçe com talento e poesia. Seu conto é poesia da melhor qualidade; por isso, não dá pra pasteurizar em uma categoria escolar. Parabéns, mais uma vez, ao Geraldo. Abraço do Homero.

de Dai para Isie disse...

Convenço-me cada vez mais de que ser contista é um dom. Parabéns!

Geraldo Lima disse...

Gil, o microconto exige mesmo que o leitor complemente a história. De todas as categorias literárias, penso que seja a que mais exige essa participação, pois o que é oferecido ao leitor é um recorte breve de uma situação que poderia ser ampliada com riqueza de detalhes. A vida do Zezão, por exemplo, daria, sem dúvida, um romance, daí essa sensação de que falta um final ou que falta contar mais sobre ele. Obrigado pelo seu comentário. Valeu.


Fabrício, obrigado por ter percebido essa "força das imagens". Valeu pelo seu comentário.

Meu caro Homero, essa aliança entre prosa e poesia é, para mim, o que tem resultado em grandes obras literárias. Tendo mesclar, da melhor maneira possível, esses dois elementos. Obrigado pelo seu comentário.

Isie, obrigado pela leitura e pelo comentário do meu texto. Volte sempre.

Parreira disse...

Ao contrário do que muita gente pensa, os micros é que são difíceis de escrever. Cada palavra tem um peso exato, e atingir o equilíbrio não é pra qualquer um.
E esse Zezão aí é um tio meu. Sério.

Anônimo disse...

para bom entendedor, mei con bas...

[]s,
Ainatania.

Alexandre Lobão disse...

Grande Geraldo!
Escrever pouco e dizer muito é uma das mais difíceis artes - e você a domina com maestria!
Parabéns por tudo!
Forte Abraço,

Geraldo Lima disse...

Parreira, depois você me manda um e-mail contando desse seu tio, ok? Bom, escrever microcontos é como escrever hai cai: exige rigor e exatidão no uso da palavra. Obrigado pelo comentário.

Ainatania, genial o seu comentário. Obrigado.

Anônimo disse...

Geraldo, descritivo na medida, faz gosto. Dá vontade de ler mais e entender o que rodeia a historia do "Zezão".

André.

Geraldo Lima disse...

Alexandre, é sempre bom vê-lo por aqui. Obrigado, meu caro, pelo seu comentário.

Olá, André, fico feliz que você tenha gostado do Zezão. Como eu disse, ao me dirigir ao Gil, essas lacunas no microconto devem ser preenchidas pela imaginação do leitor. Agora, seria possível escrever uma história maior sobre a vida do Zezão? Não tenho dúvida que sim.
Obrigado pelo seu comentário.

Ivone fs disse...

"Tudo o que lhe restara: o silêncio e uma generosidade insana."

a inocência apodera-se de seres assim tão S. Francisco de Assis..transcendência...

excelente texto. um presente que caiu-me aos olhos, não por acso, certamente.

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Ivone, pelo comentário. Outros textos virão, outros presentes, espero.