24 de abr. de 2010

Os dois poetas no Brasil Central, ou memória do futuro

Por Francelina Drummond
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Feliciano sofria uma doença ainda pouco decifrada pela medicina. Por mais que se tratasse – uns médicos achavam que era apenas achaque histérico, e lhe passavam drogas pesadas, mas Feliciano não dormia, o efeito era quase sempre ao contrário e aí pelas quatro da manhã estava tão alerta quanto os gatos que corriam pelo telhado. Outras vezes lhe davam placebos, que poderiam, ou não, funcionar caso o humor de Feliciano, ultradesconfiado, lhe indicasse: tinha então uma diarréia que limpava até o cérebro; e depois dormia dias e dias. Houve o caso, no ano seguinte a seu ingresso no serviço público. Cansado das decepções amorosas, combinou com amigos passar o carnaval em Ouro Preto, onde os encontros são por vezes tão intensos que parecem definitivos. O cara, tendo tomado os placebos, e sabendo que eram placebos, acreditou que fizessem efeito razoável e lhe trouxessem um pouco de paz à mente atordoada de idéias, notas fiscais, números de telefone e cpf, índice de contribuinte e nomes em ordem alfabética; histórias para contar e viagens a fazer, compromisso e coisas assumidas há tempos, que a moléstia o impedia de cumprir. Pois os placebos funcionaram. À revelia. Feliciano ficou feliz da vida e, deixando a fantasia pendurada no cabide de madeira no interior da república na Rua das Escadinhas, onde ficara hospedado entre sacos de dormir e beliches fedendo cachaça e lança-perfume, esteve longe do barulho três dias e três noites. Só deu fé de si quando lhe taparam a boca e um soco violento lhe atingiu a barriga. O inchaço fazia estufar a fantasia de arlequim amarela e perfumada com que fora buscar a farra de Baco. Um sino tocava cinzas e ninguém àquela altura dos tempos estava mais para perdoar sacrilégios. Muitos anos depois, Feliciano se debatia entre pássaros sujos na Praça Tubal Vilela. Ninguém é digno desse espetáculo, dia seco como um tiro no centro do Brasil. Pássaros revoam às três da tarde, o sol fere como um dardo, Feliciano precisa chorar. (Mas sua básica necessidade não é chorar; é fugir. Aquele espaço sufoca. Feliciano lembra o fora que levou da menina, no mesmo banco sujo de terra na praça infame, ante as torres da catedral mais feia da terra onde Dinorá neurótica e insone espantava clientes e usuários do serviço público quando a dentadura não agüentou mascar o chiclete. Arremessou as duas curvas de dentes branquíssimos com desespero, até ruir aquela coisa abjeta no pára-brisa do táxi que esperava em vão o passageiro vespertino. Pássaros e dentes. Foi quando Feliciano sentiu a memória do futuro vindo inteira, possessiva, máscula como o gesto de Dinorá, que morreria muitos anos depois sob as rodas da mototáxi, feíssima e banguela, sem identidade...). Sob a ponte de Catalão a poeira da tarde sujava também os óculos de Dr. Emiliano. Ele não entendia o golpe de sorte que o tornava a mais alta personalidade do Brasil Central nem mesmo o que faria ali pelos anos de 1851, quase Natal, e o pequeno Luís chorando a falta dos outros, trêmulo, tímido; terríveis sonhos o assaltavam. Feliciano sabia e preferia não querer saber, mas o placebo falhava, sabia que era placebo e tomava, insistindo em resistir ao remédio de verdade, a droga da botica, cheirando a almíscar, cânfora e bismuto. Luís sentia um cheiro futuro de álcool, era como se depenasse um frango, e as penas perdurassem com seu bodum álacre tarde afora inundando os arredores. Triste lugar! Bernardo sorria à socapa, como as escravas que conheciam as espertezas do Menezes, o que ia ao teatro com falsa sinceridade. As escravas riam à socapa, e Bernardo pôde ler ao relento Oh! Não! Não morrereis, meus pobres cantos. Luís passara por ali pela manhã. Feliciano sabia desses truques sinistros dos poetas: enganam, pensou: como podem dizer coisas tão fúteis? O rio está sujo de poeira e lama, a poeira não se mistura à água antes cristalina, e dá uma nata sem brilho na superfície, e lodo nos fundos, no leito do rio, lamacento rio de espumas sem cor, margens tristes. Feliciano duvidou até dos placebos, e a memória do passado invadiu também a ponte. Vimos tudo de novo; aos aluviões vêm os poetas cantando. As baionetas dos torturadores também vinham com batalhões sem soldados, brandindo nos ares sem alvo. De dentro da casa vinha vindo um som de talheres, mas o homem resistia, “as etiquetas e cerimônias são para os homens felizes, não para os que padecem.” Feliciano sentiu que a vida era leve. O Vaga-lume terá perdido seus filhos, mas a vida era leve. Bernardo riu, trouxeram-lhe a carne de tatu, da última espera que durara uma longa noite, e Dr. Emiliano intuía a certeza de que viera para ficar por ali muitos anos, abarrotado de silêncio e da lonjura que o olhar de Luís já denunciava com dor. “Eras o filho predileto!”.
Feliciano não acredita no poeta.
Evoé, Baco! Aos placebos!
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Francelina Drummond - Mora em Ouro Preto, publicou Do falar cuiabano (1978 e 1996), Almanack de Ozzori (1990) e Leitor e leitura na ficção colonial (2006), estudo crítico do Parnaso Mineiro (AML, 2009), partes de livros e artigos em revistas.

Um comentário:

Nair Soares disse...

Olá Francelina, que bom poder participar da leitura virtual de pessoas tão especiais como vc.
gostei muito do Leitor e Leitura na Ficção Colonial de 2006, mas não tinha conhecimento destas publicações no BULE, o conto está perfeito...
Obrigada por compartilhar suas obras e por me manter em sua lista de relacionamentos virtuais.
UM abraço fraterno,
Nair