20 de mai. de 2010

'Mulheres' - última parte

Por Claudio Parreira

ALÉM DO ESPELHO


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Uma lenda pode estar
além do tempo e lugar

Jean Cocteau Orphée 1950


RUA AUGUSTA

TALVEZ a noite já tivesse chegado, mas ele não tinha certeza. Estava na padaria há pelo menos oito cervejas, ou quatro conhaques, vai saber. Difícil determinar o tempo nessas condições. A única coisa que sabia de fato, que sentia como um prego nas costas, era sobre a solidão. A sua solidão. Tão sólida quanto o balcão repleto de garrafas.
Não foi sempre assim. Houve tempos, pensava, em que a solidão era apenas uma imagem distante e pendurada na parede, um sonho sonhado por outro. Havia a mulher, a pequena e confortadora felicidade dos abraços e dos sorrisos. Mas agora não, a história era outra, uma história apenas retrospectiva, sem registro do presente e de futuro improvável. Uma história vazia, como as garrafas.
— Se cachaça fosse remédio, Zé, vendia na farmácia!
A voz vinda de lugar algum. De quem a voz? Ele não sabia. Mas estava firmemente ancorado no balcão, e era isso o que importava. A padaria, ela sim um barco bêbado, rodopiando ao sabor das ondas alcoólicas.
Quando enfim deixou seu porto seguro, a Rua Augusta parecia um deserto negro, pontuado aqui e ali por postes de luz esquálida. Postes tortos, distorcidos, flutuantes às vezes. Mas concretos, ele confirmou, plantados com firmeza no chão. Estranhas árvores cinzentas.
Agora sim sabia da noite. Madrugada — e tinha certeza, apesar dos fartos conhaques. O cheiro inconfundível da cidade adormecida, os sons cegos da metrópole.
— Aonde meus pés me levarão?
Houve um tempo de casa e endereço, cama e banho quente. Seu lar agora era o mundo. Ainda tinha casa, sim, endereço também. Mas não queria voltar. Pra quê? As lembranças são flechas que envenenam a alma, e em casa elas doem mais. A Rua Augusta, portanto, seu abrigo mais seguro. O asfalto antigo, as calçadas esburacadas. A liberdade dos pés.

