13 de mai. de 2010

'Mulheres' - parte 13


Por Claudio Parreira

IGUAIS
VOCÊ DESCREVE A MULHER para o seu melhor amigo, e a sua descrição já não é mais aquela de quem apenas viu, mas outra, de quem se apaixonou: olhos dum verde oceânico, cabelos dourados de sol, corpo escultura divina. O seu amigo comenta a descrição, acrescenta e subtrai, e grava na memória não a imagem de uma mulher, mas uma metáfora da natureza. O seu poder de descrição, porém, não é suficiente para expressar nem a mulher nem a metáfora, de maneira que, ao conversar com um parente sobre o assunto, nele imprime a idéia de que o objeto do qual se fala não passa de uma caixa de linhas disformes, com fiapos de tecido flutuando ao vento e pontilhada de orifícios aqui e ali. Este parente, por fim, que por vício ou virtude costuma torcer até mesmo os conceitos mais elementares, numa noite de calor e cerveja se encontra com você, e num tom de confidência decide se exercitar: à caixa quase abstrata acrescenta contornos femininos, olhos dum verde oceânico e cabelos dourados de sol, corpo escultura divina. A tudo isso você ouve com atenção e respeito, maravilhado pelo fato de haver no mundo duas mulheres tão iguais.
A GEOGRAFIA DA PAIXÃO

A TORTURA DOS BEIJOS-MORDIDA. As carícias que me queimavam a pele. Os sopapos de amor.
Porque ela só entendia o amor assim: quando sangrasse, quando doesse.
O meu corpo era um mapa: cada cicatriz exibia em vermelho a vasta geografia da paixão.
Nada de bombons ou chocolates: apenas chicotes e lâminas, instrumentos de tortura. A minha dor era o seu prazer.
— Você não é capaz de me ferir — ela me desafiou um dia. — Não tem culhões pra isso.
Enfiei-lhe um punhal de orquídeas no peito e encerrei o assunto.

(No próximo dia 20, a última parte de MULHERES. Imperdível!)

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