20 de mar. de 2010

'Mulheres' - parte 06

QUIMERA

Por Claudio Parreira

EU VENDIA HIPOPÓTAMOS na feira quando vi a mulher pela primeira vez: linda, os cabelos louros esvoaçando do sovaco, dois metros e meio de pura tentação.

Filhote, o meu cachorro filosófico, foi logo dando palpite:

— Não entra nessa que é roubada. Pelo brilho do olho esquerdo, essa aí tem pra mais de quarenta filhos.

Aceitei o conselho do Filhote com os ouvidos mas o coração não quis saber: corri pra cima da mulher. Para impressioná-la, passei antes na biblioteca. Peguei meia dúzia de clássicos, que sempre dão melhor resultado.

Quando ela me viu com os livros brotando feito flores das mãos, se abriu toda sorrisos.

— Li todos eles pra você, meu amor — eu disse, os olhos faiscando sacanagem. — Que tal?

O sorriso ganhou uma súbita expressão séria. Filhote, filosófico, arrematou:

— Eta porra!

— Não pense que me entrego por essa mera literaturazinha — ela falou. — Pra me ganhar o buraco é mais embaixo!

Disse isso e se virou, resoluta. Uma mulher que despreza os clássicos é maluca. Ou merece respeito e atenção. Por isso observei-lhe o rabo: três pontas descascadas.

— É normal — sentenciou Filhote.

— Graças a Deus — falei. — Vamos beber a isso!

Filhote não gostou muito da idéia.

— Mas é só gasolina, filho! — eu justifiquei.

Ele abaixou as orelhas, enfiou o rabo entre as pernas e perguntou:

— Você promete que é uma só? Uminha só?

Saímos do posto de gasolina às quatro e meia da manhã, os arrotos potentíssimos lançando chamas a centenas de metros.

Eu vendia, como já disse, pterodátilos no supermercado quando vi a mulher pela segunda vez: linda, os cabelos avermelhados esvoaçando das ventas, quase três metros de vertigem.

Filhote, os bigodes ainda chamuscados pelas labaredas da noitada anterior, resolveu bancar a minha consciência:

— Larga mão, sô! Isso aí não é mulher, é o diabo que veio pra te aporrinhar. Como ela mesma disse, o buraco é mais embaixo. Vai encarar?

Mulheres difíceis é que valem a pena, pensei, principalmente quando precisamos usar uma escada para lhes alcançar o pescoço fino para um beijo fugaz. Assim era ela, com seus quarenta filhos ou não. E assim estava eu: torto, os quatro pneus e o torso arriados, a garganta seca implorando por mais gasolina.

— Nem pensar! — protestou Filhote. — Ela não vale tamanha humilhação.

Fiquei olhando o cachorro, penalizado: nem mesmo toda a filosofia do mundo o fizera mais sensível. Decerto mantinha um bloco de mármore no lugar do coração. E sua boca jamais provara a voltagem de um genuíno beijo de amor. Seus olhos eram incapazes de enxergar a paixão: em quem eu via céu ele só encontrava tempestade.

— Ora, pois, meu querido Filhote — eu disse. — Enfia a tua filosofia no rabo que eu quero mesmo é pandegar!

— Depois não diga que eu não avisei...

A prudência, ah!, a prudência. Por isso é que o Filhote não passa de um cão filosófico solitário: prudência demais. Corresse um pouco mais de risco e viveria melhor. Mais feliz, pelo menos, que esse negócio de filosofia pura corrói o fígado e os miolos. É a cachaça da alma, um ácido do espírito.

E ácido por ácido eu prefiro o LSD que o bafo dela exala. Ela é uma mulher envolvente, sim, e não digo isso pelo fato da moça ter quatro braços. Nem me abraçar ainda ela abraçou, porque o buraco, segundo suas próprias palavras, é mais embaixo. Mas eu sei que o momento do abraço vai ser sublime, o momento do beijo. É nisso que se baseia toda a minha vida hoje: nos momentos futuros que terei ao seu lado. Os carneiros que trafico na igreja garantem a minha subsistência mas o meu prazer vem de outras fontes. E agora cismei que a fonte primeira de todos os meus delírios gozosos é ela, que é linda, os cabelos amarelos cheirando a capim, três metros e meio de loucura.

Os automóveis e crocodilos mostravam reverência e uma ponta de inveja à minha passagem: lá vai um apaixonado, eu pensava que eles pensavam. E decerto pensavam mesmo, porque tudo em mim cheirava como o jasmim da paixão: desde os cascos até o olhar, que iluminava de cor as sombrias ruas em linha reta da vida comum.

Sob os óculos que a minha condição de futuro amante me colocara sobre os olhos eu via agora um mundo todo novo: os edifícios circulares, as avenidas ascendendo em direção ao céu, as curvas azuis do vento. Mesmo as pessoas, que sempre me olhavam com reserva e desconfiança, ensaiavam sorrisos e acenos, exibiam um discreto menear de cabeça, o desconcertante sussurrar de palavras de apoio e incentivo que eu jamais ouvira antes. Houvesse no mundo mais apaixonados como eu e a vida seria bem melhor.
Para que tudo isso se concretizasse, porém, faltava o principal: encontrá-la. O buraco mais embaixo, ou em cima, foda-se, isso era fácil. O Grande Arquivo Universal da Conquista Amorosa está aí há milênios e só não o consulta quem não quer.