A DAMA DE NEGRO

— Vai mais uma?
Ele abriu os olhos e se percebeu voltando de longe, muito longe.
— Manda.
A vida secreta da padaria: as moscas zunindo, as baratas antiquíssimas sonhando pães, um cachorro velho que observa um frango assado desde sempre. A cerveja vem quente, um gosto de isopor, os postes da Rua Augusta. Árvores cinzentas. Um sonho?
— Desde quando estou aqui? — ele pergunta.
O anão da caixa registradora sobe numa cadeira para responder à altura:
— Faz setenta cervejas, acho, que você encostou aí nesse balcão.
— Setenta?
— É. Um tempo líquido e gelado.
— Os conhaques esquentam um pouco.
— É isso aí. Mas não são suficientes, você sabe.
Foi no quase calor dos conhaques que ele percebeu a carruagem entrando lentamente no seu campo de visão. Quatro cavalos negros puxando a carruagem igualmente negra, um ônibus atrás, outros carros na frente, o trânsito insuportável de todas as noites, sem sustos ou tumultos.
— Olha só isso! — admirou-se o anão.
Da carruagem sem condutor ela desce, também de preto, seu corpo parecendo flutuar. Os olhos objetivos grudados nele, cegos para o entorno. Um vento gelado atinge o balcão em silêncio e derruba o anão da cadeira.
— Vamos, Rien — ela ordena. — Não temos tempo a perder.
— Meu nome é Zé — ele retruca.
— Vamos — ela repete.
— Você tem que me devolver Eurídice.
— Vamos!
A luz amarelada dos postes caindo sobre o interior da carruagem. Os dois em silêncio. O trotar ritmado dos cavalos. A Rua Augusta subitamente virando névoa.
— Aonde vamos?
— As palavras — ela fala —, as palavras inúteis. Vamos para o silêncio.
O silêncio, ele se lembrou. Suas palavras também silenciosas. Um poeta agora mudo. Poeta?
— Minha poesia desapareceu junto com Eurídice. Um deserto aqui por dentro.
Ela sorriu. Um poeta, é claro que sim. Tinha o poder de calar um poeta. Não pode se conter e sorriu mais e abertamente. Poderosa.
Foi quando seus olhos encontraram os dele. Vazios. Uma tristeza que ela mesma ignorava. Sentiu um calor já conhecido no peito, pela primeira vez em séculos.
— Feche os olhos, Rien — ela ordenou.
— Onde estamos indo? — ele perguntou novamente.
— Pra minha casa — ela respondeu. — Feche os olhos.
Ele não obedeceu. Pela janela da carruagem ele se percebeu entrando pelas largas portas de uma casa sem paredes.
— Que inferno é este lugar?
— Aqui não é o inferno. Ainda não se deu conta do que está acontecendo, Rien?
— Rien, Rien... Esse não é o meu nome!
— Pra mim, agora, você é Rien. Aliás, sou Rien também. Muito prazer, se é que ainda se usa falar assim.
Ele olhou à sua volta. Nada. Os olhos dela emitiam um brilho tênue na escuridão.
— Rien — ele falou finalmente. — Por que eu, você também Rien?
— Por nada — ela respondeu com naturalidade. — Porque Rien é nada.
Mais uma vez ela fitou os seus olhos. Toda uma história contida ali.
— Eurídice. Você a amava muito, não é?
Ele sorriu. Seus lábios se moveram mas ele não conseguiu falar. Ao invés disso se ajoelhou, e de seus olhos as lágrimas brotaram com força. À sua frente, no chão poeirento, uma poça começou a se formar.
— Que espetáculo deprimente, Rien! — ela falou. Estava, no entanto, comovida — mesmo que não quisesse, não pudesse admitir.
Uma eternidade se passou até que a última lágrima caísse no chão. Quando isso aconteceu, do brilho líquido da poça se ergueu um espelho alto e largo, robusto, um espelho antigo.
— Agora! — ela ordenou. — Vamos, Rien.
Ela pegou a sua mão e entrou no espelho. Ele se sentiu como se estivesse mergulhando no vazio.

INFERNO

— Acorda aí, bebum! — gritou o anão. — Tá pensando que aqui é hotel?
— Cadê ela? E o espelho?
— A breja táqui. Mas que espelho é esse que você tá falando?
Rien, ele se lembrou. Atravessaram o espelho. Mas pra onde?
As paredes da padaria se dissolvendo. Da fumaça escura e quente surgiu ela, Rien, as mãos estendidas em sua direção.
— Vem — ela disse. — Meu amor.
Seus pés se moveram contra a sua vontade. O abraço súbito, o beijo ácido, repleto de urgências.
— Por quê? — ele perguntou enfim.
— Porque.
— Eurídice, ela está aqui?
Os olhos dela faiscaram.
— Não sou capaz de fazer você esquecer, não é?
— Ninguém é.
Três homens surgiram ao fim de um longo corredor. Aproximaram-se depressa.
— Vejo que você o trouxe — falou o mais jovem dos homens.
— Eu não falho jamais — ela respondeu, serena. — Não é mesmo?
— Leve-o para a sala de sentença — falou um outro homem, os cabelos e o cavanhaque vermelhos.
O terceiro homem apenas sorriu, virou as costas e voltou para o corredor, deixando para trás um rastro de fumaça escura. Os demais o seguiram, em silêncio.
— Quem são esses aí? — ele perguntou.
— Gente sem importância.
— Sala de sentença? Vão me condenar, é?
— Você já está condenado. Mas não agora.
Os olhos dele alcançaram os dela, passearam por seu corpo. Uma bela mulher, enfim. Por que não? E ela, afinal, sabia de Eurídice.
— Eu tenho uma proposta — ele disse. — Você me deixa ver Eurídice, uma única, uma última vez.
Ela sorriu.
— A troco de quê?
Ele imaginou o futuro: uma vez com Eurídice, fugiria com ela para longe, para além do espelho. Rien — ou fosse ela quem fosse — não poderia detê-lo. Ninguém poderia.
— Minha alma — ele respondeu.
— A mim não interessam as almas de ninguém — ela falou, um brilho vermelho nos olhos. — A mim só interessam os corpos. O seu corpo, Rien.
— Pois terá o seu corpo e tudo o mais que quiser. Mas quero ver Eurídice agora.
Ela se sentou no vazio, acendeu um cigarro e ficou em silêncio por um longo tempo, ao fim do qual falou:
— Trarei Eurídice de volta e vou colocá-la nos seus braços. Mas imponho uma condição.
Os olhos dele perguntaram.
— Você não poderá, nem por um momento, olhar para ela. Daqui em diante — e para sempre —, você só terá olhos para mim.
Ele concordou sem pensar.
— E aqueles homens?
— Eu cuido deles — falou ela. — Não podem fazer absolutamente nada sem mim.
O calor se tornava cada vez mais insuportável, mas foi pensando em Eurídice que ele adormeceu, um sono como há muito não experimentava, apesar da garganta seca.

