11 de fev. de 2010

Poesia, Sylvia Beirute

DESEJO INFINITESIMAL
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{que horas eram quando o tempo acabou?}
-----{que horas eram quando deixaste de
poder reproduzir clandestinamente a explicação
-----da conclusão do desejo infinitesimal?}
{que horas eram quando a razão de espírito
-----substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
---------------no dia que dilui
-----na percepção multiforme da multidão?}
{que horas eram quando a boca simulou
-----o silêncio com princípios aleatórios?}
{que horas eram quando deixaste que a alma
-----somasse corpos e subtraísse outros?}
{que horas eram quando viver era deixar morrer
-----e a solidão incomunicável?}
{que horas eram quando o tempo acabou?
---------------que horas eram?}
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AVISO
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se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.
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O BEIJO DE RODIN
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não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença e
leves contradições sem alarme e gafanhotos.
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não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.
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INTUIÇÃO
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intuição. a arte mutila a intuição.
a leitura é intuitiva e a sua intuição
mutila a mutilação da intuição
que é a arte.
a leitura é a desproporção da criação, des-
programa-a,
desjustifica-a, avalia-a.
e previamente, hoje penso com a intuição
e verificação dos vaga-lumes
da tarde que intui o sol que cai
e assim, indirectamente, coloca
a intumescência das sombras
nos rostos e nas palavras com formato
de insecto
e nas possibilidades profundas da matéria
do rio implícito e anivelado.
daí a ressalva erógena para poder dizer que
apesar de viver dentro de um silêncio intuitivo,
eu lhe despertenço.
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Sylvia Beirute - Natural de Faro, Portugal. Estuda cinema e teatro e nasceu em 10 de dezembro de 1984. Escreve poesia e teatro para mudar o seu mundo e diz-se a favor do Acordo Ortográfico na versão de 1945. Integra o grupo literário texto-al e é autora do blogue Uma casa em Beirute. Tem colaborações dispersas em revistas literárias de Portugal, Espanha, Argentina e Brasil.
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