26 de jun. de 2010

Enora

Por Eugênia Ribas Vieira
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Enora: abertura do convés do navio, barco ou paquete, onde se fixa o mastro. Do latim extremidade; borda. Limite contra-mar. Última instância perene ao horizonte. Vista eterna.
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Em um jantar de família, meu avô ficou de pé e anunciou: havia comprado um barco. Estava portado no Iate Clube, e uma vez por mês iríamos sair para passear. Lembro deste momento como um dos mais divertidos de minha infância. Foi quando comecei a gostar de mar e a instigar a vida também pelo seu absurdo.
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Sapatos de solas de borracha e vara de pescar, três vezes o meu tamanho. Meu avô vinha atrás, em seus passos firmes. Carregava junto ao corpo um balde malcheiroso, com pequenos siris e caranguejos que serviriam de isca para o grande tubarão! Meu avô não era pescador, mas conhecia a lábia. Dizia-me, usando seu tom de voz mais grave, ter enfrentado tubarões, peixes-espadas e baleias. Uma vez, inclusive, lutara com um monstro de três olhos e de barbatanas gigantes, e eu “acreditara”. Tinha sete anos e sabia que os adultos viviam inventando histórias para as crianças. Como eu adorava ouvir as histórias, fingia acreditar. Sabia que no fundo contavam para si mesmos, que eram eles que queriam acreditar. Para mim, a própria realidade era capaz de me fornecer todos os atributos para uma fantasia esvoaçante. Um peixe grande qualquer, voava em meu quarto por noites insones.
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Isso eu não dizia ao meu avô, não contava que tinha medo dos bichos do mar. Preferia, na verdade, brincar com os caranguejos do balde enquanto as ondas entornavam, pequenas e redondas, no casco. Gostava do balanço do barco, de seu traçado sólido marcando profundamente aquela superfície escura e aquosa, como na arte da gravura. A cada tarde sobrepunha-se um novo desenho. Meus pés iam descalços, pendurados numa rede, para fora do barco. O vento tocando os pés avisava o rumo que tomávamos. Meus pés, tal o mastro do navio, balançavam de acordo com a direção. Eu gritava alto para o meu avô: “Leste! Oeste!” -, mas tudo não passava de uma invenção, repetida sempre que sentia a mudança do vento. Meu avô se divertia, girando de propósito o volante para um lado e para o outro. Sem qualquer esforço, virávamos, e eu sorria com aquele brinquedo grande e real, observando o ponteiro da bússola que guardava em mãos alternar-se feito um doido. Quem era doido, mesmo, era o meu avô.
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Olhei para trás e o vi como num retrato. O chapéu de couro bege claro e de abas largas amarrado no pescoço, as mãos protegidas por luvas de borracha que deixavam os dedos à mostra, e um mar cristalino ao fundo. Olhei mais perto do retrato e percebi que seus cabelos brancos pontilhavam a borda do chapéu. Sua barba também trazia fios grisalhos. Seus olhos estavam contorcidos e esmagados por fortes rugas, que o arranhavam profundamente. Quando olhei para trás, vi que meu avô estava mais velho.
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Tinha doze anos quando paramos de andar de barco. Os passeios aos poucos foram diminuindo, e o que era a ida à Angra, virou Paquetá. Em nossas últimas saídas, apenas contornávamos a praia de Botafogo. Depois de Botafogo, não passeamos mais.
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E meu avô partiu pelo mar. Assisti seu corpo resplandecer à distância da enora, sugerindo sua ida para o horizonte. Um desespero surgiu. Percebi que nunca saberia qual é esta distância e que nunca teria controle sobre ela. Meu avô partiu, assim como partem os pássaros, foi o que me disseram na recepção do hospital. Eu sabia: meus pássaros nunca voltaram.
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Doença de pele. O sol acobertou os poros de meu avô feito um pano áspero e sujo, feito lã guardada provocando urticárias. Foi o sol e o cigarro, me explicaram. Um vazamento de óleo que tapa as barbatanas do peixe e o impede de respirar. Era a minha primeira grande perda. Ardeu como uma chuva ácida que se infiltra pelos olhos e arrebata inversamente o coração. Nunca chegara a pensar na morte, mas ela existia. Um terreno ainda movediço. Não apenas para mim, para todos. Uma ilha, talvez, perdida em mapas da descrença. Uma medida mínima que ultrapassa com suavidade o limite cravado - enora - e caminha incerta para além da linha tênue entre o que se faz vida e o que se faz morte.
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Meus pássaros nunca voltaram, eu dizia baixinho, olhando no espelho de um banheiro verde claro de hospital. Dizia baixinho e repetia aquelas palavras, lembrando-me das pequenas ondas que se contorciam e batiam de volta no casco de nosso barco. Elas sempre retornavam, num eterno movimento. Houve um tempo em que o mar era movimento. Agora, eu pensava, o mar está parado. Meu avô, um corpo frio e azul, parado no leito de um quarto de hospital.
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Eugênia Ribas Vieira é formada em jornalismo pela PUC e sempre trabalhou com livros. Participou da equipe de criação do selo Safra XXI e hoje faz parte do departamento editorial da Rocco. Por curiosidade, e por osmose, gosta de escrever. Também bloga em www.curabulalivroclube.blogspot.com e www.momentosespontaneos.blogspot.com