Navegando na mesma freqüência dos meus pensamentos, um senhor baixo, cego, cuja boca era um acidente medonho na geografia do rosto, se apresentou com a solução dos meus problemas:

— A mulher que você procura, cinco ou seis metros de beleza incomum, os pelos cubistas, sei muito bem onde ela está.

Nunca vendi porra nenhuma na vida, como já disse. Por isso mesmo é que sei que na minha profissão o que mais se vê é picaretagem, gente desqualificada que abusa dos bons sentimentos dos incautos para conseguir vantagens pessoais. A mim impressionou muito o fato do homem surgir do vento e descrever quase à perfeição a minha amada. Para saber se o sujeito falava mesmo a verdade, perguntei ainda:

— O que ela guarda às costas?

— Um par de asas translúcidas — falou ele prontamente.

Bati com a mão aberta à testa, uma pancada tão forte que por instantes a cidade mergulhou em trevas. Ninguém no mundo a não ser eu (e Filhote, minha testemunha particular) poderia descrevê-la tão bem! Quando as nuvens escuras se afastaram dos meus olhos eu fiz a pergunta óbvia. Os olhos vazios do homem derramaram a resposta, límpida e sonora:

— Na biblioteca. Vai encontrá-la na biblioteca.

Claro. Por que eu não tinha pensado nisso antes?

Na escadaria da biblioteca encontrei Filhote escondido atrás de uma hiena, a pata direita estendida sobre um chapéu que pedia esmolas.

— Porque filosofia alimenta o espírito mas não enche a barriga de ninguém — justificou enquanto eu entrava no meu sonho, o coração já aos trancos por antecipação.

Intuí o seu endereço logo de cara: terceiro corredor, esquerda, prateleira de mitologia. Entre o Minotauro e o Dragão, coberta de poeira, lá estava ela, a Quimera. A minha Quimera.

Embora estivesse diante de tudo o que eu sempre quis, me senti decepcionado. Era ela, sim, mas faltava-lhe algo. Faltava-lhe tudo. Faltava-lhe a materialidade. As carnes, os peitos. Algo concreto no qual eu pudesse descansar o meu esqueleto. Faltava-lhe a bunda, caramba, que desde sempre tem sido o porto seguro para os machos da minha espécie e de outras mais.

A mulher que eu tinha diante dos olhos era só uma figura impressa, de cores desbotadas, uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Pra me ganhar o buraco é mais embaixo, ela dissera, e agora eu sabia o quanto. Aliás, dissera mesmo? Em algum momento cheguei de fato a vê-la? Linda, mulher mesmo ou pura alucinação?

Seres mitológicos não são dignos de crédito, eu sempre soube. Mas é o abismo entre o saber e o acreditar que os torna tão reais.

— O senhor não pode permanecer neste recinto.

Virei lentamente o torso, mantendo as patas fincadas com firmeza no chão.

— Por que não? — perguntei, um segundo antes de constatar que quem me falava de maneira tão autoritária era o sujeito de boca murcha.

— Seres imaginários não são admitidos nesta biblioteca — ele respondeu, os olhinhos sem brilho exibindo uma satisfação nem um pouco secreta.

— Faça então o que deve — eu disse, o meu rabo balançando com um descompromisso admirável.

Saímos os dois de volta à rua, deixando para trás a minha Quimera e os sonhos tantos que me ocuparam e justificaram de maneira gloriosa a minha existência.

— Mulheres — eu disse —, jamais serão inteiramente nossas. Sempre isso: aparecem, acendem a chama da loucura e, quando mais as queremos, desaparecem no ar feito borboletas. Ou se metem entre as páginas dum livro que nunca poderemos ler.

— Umas ingratas — filosofou acertadamente Filhote, que se juntara a nós.

Quem nos via indo de encontro ao cinzento véu da noite(1) só conseguia perceber o mistério. Um homem cego de boca murcha, um cão filosófico e um centauro esvaziado de quimeras como eu dão mesmo o que pensar.

(1) O Barroco é que gostava de construções assim. Ou não.
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3 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei tonta de ler, ainda não tinha visto algo tão diferente assim. Gostei muito da maneira como a narrativa se constrói, a formação e desconstrução dos personagens, a forma que o cenário é desenhado e as descrições curtas porém bem capazes de definir cada personagem, como uma caricatura. Gostei mesmo!

Abraços.

Parreira disse...

Mary!,


brigadão pela tontura. Ou melhor, pela leitura.

Rogers Silva disse...

claaaaaaudio, porra. que conto massa é esse, fii? o humor irônico me lembrou campos de carvalho. as imagens são uma belezura!
abraços