5 de fev. de 2010

Acidentes

Por Ricardo Bruch

Oi mãe, só liguei para dizer que vou me atrasar. Estou perdido entre tantos escombros, que nem sei de onde surgiu tanto pensamento para cair em cima de mim, de uma vez só. Não estranhe minha voz, é a água dessa gente que só sabe fazer chorar e quase me afogou. Essa gente, em resposta às minhas perguntas, diz apenas: não sei, não sei, não sei... porém continuam caminhando, para onde? Não sei, não sei, não sei... É isso, acho que vou demorar. E talvez quando eu finalmente chegar, você ache que meus lábios estão um pouco esbranquiçados, que meus olhos voltaram estrábicos demais. Foi uma confusão que eu fiz na calçada; contudo me disseram que anotaram a placa e que alguém, um dia, há de tomar as devidas providências; então, não se preocupe. Se por algum acaso, você ouvir algum canto dizendo que fui visto caindo sem minhas asas de espuma, não acredite. Decerto que janela estava, sim, aberta, confesso; mas não a atravessei. Não agüentaria perguntar a mim mesmo o que foi que eu fiz, sabendo que nunca obterei uma resposta. Acho que estou chegando, mãe. Não devo demorar mais muito tempo. Verdade que já deveria estar aí, mas a estrada é que é ruim. As curvas, faceiras, deram para dançar comigo no colo e mudavam de direção conforme o canto dos pneus. Sorte minha que as paredes das suas entranhas eram feitas de marmelo. É possível que um cheiro de chuva invada seu nariz, meio inadvertidamente, feito gatuno, e que esse cheiro confunda um pouco a lembrança que tem do meu perfume. A culpa é minha. Fiquei tanto tempo deitado na chuva, que transformei todo meu corpo em gotas esparsas na janela. A qualquer momento agora, mãe, a campainha vai soar, e, se por coincidência, soar rápido demais, antes de desligarmos, foi porque peguei carona nas asas da saudade. Bom, preciso desligar, que o céu vai abrir, amanhã.
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Ricardo Bruch - Escritor paulistano. Tem a cidade de São Paulo como uma de suas maiores musas, fazendo questão que figure em contos e crônicas de sua autoria. Seu conto Mariana foi selecionado para figurar na antologia Universo Paulistano II, organizada por Chico Anes e Carlos Francisco de Morais (Ed. Andross). Cuida do blog http://bostoievski.blogspot.com
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7 comentários:

Unknown disse...

Muito bom! Texto muito bem escrito e bem criativo. Li também o texto Mariana deste autor e achei fantástico.
Parabéns ao autor e parabéns ao pessoal do Bule por ter publicado este excelente novo autor.

Mariana B.

Massahiro disse...

A expressão abstrata não é para ser entendida, é para ser sentida. Talvez seja essa a melhor maneira de descrever esse pequeno conto. O oceano caótico, movimentado, incessante de acontecimentos empilhados, entulhados, espalhados, formam uma espiral sem fim de eternos sentimentos que encontramos hoje nas cidades. É com esse caos que convivemos e é em suas palavras que temos imagens, não claras, mas misturadas como tinta colorida em um balde, do lugar tão movimentado em que vivemos hoje.

Anônimo disse...

Adorei as palavras que foram usadas neste texto....entreteu o leitor do início ao fim! Excelente trabalho!

Juliana Figuei

Anônimo disse...

Um pouco menos ousado do que os outros textos que li no blog de Ricardo, mas também um ótimo texto de ser lido e para se refletir! Gostei bastante! Acompanho seu trabalho e estou gostando muito.

Sorte!

Marcio Luís

Leonardo Henrique disse...

Parabenizo o Autor deste conto e, tal qual o fim de um bom espetáculo, tenho por obrigação aplaudir e clamar: "Bravo! Bravíssimo!!!"

José Luiz Nascimento disse...

Parabéns pelo texto.
Simples, criativo e singelo.

Mônica Cadorin disse...

Que coisa: fica a gente tentando ver sentido num sonho, ou num delírio. E aí está a graça do texto: leva o leitor para um lado e outro, entre a razão e a loucura, entre o que é e o que se pensa que é. E nada mais é do que um texto. Muito bem escrito, aliás. Parabéns, Ricardo.