16 de abr. de 2010

Um atalho para o bosque

Por Mauro Siqueira

Trazia debaixo do braço um volume grosso, de uma cor verde escura; parecia ser camurça ou veludo recobrindo aquilo que mais tarde reconheci como mais um livro. Pagou sete dinheiros para também estar ali, na sala de um cinema. Ia sempre perto dos finais de sessão, ou então, pagava a meia-entrada (dobrava-a cuidadosamente em quatro partes e a punha no bolso interno do paletó) e ficava vagando pelo cinema com o livro sob a proteção das axilas – ora uma, ora outra – até dez, quinze, vinte minutos antes do fim da projeção. Daí, entrava. (na mais completa escuridão, ele entrava no bosque.) Escolhia de longe um lugar nas primeiras filas, sempre uma cadeira no meio, nunca nas pontas. Os espectadores não entendiam o porquê daquele senhor àquela hora do filme que, muitas vezes isso aconteceu, fora confundido com um funcionário do cinema. Outras deduziam (devaneavam) acerca: “Ah, ele já viu o filme e só voltou porque dormiu perto do final.” “Ah, ele já viu o filme e só voltou porque o final é espetacular e ele quer assistir de novo.” “Vai ver tá procurando alguém... uma filha fujona, ou a esposa. Sei lá!” “Ai, não gosto disso é estranho ver um velho parado no cinema... sem ver o filme.” “Será que ele teve uma crise de amnésia?” “Cala a boca, palhaço, volta pro filme!”.
Voltemos.
Havia muitas outras proposições sendo feitas, rondando as cabeças e fazendo lábios moverem-se em cochichos e sussurros. A atenção do filme desviada, agora, para aquele insólito personagem, passível de qualquer possível leitura, qualquer possível leitor.
Certa vez, conseguiu a pequena proeza de entrar, sem planejar ou fazer cálculos, no fim de um filme – um badalado pela crítica e curiosamente pelo publico; tratava-se de um filme de época, dirigido pela filha de um grande diretor, que inseriu músicas contemporâneas na película. As luzes sendo acessas, as pessoas saindo, espantou-se ao entrar e ver apenas senhoras com quase a sua idade (ou mais) ali – agora fora a sua vez de ter a atenção desviada. Foram só alguns instantes... Mas não podia perder mais tempo.
As luzes que estavam acessas, permaneceram assim e outras vieram a somar; as letras brancas subiam com calma sobre o negro da tela (as músicas contemporâneas estavam lá), não dedicou nem um olhar à tela. Finalmente, só. (somente ele e alguns funcionários invisíveis da limpeza.)
Sentou na segunda fileira, naquela que considerou a cadeira central; antes de começar, olhou para ambos os lados no gesto de quem atravessa uma rua movimentada; deixando a (aparente) segurança da calçada e invadindo um mundo que não lhe é comum – e de fato ia. Pousou-o sobre as pernas, o livro. Abriu-o. Restava pouco mais de vinte paginas. Enfim, faria o que gostava de fazer nos cinemas: LER. (E o que só sabia fazer nos cinemas) O conforto das cadeiras com seus respaldos altos e almofadados, a música instrumental baixinha, as luzes indiretas, a tranquilidade, a presença súbita e ensurdecedora do silêncio criavam o único caminho à viabilidade das suas vontades, o fim do seu óbice: só ali ele obtinha o acesso ao seu bosque. Cada virar de páginas podia ser ouvido, o passar de seus dedos polegar, indicador e médio sob a superfície semi-macia, semi-áspera do papel amarelo.
Lia.
O mundo o afligia e o submetia as suas incoerências todos os dias; ali dentro , era o atalho, a trégua da sua existência. Aos poucos, outras pessoas, espectadores, iam chegando para a próxima sessão de cinema; passavam pelo velho lhe dedicando um olhar e frases inaudíveis – inclusive eu, que fascinado ao ver alguém lendo num cinema, demorei em tirar o caderno e a Bic da mochila e começar a escrever aquele momento (e entrar no meu bosque), sem saber que por cima dos meus ombros, as mesmas pessoas que do velho falavam, agora falavam de mim. Absorto, escrevia com a cara enterrada no pequeno caderno, tentando e tentado a não deixar escaparem as palavras, que aproveitavam a pouca luz e iam fugindo e, assim, não percebi quando o senhor saiu da sala ao apagar das luzes, e eu, sem poder mais enxergar, não poder terminar de escre
Do livro De vermes e outros animais rastejantes, publicado pela editora Multifoco em 2008.

2 comentários:

Paula Cajaty disse...

Mauro, que delícia ler sobre essas nossas esquisitices, e as esquisitices dos outros, e sobre o quanto esquisitamente achamos que as deles são piores do que as nossas... Adorei o final!

Unknown disse...

Paula, o ponto é esse: "o quanto esquisitamente achamos que as deles são piores do que as nossas". Quem era mais maníaco? O senhor ou o escritor de cinema? E que bom que você gostou do efeito no final, na versão impressa, esse efeito também é gráfico.