5 de jan. de 2010

Última chance

Por Mauro Siqueira

ÚLTIMA CHANCE. Daqui posso vê-la do espelho: acaricia uma das costas do próprio braço, como que tímida, estranha por estar ali... ela ainda parece decidir, fazer parecer sensato. Eu não posso demorar, não posso deixar que aquela sombra ganhe corpo, sentido. Dúvida é a sombra, algo além do categórico, algo palpável: um véu, que apesar de fino e translúcido e mínimo, uma barreira intransponível entre nós. A dúvida: o limite.

Última chance. É só o que consigo pensar: última chance... última chance... última chance... uma locomotiva anunciando a última saída, a chance que tenho de embarcar, ela já no trem sem olhar para trás; corro pela plataforma de mão estendida, tentado alcançar qualquer coisa para me agarrar a ele... a ela.

* * * * *

Corro a mão pelo seu corpo por mais uma vez...

Eu sei que amanhã ela vai achar tudo isso um erro, vai sentir nojento tudo que se dará e sentirá quase-agora – seus olhos nunca mentiram, e já até vejo: ela irá tomar um banho: um banho quente, muito quente, do jeito que não gosta. Abrindo todos os poros da pele maculada; vai se esfregar com força a esponja no corpo, querendo se limpar, limpar-se de mim, cada leve contato, cada forte lembrança (um véu). Ela vai sentir raiva. Como nunca sentiu. E qualquer coisa que eu faça, qualquer coisa que eu possa tentar fazer para que esta noite permaneça terá sido inútil diante do dia em que lhe dei as costas pelo efêmero.

Talvez.

Hoje eu vou contar com a sorte para inverter clichês.

Ela nunca me perdoou. Então esse é o nome do trem que tenho que agarrar: desespero – a última chance. