24 de fev. de 2010

Teoria do Caos

Por Mauro Siqueira


Para Gisele Almérida

- Não acredito em você! – gritou para que ouvissem; o vagão de metrô em que estavam: cheio.
- Não é o que você está pensando?

(No Japão, *** resolveu buscar a filha no colégio, estava perto, e andar um pouco mais de bicicleta só podia fazer-lhe bem; parou para comprar doce de feijão.)

- Eu não acredito... Simplesmente, não acredito em você, ***!
- Já disse, não é nada disso que você está pensando! Ela é só uma ??? que eu não ??? há muito tempo! – falou sem olhar nos olhos, o vagão de metrô em que estavam: testemunha.

(Em @@@, uma pipoqueira vende drogas na porta de um colégio.)

- Você tem cinco minutos. Apesar de que nada do que diga mude o fato de... – falou baixando o tom e olhando para os lados; o vagão de metrô em que estavam: envergonhado.
- ***!, por favor, não se deixe levar pelo momento... – pediu com as mãos juntas – o vagão de metrô em que estavam: impaciente.

(Tinha um compromisso em uma hora, mas ao entrar no banheiro já sabia que não chegaria no horário. Sua namorada não ia gostar do atraso.)

- Não faça essa cara. Parte da culpa é sua – sentenciou pondo as mãos no bolso. O vagão de metrô em que estavam: cínico.

(Em Londres, ela dava outro barraco... tão jovem. Corria dos fotógrafos, os mesmos a quem mandara servir chá pela manhã.)

- Como assim “parte da culpa é minha”?!

(Se esconderam depois da educação física, ficaram em silêncio, quase mortos no armário de materiais esportivos; a respiração dela era ofegante, a dele parecia normal. O silêncio e os olhos dele eram perturbadores.)

- E por que você nunca me falou dela? – alteraram-se mais uma vez; ela colocando as mãos na cintura, ele cruzando os braços diante de si. O vagão de metrô em que estavam: antevendo o pior: “Vai dar em ...!”

(Ele sentiu um cheiro diferente ao desabotoar o primeiro botão. Ela arfava, o colo subia e descia como um bicho acuado; o sutiã de renda escolhida a dedo para aquela tarde, provavelmente era de sua mãe; ele já estava sem camisa. Fazia frio e ambos viam os vapores no ar. Era um cheiro de cereja.)

- Por que eu nunca falei dela? Ora, você o-dei-a que eu fale de outras garotas ou outras mulheres, até mesmo da minha filha, que mora no Japão, você não gosta que eu fale! Como eu poderia dizer pra você sobre ela, então? – discursou com cuidado, mas dessa vez olhos fixos, não desviou um momento. Ela sem ação, pensando. O vagão de metrô em que estavam: ihhhhh.

(Fazia frio e se sentia muito fraco, uma fraqueza que não era física; mas aquele compromisso era inadiável, não poderia suster mais aquela “coisa”, o novo nome que dera ao fiapo do que sobrara deles; entre os dois, restara o cachorro. Mergulhou o pincel na espuma, a navalha afiada ao lado brilhava.)

(O saco de doces acabara. As crianças e jovens minguavam à saída – cada vez menos apareciam. Em algum lugar na sua testa, uma veia se alterou, só mais cinco minutos, falou para si.)

(O sol caía; o céu alaranjado dando lugar ao lusco-fusco, num tom arroxeado de céu anunciando a noite, e o cheiro doce da pipoca feita na porta da escola era tudo; pôs a mão no bolso, sentiu o gelado das moedas, contou-as enquanto o sinal não fechava: dava para um saquinho e um baseado.)

(Conseguiu fugir dos fotógrafos. Entrou num bar e esperou no banheiro. Começou a ler as paredes.)

- ... então você quer me convencer que foi assim?! Que é “isso”! “Só” isso!
- Sim. Só.
- ...
- Dar de ombros não é argumento.
- ...

(Escanhoava com cuidado a garganta... lembrara do dia em que ela pedira para fazer a sua barba. O “não” foi veemente, no fim cedeu, como fazia a tudo que pedia. Dessa fez seria diferente. Parou. Algo mudara. Largou tudo, correu até seu escritório, pegou algumas folhas e uma bique cor azul e voltou para o banheiro.)

- Essa cara também não. Você vai precisar de muito mais, ***, para me convencer de que aquilo que testemunhei na porta da estação não estava acontecendo! Eu estava certa em te seguir... Eu lhe dei cinco minutos! A merda de cinco minutos!, e já estamos nessa merda há quinze! E a minha estação acabou de ficar para trás!
- Você estava me seguindo?!
- Sim, estava, e daí?
- “E daí?”, “E daí?” Como posso devotar a minha vida a uma mulher que não confia no que digo e, pior, que me segue?! Hã? Me diz!
Você gostaria que eu te seguisse todas as noites, quando você diz que vai a ***, mas na verdade vai à ***!
- Como, como você sabe disso?! Eu nunca te falei que era ...! Como você sabe?!
- Não interessa como sei, apenas sei. Você não pode me cobrar... – Falou com palavras duras; ela titubeou pela primeira vez, “Será?” O vagão de metrô em que estavam: um ruído muito estranho.

(Na secretaria, ninguém sabia dar por ela, ***, 16 anos, da turma *** especial; aflita, sua mãe perguntou se alguém tinha doces de feijão. Ninguém tinha.)

(No @@@ do colégio, comia o que sobrara da pipoca, estava com uma fome danada, aquele era do “bom”, pensou. Sempre era. A coroa da pipoca era a melhor traficante do bairro – a pipoca, havia melhores.)

(Doeu menos do que suas amigas disseram que doía, ainda não se sentia mulher, mas sentia algo diferente em si – a *** escorrendo pela perna talvez. O frio não diminuíra – nem um pouco – já vestira a meia e a saia; a calcinha, um presente, uma lembrança, uma parte dela para ele, que num canto, só os olhos no escuro e a fumaça de um cigarro; distante... “Não fora tão bom quanto pensei.” Ele se levantou muito rápido e...)

(“For a big cock, call me: 555- 8265 or just a coffee”, “Here, in the sacred place, all the vanity ends”, “Here completes all work by chefs”, “While you are shiting, there are a japanese guy studying”, “If also David Beckham do it, why not me!!!”, “I only I do doodles”, “Who read is a queer!”.)

(Num formigueiro em @@@, uma formiga-soldado desperta com os primeiros raios de sol; aquece-se lentamente limpando suas antenas com sua saliva, após concluir suas abluções, segue para acordar suas irmãs, vai repetindo o gesto, uma a uma, pouco a pouco. E a cada estimular de uma companheira, esta se encarrega da que está ao seu lado, repetindo no gesto quase infinito, o movimento de por um pequeno universo em andamento.)

- Você acha que é simples assim? Quanto tempo estamos juntos? Quatro meses? Cinco. Que sejam. Ainda é um ínfimo de minha vida para você supor qualquer coisa de mim. E pior, sair por aí me impedido de falar com qualquer que seja e me seguir...
- É meu trabalho, você esquece?

(Ainda ria quando parou de olhar as frases e abriu o livro de *** na página ### e começou a ler... Não havia mais nada de engraçado quando uma visita inesperada abriu a porta violentamente.)

(Deixou ela também uma frase naquele banheiro: “*** esteve aqui, fugida”. Saiu e pediu uma Guinness e no bar, tocavam ***, sorriu pensando em como gosta e se identifica com a cantora dos anos ***. Lá fora reconheceu um dos fotógrafos.)

- Não interessa que seja seu... que barulho foi esse? – No vagão de metrô em que estavam: só ouvidos.

(A bicicleta apanhava chuva, ela via pela janela da secretaria. Sobre a mesa do diretor uma revista chamou a sua atenção, pegou-o, enquanto ele, de costas para ela utilizava o telefone em busca de solução. Abriu aleatoriamente, não saberia ler nada no seu estado, porém uma frase chamou a sua atenção: “O bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas? – Teoria do Caos”. A revista não trazia a solução, mas não se importou, achou-a simplesmente bonita. Tampouco o diretor encontrou uma própria para ela.)

(No Rio de janeiro, um jovem casal discutia a relação no metrô.)

(Numa savana africana, um rinoceronte desperta de um sono intranquilo e sem saber destroi um universo com a pata.)

As pessoas da plataforma não entenderam quando a composição atravessou as suas vistas e não parou ali. Mas todos entenderam o som poucos segundos depois quando este rasgou o concreto, descarrilando oito vagões lotados – no carro em que estavam: só tiveram o tempo de se abraçarem e olhar um nos olhos do outro e compreenderem quase tudo.

(Na Tijuca, num banheiro, um homem interrompeu o fazer de uma barba para ali mesmo, sentar-se no vaso e seguir escrevendo uma história: "Teoria do Caos", por ***)

*Do livro de contos Simplesmente complicado, ainda inédito.
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4 comentários:

Bruna Maria disse...

Mauro,
confesso que me intimidei antes de começar a ler, talvez pelo título... Mas li, e vivenciei este caos escrito por ***.
Acho que muitas referências (como nomes próprios, ou títulos de livros, ou anos) ao serem furtadas de nós, dá o tom do caótico, confundem, pedem que releiamos até que, em dado momento, seguimos no seu vagão. É um pouco difícil apreender e acompanhar de cara o enredo do conto mas, enquanto eu ia lendo/relendo, achei que compreender o enredo de cada personagem, por exemplo, acaba dando vez à possibilidade de experimentar o estranhamento da incompreensão e as idas e vindas aos parágrafos. A leitura se torna caótica porque foi amarrada assim. Com isso, concluindo, acho que você escreveu um conto excelente. Gostei bastante.

Esse "Simplesmente complicado" promete, né? =)

Beijos!

Unknown disse...

Bruna, é sempre bom dialogar com os seus comentários!!! Revelação um: essa é uma versão apócrifa do conto, mas é provável que ela entre no livro, fui orientado a tal, a '1ª versão final', era por demais caótica.

As referências e principalmente a escolha por símbolos e não nomes 'caotizam' ainda mais a estrutura do texto, deixo-os para quem lê preencher com os nomes, personagens que quiserem, um exercício lúdico. Vejo os leitores desse conto como os passageiros do metrô, que conhecem o seu destino, mas não o destino imediato. Fora isto, tentei diminuir a importância das histórias de em prol da simultaneidade das coisas, nenhuma é mais importante que a outra. Apesar de escamotear isto ao deixar só uma fora dos parêntesis.

Quanto ao "Simplesmente Complicado", tomara!!!

beijos!

Lucien disse...

Não sei... é um texto muito confuso, não só na forma. Li duas vezes não aguentei uma terceira, fiquei tonto, mas sei lá... é estranho, mas é legal. Os comentários explicaram bastante, mas não consegui preencher as lacunas como o mauro propôs... Não sei se gostei, não sei se não gostei. Um dia eu leio de novo.

Unknown disse...

Olá Lucien, bem acho que o texto conseguiu 'mexer com você' e isso é o barato da coisa!! Umas das forças da literatura é essa: de transformação, seja ela qual for. Você teria se dado ao trabalho de reler um texto duas vezes, digamos mais claro? Ou de querer escrever sobre ele? Aposto que você não chegou a uma conclusão sobre.. rs. Pense nisso.

ms