27 de mar. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Ali

Sou um filho da puta, não nego. Sou uma falha da natureza. Mas, já que nasci, então faço valer. Remorso? Não, não. Não sei o que é piedade. Matar é o meu orgasmo. Vivo no breu, ainda que haja luz. É, a senhora é uma mulher corajosa, estou admirando. Não tem medo da morte... Aqui, comigo, sem nada que a proteja. O que tanto vasculha em mim? Algum vestígio de Deus?

Anjo de botas II

Eu, no meio da forquilha, depois do 69, do toma-lá-dá-cá. As botas negras no alto, excitantes. Queria senti-las fustigando meus flancos, cavalo louco cavalgando a potranca selvagem, banhado de suor. Relinchando de prazer, de dor. Nem sei mais o que fazia ali, só a cabeça girando, girando. Diz então que estou te matando, diz! diz!

Calada

Um homem vem à noite. Ela ouve seus passos no corredor, mas não se move. Ele se assusta com o rangido da porta, quase recua, mas, resoluto, prossegue. Junto à cama, resfolegando, crescem-lhe os desejos insanos. A visão do corpo seminu, na penumbra do quarto, turva-lhe a mente. Ela poderia gritar, mas não grita. A mão sobre a sua coxa é bem familiar.
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3 comentários:

Parreira disse...

Algum vestígio de Deus? Pois é, o resumo. O fantasma de Hilda Hilst.

Ciço Leo disse...

Cláudia Parreira, tá com o cão nos couros?? rsrs, abs, Ciço Léo.

Anônimo disse...

Geraldo Lima realmente é muito bom.