30 de mai. de 2010

Dolores

Por Mauro Siqueira

para Claudio Parreira e suas 'Mulheres

Então fazer a barba. Mais uma vez fazer a barba. Passo a minha mão no meu queixo liso como nos comerciais (mas não aparece nenhuma Juliana Paes® me abraçando pelas costas) e não sinto um pêlo na cara. Um nada que mereça a atenção de ser arrancado, meu rosto não precisa fazer a barba; meu rosto foi liso, agora só as cicatrizes da navalha e das porradas. Uma barba estranha... “E em feixe atado agora o verde trigo. Seguir o carro, a barba hirsuta e branca...” O que Shakespeare quis dizer com essa merda? “Hirsuta e branca”, Shakespeare era um babaca por me deixar pensar essas coisas sobre os textos dele. Ainda assim besunto o pincel e espalho a espuma: eu tenho que fazer a barba, mesmo sem nada na cara. Faço porque arde. Porque ainda vai incomodar quando acabar quando jogar o álcool – amanhã vai ser acetona e depois éter. Faço porque vai escorrer sangue. Porque vai doer – e eu preciso da dor. A dor é uma estranha moeda com quem barganho, ela me faz esquecer e me faz lembrar de você (e que me movimenta). Na verdade eu queria mesmo esquecer – essa seria a dor das outras dores, a dor capital, mas será essa a que você sentiu quando eu larguei você, Dolores?
É essa dor que eu quero experimentar.
É por isso que eu vago daqui pra lá tentando à noite nas ruas encontrar alguém que vai me fazer sentir a mesma merda que você sentiu...

*

Pego o telefone e ligo, ela atende rápido, pergunto o preço e ofereço o dobro se ela fizer o que peço. Ela finge estranhar o pedido como uma atriz iniciante – aquilo é moleza perto do que já pediram a ela, tenho certeza. Ela topa. Na minha casa, no meu quarto, no meu armário ela se veste como Dolores se vestia naquela noite. Saímos. Paro o carro na areia da praia e descemos, damos umas voltas de mãos dadas, eu digo: “É aqui, pode começar.” Ela tira o papelzinho do bolso, está escuro, ela tem dificuldade de ler, a sua dicção é de alguém da 5ª série primária, mas a voz ao menos é parecida. Eu digo a minha fala, é tudo muito artificial, mas eu consigo chorar como Dolores chorou, a puta contratada para encenar comigo não entende muito mas continua – quebro a ficção lembrando que ela tá ganhando em dobro pra fazer só aquilo –, então ela me bate, da na minha cara com as costas da mão esquerda, me chama de ‘pueril’, eu me jogo em direção aos seus pés. O chute é certeiro. A areia só faz arder mais, sinto os grãos entrem nos poros abertos pela lâmina. Ninguém ouve o meu choro ou vê a dor.

*

Dia seguinte, quase noite, abro os classificados do jornal, marco uns três telefones, não gosto das duas primeiras vozes, a terceira ainda é ruim, mas é que mais se aproxima da de Dolores. Marcamos o preço, dou meu endereço e digo a hora.
Tenho de correr com a barba. Hoje vai ser éter.

8 comentários:

Parreira disse...

Antes de mais nada, brigadão por ter dedicado o texto à minha série MULHERES. Uma honra, isso.
E vc acertou na mosca: os meus personagens masculinos só se lascam. O seu foi mais além: ele GOSTA de sofrer. Não é à toa que é apaixonado por uma tal "Dolores".

Cláudio B. Carlos disse...

Muito bom!

Bruna Maria disse...

Não tinha nome melhor, né? Dolores não consegue se dissociar da dor, e acaba tendo que ser reiventada. E é para quem gosta, também.
Não consigo, por falar em nome, não pensar na Dolores Haze do Nabokov. E ela também é sinônimo de dor. (Só pode ser esse nome...!)

Beijos!

Anônimo disse...

Muito bom. O auto-flagelo. Coloque a dor, encontre o humano. Mantenha a dor, invista na dor e apenas na dor, encontre o patológico.

Geraldo Lima disse...

Dá para sentir a lâmina riscando a pele para que a dor venha à tona. "É essa dor que eu quero experimentar." Bom demais.

Unknown disse...

Parreira, confesso que virei fã das suas "Mulheres" e suas várias faces e mais, das possibilidades! Que venham outras moldadas por tua pena!

BrunaNa primeira versão do conto, ela tinha sobrenome: "Dolores Hurtington" :)

Tbquerofalar: Patológico e mais: EXPIATÓRIO, te um quê de culpa no auto-flagelo dele.

Geraldo: Valeu, gande Geraldo! Tentei uma frase dessas na primeira versão, mas troquei pela citação do Bardo!

Unknown disse...

A sim, Bruna, nem pensei em Lolita... a minha Dolores tem uns 35 anos a mais, jeitão de mulher de cabaré :)

Anônimo disse...

É engraçado como vejo pequenas marcas suas nos seus contos.

Show de bola!