12 de mar. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Casal

Ela não tinha fronteira. Um rio correndo para mar algum. Ele querendo estancar sua correnteza, domá-la. O gesto impossível. Única certeza: o sofrimento, a laceração da alma. Mas já haviam andado meio caminho — como retornar ao antigo leito? O desespero é que colocou a arma nas mãos dele.

Depois daquele ato

O que estava acontecendo não tinha explicação. A mão movera-se por si mesma. Mas quem acreditaria nisso? Louco, louco. O dia cinza, a cidade medonha, a vida absurda. Deus estivera com ele durante algum tempo; agora, as trevas. A mão movera-se sozinha: um gesto cruel, manchado de sangue. Insana, gravara em sua memória grafismos de horror e desordem.

Uma mulher no escuro

Talvez você não saiba, mas estou sangrando. Ontem foi o pior dia da minha vida. Hoje não melhorou em nada: o tempo escoa lento, devorando a vida, ávido, cru. Amanhã estarei viva? Não sei se isso lhe interessa, se lhe suscita apreensão, mas embaixo da pia há um saco de soda cáustica.
É tão fácil abrir as portas do além.

2 comentários:

Parreira disse...

Gosto da objetividade de 'Breu'. Corta direto, sem artifícios.

Mariana Botelho disse...

gostei. sobretudo do último microconto.

abraço