29 de abr. de 2010

'Mulheres' - parte 11

Por Claudio Parreira

ALICE. MULHERÃO ESSA ALICE. E vivia querendo coisas:
— Compra um apartamento pra mim, bem?
Eu comprava. Porque ela, sorrindo, isso não tinha preço.
Alice era dada a excentricidades. Poucas, mas ainda assim:
— Compra a lua pra mim, bem?
Eu comprava. E colocava um punhado de estrelas no papel de presente.
Vez ou outra ela emburrava. Não de ficar burra, que ela nunca foi assim, mas emburrar de entristecer, vocês me entendem. Eu fazia caretas, alugava elefantes, tudo pra ela melhorar. Mas ela só melhorava daquele jeito:
— Compra o charme da Gisele Bündchen pra mim?
Eu comprava. Um exagero, concordo, Alice era charmosa o suficiente, mas fazer o quê?

* * *

Alice também era uma mulher de muito bom gosto. Sabia apreciar as coisas boas da vida, as belas coisas:
— Compra um Picasso, um Van Gogh e um Warhol pra mim, bem?
Eclética, como vocês puderam perceber. E eu, é claro, comprava.

* * *

Um dia Alice foi ao cinema e viu uma sereia no filme. Voltou da sessão radiante. E pediu:
— Eu quero uma sereia, bem!
Parti no dia seguinte numa expedição em busca da tal sereia. Fui encontrá-la 30 dias depois no mar gelado da Finlândia.
Quando entreguei o presente a Alice, ela desatou a chorar. Eu perguntei:
— Não é a sereia que você quer?
— É a sereia que eu queria — ela disse. — Mas agora não quero mais.
— O que é que você quer agora?
Alice enxugou as lágrimas e um sorriso brotou no seu rostinho lindo:
— Agora eu quero uma caravela, bem! Uma caravelinha!
Uma caravelinha. Como as caravelas deixaram de ser fabricadas há muito tempo, mandei fazer. Ficou uma beleza. Mas Alice só desembrulhou o presente. Havia um brilho estranho em seus olhos.
— E agora, o que é que você quer? — eu perguntei. — Pede.
— Eu não quero nada, bem. Não quero nada.

* * *

Mas a quietude durou pouco. Logo Alice estava pedindo de novo. E eu, pronto a atender. Quer dizer, mais ou menos.
— Bem, diz que me ama!
Esquisitice. Bem típico de uma mulher como ela. Não que o seu pedido fosse caro demais, longe disso. Não iria me custar um tostão. Mas eu senti que precisava manter a integridade:
— Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!
— Mitômano?
— É.
Ela me olhou com aquele olhar inteligente que só ela tem. E pediu:
— Me compra um dicionário, bem?

***

Depois disso Alice passou quatro anos deprimida, largadona, engordando no sofá francês do século XIX. Sem pedir nada.
Até que, numa bela manhã de carnaval, ela se levantou, emagreceu e pediu:
— Bem, eu quero amor!
Eu caminhei em direção a ela, dei- lhe um demorado beijo na testa e saí para a rua. Não voltei nunca mais. Seria muito doloroso explicar que tem coisas que o dinheiro não compra.

5 comentários:

Tropeços Literários disse...

Pois então... Alice jogou-se no chão e chorou um oceano, pacífico, depois engasgou com uma secreção mais expessa, daquelas que descem da cabeça para dentro da boca a varar os intestinos, regurgitou, cuspiu o coração fora. Sentiu um alivio imenso, olhou ao redor depois de tirar a venda dourada cravejada de estrelas, olhou o calendário. Terça-feira...Gorda, vestiu a roupa de colombina e saiu sambando pelo horizonte... "vai passar nesta avenida um samba popular..." Estava feliz, nenhum homem a tocaria, estava de chico em pleno carnaval e mesmo sem beber já havia vomitado seu coração. E afinal, amor é apenas um adereço (entre tantas alegorias...)


Beijosssss Parreira, adorei ler!!!!

Anônimo disse...

Nossa, que cafajeste!

Parreira disse...

Ah!, Dhe Lyra, nada melhor do que te encontar por aqui!

Brigadão pela visita e comentário!

Bjs d'eu!

gisellesato disse...

Muito bom.

Parreira disse...

hehehe, gostei do cafajeste!