29 de jun. de 2010

Nacos de Necas & Outras Histórias - 03


Por Claudio Parreira

1
Dizem as vozes antigas que o céu, quando recebe alma nova, toca
trombetas e sinos e se abre numa festa que começou antes e que acaba
nunca.
Dizem as vozes antigas que o inferno faz a mesma coisa, só que de
cabeça pra baixo.
Sobre a terra, as vozes antigas dizem o seguinte:
— Daqui ninguém sai vivo!!!


2
Um olhar
sorrisos
beijos e abraços
o nó das pernas
— assim se reproduzem os vivos.
Sem nada disso — e muito mais rápido —, nos jornais se reproduzem os
mortos.


3
Na esquina dos insultos, até os mudos trocam silêncios grosseiros.


4
Quem parte compensa a tristeza do adeus com a felicidade do seja
bem-vindo.
Tem sido assim desde que as pernas inventaram as viagens.
Agora, pra quem parte de ninguém em direção a ninguém, nada
compensa — tenham as pernas asas ou motores ou rodas ou o que quer que seja.


5
O homem que se cura das febres e delírios do desejo passa o resto da
vida doente.

4 comentários:

Anônimo disse...

Jogo rápido, hein Parreira?
Esses nacos vieram com mais humor. Ou seriam a presença de necas?

No tema da vida e da morte, nós, homens curiosos demais, iremos pensar até que percamos a nossa humanidade.

[],
André.

Luna Freire disse...

Da terra, é certo que ninguém sai vivo. Mas há casos piores: aqueles que chegam mortos e assim permanecem, durante toda a "vida". Deliciosos nacos esses Parreira...

Zenalim disse...

Um mudo me disse que leu, um cego disse que viu e um maneta me escreveu. Todos gostaram e recomendaram a leitura desse texto. E não é que tinham razão!

HOMERO GOMES disse...

Concordo com o André. Esses estão mais bem-humorados. Abraço. HG