9 de mar. de 2010

Vanguarda, eu?

Por Francelina Drummond

Desabafo sem alvo; leia quem quiser, ou se ninguém ler, leio eu, que sou leitora totalmente inevitável. Até nisso a natureza nos puniu: sou inexoravelmente leitor e leitora de meus textos, não posso fugir a essa condição e meus textos me incomodam quando latentes, me exasperam quando escritos; mesmo na tela do computador, dentro do escritório pequeno, com duas entradas de luz pequeniníssimas, ao som ruidoso da avenida que corre embaixo. Buzinas, chamadas de metrô, freadas bruscas, alguma voz humana em algum desespero às vezes, batidas policiais, roda de craque, passeio de prostitutas. Nada disso vejo; ouço apenas como massa sonora que sobe e faz parte do escritório onde digito, melhor dizendo, datilografo. Dactilós: as pontas dos dedos como agulhas sem rumo vão dando alguma forma a idéias que precisam sair da minha cabeça. Às vezes passo dias em calma, sem sobressaltos, as figuras em silêncio, dormindo ou viajando; ruas, casas, acontecimentos, tempestades, promessas de amor, fugas e assassinatos, tudo fica tão distante, parece inexistente. Faço então as contas dos anos que aqui tenho vivido, ou ligo a televisão, mas os ruídos da tela, os rictos dos locutores do jornal nacional e dos debates das 23 horas se vão misturando com os ruídos de socos, tiros e arquejamentos de filmes policiais que a outra televisão não pára de passar. São ambas concectadas de tal maneira que uma não tem independência, mas como quero pelo menos uma tarde e uma noite me livrar deles, com seus enredos e suas tramas, fico entre a cruz e a caldeirinha: se sento no computador, a turma volta e me rodeia como gatos briguentos querendo colo, rosnando, enroscando nas pernas, subindo nos meus ombros. Se levanto, e quero ar!, o espaço se encolhe mais, e o ruído em massa sem contornos que sobe da avenida vira um batuque tão claro, tão estridente, tão veloz... ah! Ser leitor de tudo isso – sempre, inexoravelmente, nessas malhas de letras que sobem e descem paredes. Geladeira, sofá, fogão em aço escovado, meia dúzia de copos azuis e xícaras brancas, pratos amarelos, a pequena fotografia de Dublin no canto da sala, cama macia, fitas coloridas do oratório pendente junto à cabeceira da cama, vaso sanitário asseado, a pia e dois batons, um vermelho-carmim e o outro rosa, pote de vidro grande cheio de sabonetes. Adoro sabonetes; quanto mais coloridos e perfumados, mais uso. Mas devo confessar meu tique particular: quando a barrinha começa a perder os contornos, não a tolero mais, e ela desce para a lata de lixo, pequena, verde, o interior protegido por sacola de plástico branca. Invariavelmente branca. Não amo sabonetes começando a se derreter; as coisas que talham perdem a vida; e não quero viver para limpar o mofo das coisas embora me submeta a dar voz aos meus tormentos, tarefas quase equivalentes ao final das contas. Fico lendo tudo isso, ininterruptamente, sem descanso. Nos sonhos ardem as cadeiras da sala sob o assento; os vidros se quebram em rebeldia, crianças choram. E quantas vezes os nomes que leio em arquivos (essa mania, sou atraída pelos alfarrábios; quanto mais velho, mais intrincado e difícil tanto mais quero decifrar, letra por letra; quem foi quem, o quê fez e deixou de fazer, onde, como, com quem, em que rede de significantes o passado se articulava...) entram comigo pela noite a dentro, falando, cobrando, ameaçando, pedindo perdão, clemência, salvação, implorando luz, respeito, xingando irados por mofarem nos sítios concêntricos, de difícil acesso, no alto, rodeando montanhas inacessíveis, ou em planícies quentíssimas, cuiabaníssimas, o último reduto da terra que jamais, em tempo nenhum, ouviu falar de Cristo, nem Prometeu, Alice e Santo Antônio. Esses órfãos me acuam pelos cantos, me dê voz, me dê voz. Puta que pariu tenho vontade de gritar, mas nem pensar puta que pariu sou capaz de, e me confundo na linguagem sem sinais, nem signos, letras, ponto e vírgula e aspas, numa linguagem a que nem a massa de sons que sobe da rua dá concretude. E tudo dói; pensar sem ferramentas dói mais ainda, e pensar que daqui a pouco terei de ler tudo de novo, sair da tela e voltar ao mundo, trocar os sabonetes, limpar a pia da cozinha, sacudir o tapete verde velho marroquino que algum menino de tribo nômade no Saara teceu, e está acabando aqui, tão longe dele, sob meus pés que não pensam. Pisam pisam pisam....
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Francelina Drummond - Mora em Ouro Preto, publicou Do falar cuiabano (1978 e 1996), Almanack de Ozzori (1990) e Leitor e leitura na ficção colonial (2006), estudo crítico do Parnaso Mineiro (AML, 2009), partes de livros e artigos em revistas.
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3 comentários:

Anônimo disse...

Apesar de toda confusão que ficou na minha cabeça durante após a leitura desse texto, achei ele um dos mais incríveis que já li. Super bem escrito, transpirando manias, tiques nervosos e a intromissão de uma cidade fervilhante na vida das pessoas.

Abraços, até!

Sinvaldo Jr. disse...

A partir do início do texto, ele já mostra a que veio – leia quem quiser. No mínimo terá um leitor, o próprio autor, que é leitor inevitável de qualquer texto seu. Gostei! Linguagem clara; texto muito bem escrito. Erudição sem grandes pretensões; erudição que não compromete a “fluição” (nem a fruição) do texto. Ao contrário, as palavras usadas conseguem, ao mesmo tempo, descrever – a cidade, o apartamento, os sons (importantíssimos neste texto) – e ser poético, sobretudo por causa do caos (será caos?) interior da personagem. Escrever dói, principalmente se o ato de escrever é muito mais do que o mero juntar (ou brincar de) palavras, como apregoam muitos dos literatos por aí que, embora com domínio da linguagem, escrevem textos vazios vazios. Não é o caso deste, de Francelina Drummond.

Unknown disse...

Tia Francelina,
Parabéns pelo texto! Achei surpreendente como as palavras podem retratar a forma corrida e neurótica com vivemos estes dias atuais. Eu, do alto da minha ignorância literária, com todas as minhas manias e pensamentos cartesianos, sentí minha vida neste texto: corrida, corrida, corrida...
Bjkas,
Carol da Luna e de mais um anjinho no ventre.