18 de jun. de 2010

As nossas memórias de Saramago

Por Maria Estela Guedes
.
Pelas recordações de José Saramago, ficamos a saber de onde partiu o homem que ele hoje é. Partiu da sua aldeia natal no Ribatejo, banhada pelo Almonde, na bacia do Tejo, a Azinhaga, hoje bem conhecida graças ao escritor.

Se por aqui começo é porque o próprio José Saramago, em texto que circula pela Rede, declara ter escrito estas memórias para que nós, leitores, soubéssemos qual a sua origem.

Modesta empresa? Parece empresa modesta, essa de enumerar factos miúdos, tão de miúdos como cocós e chupetas, tal como parece modesta empresa o livro que os narra. E é novamente o autor quem algures refere que a obra não é literatura sobre factos vividos, a obra é os vividos factos.

Realmente parece tudo muito modesto, o que não quer dizer que o seja. O livro pode ser lido pela mais humilde ceifeira de Azinhaga, mas a claridade que o banha não é a-literatura. É apenas um dos muitos estilos da forte personalidade de Saramago, polígrafo ou versátil o bastante para ir de um extremo ao outro, desde a cerrada literatura do Evangelho segundo Jesus Cristo ou Memorial do Convento até à não-retórica de obras despretensiosas como O Homem Duplicado ou estas Pequenas Memórias .

As Pequenas Memórias são tocantes. José Saramago é um herói. Não pretendo desvalorizar com este desabafo os capitães de Abril e militares de mais antanho, apenas alargar o perímetro dos valores que tapetam o salão do que consideramos heroísmo. Saramago alcança o Nobel, um ponto dos mais altos a que alguém no planeta pode chegar, a partir de uma condição de total carência de armas e bagagens. E é só desta pobreza que pretendo falar, pois é sobre ela que se dispõem as vitualhas de recordações que, sendo pessoais, não pertencem só a José Saramago: são as nossas memórias, de portugueses, que ele dá a ler ao mundo.

A pobreza que ele mostra. A dada altura dormia no chão e comia a sopa do mesmo prato que a mãe, ele tirando agora uma colherada, e ela outra a seguir. Não é esta a maior pobreza, sendo, até, do meu ponto de vista, a passagem do livro mais rica no que respeita à ligação afectiva com a mãe.

A pobreza de quem pela primeira vez toma contacto com a ficção ouvindo uma vizinha ler em voz alta um romance publicado em folhetins. A pobreza de quem em casa não tem uma estante de livros a desempenharem a sua protectora função maternal do espírito. Por isso não será por acaso que, num livro em que se recua até à mais longínqua infância, a presença da mãe seja discreta. A maior pobreza da infância dos portugueses que nasceram na primeira metade do século passado resulta da distância da mãe, e de um razoavelmente distante pai que impressiona mais pela farda policial do que pela autoridade de facto paternal. Falo em termos simbólicos, pensando no desempenho político tão autoritário de Salazar e em quanto a retórica dos valores do macho apoucou os da mulher. Havendo necessidade de escolher, por falta de posses para pagar estudos a todos os filhos, iam estudar os rapazes, as raparigas ficavam em casa. A mulher servia ao marido os melhores bocados de carne. Em qualquer cerimónia que exigisse representação familiar, ia o filho, sempre era um homem.

Faço alguma retórica, pois naquilo a que retoricamente se chama o "Portugal profundo", a situação ainda se mantém. E é neste sentido, de afastamento da mulher para a sombra do homem, que digo que Saramago e muitos outros vivemos tempos em que a mãe estava distante. Ela pesa quase nada nas cento e tal páginas do livro.

Pesam bem mais coisas e factos, pesam as palavras. Pai e mãe pesam menos que os avós. Do livro está ausente aquilo que nos faltou, à maior parte de nós, de infância situada em tempos anteriores aos anos sessenta: o afecto expresso na carícia, no colo. Nesses tempos, a educação reprimia manifestos corporais, pesada era também a mão da Igreja a lançar a mancha do pecado sobre a emoção e a sua linguagem. Eram tempos tacanhos, de ideias mesquinhas, angustiados pelo discurso da culpa.

Por tantos motivos este livro de Saramago, que não se pretende literatura, e deseja ser lido pelos conterrâneos, sobreviventes como ele dos magros dias dos anos trinta, toca como nenhum outro dele. Apertam o coração as páginas dedicadas aos avós, à penúria das casas onde viveu, aos bacorinhos que os avós salvavam da morte levando-os de noite para a sua cama, arrepia o relato das maldades dos garotos, e em especial as que vitimaram a criança Saramago. São episódios da vida dele, intransmissíveis como um bilhete de identidade, mas, se impressionam como coisas por nós vividas, é porque se transcendem a si mesmas, para se tornarem as nossas memórias, as memórias do português comum, que não nasceu num berço de oiro, numa família de letrados, em que bem mais fácil lhe teria sido a carreira literária.

Vencer nas letras em Portugal, sendo oriundo de família tão carente de bens materiais e intelectuais, tão desmunida do poder da influência, exige carnadura e valentia, para além do dom da escrita. Saramago fez a sua guerra e venceu-a. Tal como outros relatam os feitos de uma guerra colonial de que guardam cicatrizes, também ele exibe as da criança que foi e diz como foram curadas. Não existe comparação possível de valores dos dois tipos de feridas, anoto apenas que das nossas pequenas memórias de Saramago fazem parte feridas e respectivas cicatrizes, tal como fazem parte as lousas e os instrumentos de as riscar, uns mais duros, os lápis de lousa, e outros mais suaves, os lápis de leite.

Vivemos hoje num outro mundo. As pessoas emigraram, voltaram e têm ajudado a arrancar o país da pobreza. Tudo tem reverso da medalha, não podemos esperar ouro do chumbo, como se todos os emigrantes fossem alquimistas. A Azinhaga de hoje será mais rica, as casas novas a substituírem aquelas de que fala o autor, não conheço a aldeia. E com essa mudança, das casas ricas em vez das pobres, perdeu-se a pátina do antigo, e daqui a trinta anos as casas novas estarão velhas sem chegarem a saber o que é a memória da origem. O cimento, diferentemente da pedra ou do barro, não tem capacidade para guardar lembranças. Não podemos ter tudo. As Azinhagas da nossa infância já não são as nossas Azinhagas. Já as velhas não levam à cabeça para estrumar os campos o conteúdo dos bacios, já não há quem da tarefa se ria dizendo que vai levar o viático. Bruscamente, saímos das serras para a cidade, entrando a galope na civilização. Antes isso, antes uma boa casa-de-banho e uma cozinha esterilizada. Porém anseio por que sobrem alguns muros e vias romanas na vitória da auto-estrada sobre as rústicas quelhas dos Fornos ou dos Loureiros. Se isso desaparece, ganhará a batalha a riqueza, mas perderemos toda a memória.
.
* Texto retirado do site Triplo V
.
LEIA MAIS:

ENSAIOS SOBRE O AUTOR

2 comentários:

ítalo puccini disse...

senti por demais, demais.

e o que virá de produção dele a partir de agora? :/

Anônimo disse...

Perdemos um grande escritor.