10 comentários:

celeal disse...

Enora: sonoridade familiar. Atavismos de uma prosa poética que respira através do convés da literatura sensível de Eugênia. Lindo, lírico texto.
Parabéns,
Carlos Eduardo

Paula Cavalcanti de Castro disse...

Eugenia
Deuma forma lírida você nos faz viajar pelo tempo,mistura de fantasia e realidade - não existe realidade,só versões. A versão de uma criança frente à morte, o ienixplicável para todos- o pássaro que não volta. Em algum momento associei a morte à música Afonsina y el mar en que ela vai andando,andando e se afoga..Adorei, acho que deve escrever sempre, é a forma que você tem de estar perto, junto, compartilhando emoções.Continue...
Paula Castro

Paula Cavalcanti de Castro disse...

Eugenia,
De uma forma lírica você nos faz viajar ao passado,e do ponto de vista de uma criança, relação do papai com o mar. Limite entre fantasia e realidade, a visão de cada um é a própria realidade. Seria interessante que todos escrevessem um conto sobre o mesmo tema.
Você de uma forma delicada dialoga com a morte , inexplicável para todos, crianças,adultos, e nos transporta de um mar azul para um hospital num vôo leve e denso. O que sei, é que pássaros não voltam mas como diz a Adélia Prado, ö tempo ia me deixar de cama, não vai mais, vou moer lembranças".
Adoro a forma como escreve, às vezes me lembra Cecília Meireles pois a forma é extremamente delicada e não direta, lírica e forte ao mesmo tempo.Continue neste caminho para que posssamos usufruir cada vez mais dos seus contos(crônicas!!-limite do real e fantasia).Beijos

HOMERO GOMES disse...

Que surpresa, Eugênia, me lembrou o querido Bartolomeu Campos de Queirós. Parabéns pelo texto, obrigado pela leitura. Homero

Unknown disse...

Muito bom. Também gostei. O texto é fluido e emocionante, capaz de despertar e levar à reflexões.
Parabéns e continue sua arte de escrever.

C.I.J.A. disse...

Muito bom Gê.
keep walking - esse é o caminho.
beijos
Pedro Henrique Torres

Anna Buarque disse...

Amei, Jeannie. Tão honesto, tão bonito.
Beijos,
Anninha Buarque

Anônimo disse...

Lendo o livro que Albert Cohen fez para a sua mae, eu me perguntava qual é a fronteira que separa o subjectivismo da realidade num escrito autobiográfico. Seu conto é mais um exemplo que escrever sobre o passado, exaltar lembranças, recordar, é também uma criação, e das mais complexas. Ge voce mergulha de uma forma distinta, sensivel, infantil que faz das suas memorias uma narração lírica e bela. Uma emocionante homenagem ao vovo nando.

Anônimo disse...

"para mim, a própria realidade era capaz de me fornecer todos os atributos para uma fantasia esvoaçante."

Coisa que precisamos preservar durante o processo de "crescimento" (ou seria encolhimento?). Que texto, Eugênia, que texto! Parabéns. Saudoso e dolorido, principalmente para quem já perdeu alguém nesse movimento incontrolável da vida.

Obrigado por essa leitura,
André.

Leonardo Villa-Forte disse...

Que delicadeza com as palavras, Eugênia. Esse conto é muito bom, me faz imaginar você escrevendo como quem faz um tricô atencioso ligando os mínimos pontos. Parabéns.