A VOLTA

O som dos automóveis, ônibus, murmúrio de vozes, a voz que finalmente o acordou:
— Essa é a mais gelada que temos.
Ele percebeu que o anão ria. Do quê?
— Eu estou condenado, sabia? — falou.
— Todos nós estamos — respondeu o anão. — E daí?
— E daí que eu enganei Rien. Vou fugir com Eurídice.
O anão gargalhou. Dois rinocerontes se debruçaram no balcão e pediram café com leite. Lançaram um olhar reprovador para o volume de garrafas de cerveja.
— A idiota me fez prometer que só terei olhos pra ela — ele continuou. — Pode um negócio desses?
— Está tentando me enganar, Rien?
Toda a padaria, também o anão, tudo isso apenas uma impressão dependurada na memória. Só os rinocerontes, reais de fato, os rinocerontes gargalharam alto. A luz dos olhos dela iluminando o corredor deserto.
— Eu? Eu só tenho olhos pra você, minha querida — ele respondeu.
Os rinocerontes saltitaram, alegres, em direção ao sol. Um calor dos diabos, mas ela não demonstrava incômodo. Só indignação:
— Não sou idiota, Rien, sei que você está tramando algo.
— Jamais te enganaria, meu amor.
Ela, é claro, percebeu a mentira, mas ao mesmo tempo avaliou a situação. Correria, sim, o risco. Ele representava um pingo de luz na sua eterna miséria.
— Você não pode ficar aqui — ela disse enfim. — Precisa voltar.
— E Eurídice? Você me prometeu.
— Terá sua amada, meu amor. Nas minhas condições. Mas não aqui; é perigoso.
Ele sorriu. Em breve estariam outra vez juntos, ele e Eurídice. E longe daquele inferno, bem longe.
Num piscar de olhos voltou pelo espelho, seu corpo jogado com força contra um céu de estrelas negras.

