9 de mai. de 2010

António Telmo e a História secreta de Portugal

Por Rogério Mathias Ribeiro
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O Portugal feito Universo,
Que reúne, sob amplos céus,
O corpo anônimo e disperso
De Osíris, Deus.
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António Telmo, em sua História secreta de Portugal, aborda, entre outros assuntos, o conceito de Quinto Império, desde Antônio Vieira até sua manifestação na obra poética pessoana, para Telmo, guiada por conceitos maçônicos.
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O conceito de Quinto Império, surgido ainda na Idade Média, é tido por Telmo como uma outra maneira de ver a comunicação entre o Oriente e o Ocidente, que os templários já pretendiam assegurar. Como sabemos, a interpretação de Antônio Vieira de Quinto Império foi motivada por profecias bíblicas:
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“Os cincos impérios sucessivos, entendendo neles o assírio, o persa, o grego, o romano e, por fim, o império português (...) em quatro fases ou ciclos distintos assume entre os gregos uma expressão dada pela sucessão simbólica dos quatro metais: oiro, prata, bronze e ferro. Em Daniel, que fala da mistura do ferro com o barro nos pés da estátua, significado na forma de uma pedra que derruba a estátua. (...) O Quinto significará a reintegração de tudo que se manifestou durante os quatro períodos num ponto que os transcende e lhes é central.”[2]
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Um dos pontos mais interessantes que retiramos da análise do estudioso sobre o surgimento do conceito de Quinto Império e que, ao que nos parece, pode ser uma visão que acaba convergindo com a visão pessoana é um comentário feito à respeito de António Vieira: Ele vive em pleno ciclo sacerdotal. Ele mesmo é um sacerdote. Isso explica que visione, tal como Bandarra, uma monarquia universal sob a égide da Igreja (...)[3] Ora, no próprio poema intitulado Quinto Império, Pessoa fecha com essa última estrofe: Aquele inteiro Portugal/ Que, universal perante a Luz, / Reza, ante a Cruz universal, / Ao Deus Jesus[4]. Parece-nos que o Quinto Império de Pessoa é o mesmo de Vieira, guardadas as devidas proporções. A expressão Uma monarquia universal sob a égide da Igreja pode ser interpretada de diferentes formas, assim como a Cruz universal e o Deus Jesus em Pessoa. Se, para António Vieira, a Igreja pode ser a institucional, a “cruz universal” de Pessoa pode se referir a uma outra Igreja, esta espiritual, sem fronteiras; a semelhança entre ambos se refere ao papel de Portugal. Antes de prosseguir, cabe ainda outra citação de Pessoa acerca do assunto:
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“Todo Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte em pé. Um cadáver mandado. Só pode realizar ultimamente o Império Espiritual a nação que for pequena, e em quem, portanto, nenhuma tentativa de absorção territorial pode nascer, com o crescimento do ideal nacional e desviar do seu destino espiritual o original imperialismo psíquico.”[5]
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Nesse sentido, o Império (monarquia universal) sob a égide, não de uma determinada Igreja no sentido denotativo, mas de um ideal espiritual, acaba por fazer sentido, assim como a cruz universal e Deus fazem parte do simbolismo de Pessoa. Essa base espiritual ainda assim serve como ponto transcendente aos outros Impérios, pois, como foi mencionado, o próprio Pessoa acreditava que não havia Império vivo que não o baseado no espiritual.
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Ainda no livro de António Telmo, é significativo abordarmos a chamada “reciclagem da maçonaria” que teria sido feita por Fernando Pessoa, segundo o autor. Partindo do princípio de que as doutrinas filosóficas dominantes nos séculos XIX e XX têm influência direta na interpretação dos ritos e dogmas maçônicos, cada qual à sua época, o autor coloca os antigos ritos maçônicos como incompatíveis ao pleno “estado positivo”, sendo esses ritos, pouco a pouco, deixados de lado e seguindo-se adaptações que os transformaram em reuniões culturais, filosóficas e políticas. Desta forma, Telmo vê Pessoa como alguém que regressará à origem da Maçonaria, resgatando valores e conceitos abandonados pelos seus contemporâneos.
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Comentando a falta de espaço que a origem tradicionalista da ordem sofre a partir do século XIX, Telmo faz a seguinte colocação:
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“A sociedade culta, positivista ou cartesianista, não lhes concedia o direito de serem vates. Positivistas e cartesianistas pareciam ter decidido que é proibido pensar na idéia de Deus, porque de Deus ou tudo já se sabe ou nada se sabe e pode saber-se. A ciência devia ser edificada sem essas idéias, apesar de estarmos num mundo onde a presença do mistério impõe que nada se possa realmente saber fora dos termos desse mistério. Assim, os mais lúcidos e imprudentes não desistiam de procurar a palavra perdida da Sabedoria.”[6]
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Não temos dúvidas de que Pessoa pertencia ao grupo dos lúcidos imprudentes; uma das características marcantes do escritor foi mesmo a da busca incessante por respostas. Procurar, estudar e refletir sobre as mais diversas possibilidades, filosofias e religiões foram algumas das atividades que o poeta exerceu com grande regularidade ao longo de sua vida. É, no entanto, questionável o tamanho dessa influência positivista em uma ordem como a Maçonaria, que, mesmo não estando livre das tendências da sua época, é conhecida pelo extremo tradicionalismo e apenas é conhecida profundamente por seus membros mais experimentados. Observamos isso levando em consideração as palavras do próprio autor, que diz levar em conta as instruções dos rituais semidivulgados nos últimos dois séculos[7] e uma citação de Borges Grainha, prefaciador da História da Franco-Maçonaria em Portugal, presente no próprio livro de António Telmo: A Maçonaria será talvez o que passe desse ciclo para o seguinte, assegurando a transição através dos elementos incorruptíveis que contém.[8]
