12 de mai. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Por baixo dos panos

A mão do outro metendo-se entre suas coxas, deslizando por baixo da calcinha, imprudente, ávida. Ela: úmida, quase louca, lutando em silêncio contra o desejo. O marido ali bem do lado, contando uma piada muito engraçada (contar piadas, o que melhor sabia fazer). Todos morrendo de rir em volta da mesa, e ela rindo também: riso, choro, gozo.

Breu

O desespero é um abismo: a pessoa age sem fio algum de razão. Naquele momento, bastava ter se acendido uma luzinha na minha mente para que o mal se esgarçasse. Eu avançava no breu. Veja, o ódio é uma coisa medonha, absurda, cegante. Depois do último estalido, o cheiro de pólvora — meu corpo recuou vazio, uma coisa oca, sem sentido, como se morresse.

Vazio

Abriu a porta e deu com ele lá, especado, tronco arcaico, desumano. Um turbilhão de imagens e rancores assaltou-lhe a mente: o passado todinho de volta, castigado pelas rugas. Pensou em fechar-lhe a porta na cara, mas não o fez. Ele sentou-se no sofá; ela, numa cadeira distante. E mergulharam num mundo sem palavras, sem gestos, sem vestígio algum de esperança.

5 comentários:

HOMERO GOMES disse...

Agora, sim. Micronarrativas que podem ser sorvidas com prazer e lentamente, como o cafezinho que está no meu colo.
Geraldo, textos suculentos.

Geraldo Lima disse...

Valeu, Homero. Bom você ter saboreado essas micronarrativas, que estão, aliás, chegando ao final. Um abração.

Parreira disse...

'Vazio' é insólito porque humano. Demais.

Geraldo Lima disse...

Valeu, Parreira. Acho que o pior é isto: quando não é possível nenhum diálogo mais.

Anônimo disse...

Ei Geraldo Lima, "por baixo dos panos", me deixou excitada. uau!