EURÍDICE

A névoa espessa foi se dissipando e dela surgiu primeiro o brilho ensebado do balcão. Depois, uma garrafa, duas, cem garrafas de cerveja, outros tantos copos de conhaque, a maioria vazios.
— Limpa isso aqui, anão! — ele ordenou. — Não quero que Eurídice veja que estou bebendo.
— Ela não vai ver. Mas o difícil vai ser disfarçar o bafo. E quem é essa aí?
Ele sorriu.
— Minha mulher. Não falei que ela ia voltar?
— Falou?
— A minha aparência, como estou?
— Parece que foi atropelado por um trem. Mas, se ela não for muito exigente, até que dá pro gasto. Quer mais uma cerveja?
— Champanhe!
— Se liga, Zé! Tá pensando que está aonde? Aqui é um buteco, quase uma padaria. No máximo, com muita sorte, te consigo um vinho branco. Vagabundo.
— Aqueles rinocerontes de ontem tomavam champanhe. Por que pra mim não tem?
— Absurdo, Zé. Os rinocerontes tomaram café com leite, porra. Acho bom você parar com os conhaques. Tão te cozinhando os miolos.
Um rato cruzou o chão da padaria em direção à rua. A luz amarelada do poste tremeu, apagou, tornou a acender. O vento frio atingiu o balcão um segundo antes da sua entrada. Eurídice.
O anão se calou e desapareceu. Por artes de sabe-se lá qual deus ou demônio as luzes da padaria diminuíram. Ele bem que tentou, mas não conseguiu enxergar o rosto da amada, que falou:
— Agora feche os olhos. Esse é o acordo.
O futuro imaginado anteriormente em ruínas: não conseguiria fugir com Eurídice, levá-la para longe. Nunca. Melhor atender, fechar os olhos para tê-la entre os braços, pelo menos.
Assim então ele avançou, as mãos tateando no escuro. Sentiu um frio intenso quando seus dedos tocaram o corpo de Eurídice. Mas era ela, sim, o mesmo perfume de antes, a maciez dos cabelos.
— Tanto tempo... ele disse.
Eurídice permaneceu em silêncio. Seus lábios procurando os dele, o abraço mais forte. Ele se deixava conduzir feito um menino, calado, respondendo aos beijos com obediência e entrega.
Horas mais tarde, ou dias, ele despertou, feliz, seu corpo nu entre lençóis transparentes. Aí então resolveu abrir os olhos. Ao seu lado não estava Eurídice.
— Maldita! — gritou. — Não era Eurídice, nunca foi!
Rien sentou-se na cama, o sorriso largo. A fumaça do cigarro desenhando caracóis azuis no ar.
— Esqueceu o trato, Rien? Enquanto permanecesse de olhos fechados, Eurídice seria sua para sempre. Mas você os abriu. Olhos, só para mim, lembra?
Ele saiu correndo para dentro da noite, as pernas desgovernadas tropeçando no próprio grito. A luz amarelada dos postes tremia, apagava, tornava a acender.

RUA AUGUSTA

— Toma aqui esta cerveja — falou o anão. — É por conta da casa.
Rien acendeu outro cigarro, encheu lentamente o copo. Cumprimentou os rinocerontes que bebiam champanhe com um meneio de cabeça e foi se sentar ao lado de um homem de cabelos e cavanhaque vermelhos. Afastou a fumaça escura com as mãos e sorriu.
— Pensei que você fosse falhar desta vez — falou o homem.
— Eu não falho nunca, senhor — ela respondeu.
— Falha, sim — ele disse, a mão direita acariciando uma bengala antiga. — Não conseguiu conquistar o seu amor.
— Nem tudo é possível. Mas o importante é que ele agora está morto.
— Tem certeza? Agora mesmo o vi correndo pela rua, aos gritos.
— Está morto, sim. Só que não sabe disso ainda.
Chamas saltaram dos cabelos do homem, que deu o braço esquerdo para Rien segurar. Atravessaram a padaria sorrindo, em direção à carruagem negra que os aguardava lá fora. Quando partiram, o último poste da Rua Augusta se apagou definitivamente, mergulhando a cidade numa sombra densa e sem fim.

2 comentários:

Geraldo Lima disse...

Parreira, que combinação maravilhosa, hein? Referência à mitologia grega, a Ionesco, aos contos de fada. Esse Orfeu moderno(Zé, um Zé qualquer? Rien, ao final)sabe bem da solidão:"A única coisa que sabia de fato, que sentia como um prego nas costas, era sobre a solidão." E os seus rinocerontes (menos assustadores que os de Ionesco)tomam café com leite. Que achado! É um texto instigante, que nos faz pensar, e é tão bem construído, o real e o onírico se fundem numa única realidade, que mergulhamos com o protagonista no Hades. Adorei também as imagens: poesia pura. E suas mulheres... uma pena não vê-las mais aqui.
Um abração bulesco.

Parreira disse...

Ah, as Mulheres! Mas elas, de um jeito ou de outro, sempre voltam.