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Ainda sobre a questão da presença maçônica na obra de Pessoa, Telmo faz uma leitura, ao que parece, plenamente convicta dessa presença: Fernando Pessoa foi nosso primeiro poeta maçônico e toda sua obra poética pode e deve ser interpretada como a expressão da viagem iniciática da alma de um adepto que não se limita a cumprir os ritos e estudar o dogma, mas desse cumprimento e desse estudo tira todas as conseqüências nos vários planos de vivência do ser.[9]
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Acreditamos que essa afirmação do estudioso, em que pese sua interpretação fundamentar-se em argumentos coerentes é, no mínimo, ousada, uma vez que Pessoa jamais assumiu publicamente sua participação em qualquer ordem iniciática; e não há provas de que o escritor cumpria qualquer tipo de rito e, mais que isso, possui uma produção de tamanha complexidade que seria arriscada qualquer afirmação mais restritiva no tocante ao entendimento pleno desta. Sendo assim, colocar toda sua obra poética sob apenas uma interpretação é correr o risco de cometer um erro crasso. Mensagem completa a reflexão sobre a questão da Maçonaria no olhar de Telmo, obra em que o próprio Pessoa admite a presença de conceitos “liberais”, como em seu Explicação de um livro:
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“E a este leitor (atento e instruído) seria fácil perceber que um livro tão abundantemente embebido em simbolismo templário e rosacruciano. (...) seria fácil concluir que tendo as ordens templárias, conceitos sociais idênticos, no que positivos e no que negativos aos da Maçonaria; e girando o rosacrucianismo, no que social, em torno de idéias de fraternidade e de paz, o autor de um livro assim seria forçosamente um liberal por derivação, quando não o fosse já por índole.”[10]
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Mensagem também foi objeto de reflexão de António Telmo e é nesse livro que o estudioso enxerga um dos maiores exemplos do que ele chama de “reciclagem da maçonaria”, expressão já comentada acima:
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“Pela Mensagem, Fernando Pessoa rectifica, à luz de princípios maçonicos recuperados, a história de Portugal. Das três partes que a constituem, a do meio tem como legenda epigráfica a frase latina Possessio Maris, versão de Possessio Orbis, palavra de passe do grau de Mestre. (...) A palavra Possessio Orbis, do grau de Mestre, conduziu nossa interpretação num sentido que pode muito bem coincidir com o pensamento do poeta iniciado.”[11]
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Não pretendemos aqui, de forma alguma, desqualificar o estudo e a interpretação do autor de História secreta de Portugal, mas cremos que a maneira afirmativa com que o autor trata certas questões seja um pouco precipitada e carente de uma análise mais elaborada. O próprio Pessoa deixa brechas para livre interpretação em seus textos em prosa, como exemplificamos em fragmento acima, sobre os conceitos maçônicos e liberais. Preferimos o António Telmo do “pode muito bem” ao do “pode e deve ser”.
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A aproximação do Quinto Império de Vieira ao de Pessoa, involuntária ou não, é bastante interessante; e o surgimento e a manutenção deste Império na esfera espiritual é ponto pacífico. Optamos por ignorar a interpretação de Quinto Império feita por Telmo em um ponto do livro[12], no qual o autor discorre sobre uma possível inversão de polos do globo terrestre, eixos predominantes e grandes transformações e ciclos, interpretação que, inclusive, foge de um Quinto Império espiritual que era a proposta de Pessoa, por entender que nessa interpretação há, e até se justifica, uma grande carga emocional e comoção potencializada pelos acontecimentos de 25 de abril de 1974.
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1. PESSOA, Fernando. Obra poética. Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz, Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1986, p.34.
2. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 104.
3. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p.104
4. PESSOA, Fernando. Obra poética. Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1986, p.34.
5. PESSOA, Fernando. Obra poética. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1986.
6. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p.114.
7. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 114.
8. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 121.
9. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 116.
10. PESSOA, Fernando. Obra em prosa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1986, p. 13.
11. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 118
12. TELMO, António. História secreta de Portugal. Lisboa: Editorial Vega, 1977, p. 121
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Parte integrante da dissertação de mestrado Esoterismo e ocultismo em Fernando pessoa: Caminhos da crítica e de poética, de Rogério Mathias Ribeiro.
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Rogério Mathias Ribeiro - Graduado em Letras (Português/ Literatura) pela Uerj, especialista em Literatura Portuguesa pela Uerj e Mestre em Letras (Literatura Portuguesa) pela UFF. Taurino de 37 anos, carioca, residente no Rio de Janeiro-RJ, torcedor do Botafogo e professor de Ensino Médio, estudioso da Literatura Portuguesa e do Ocultismo. Contato por e-mail: roger7332@hotmail.com

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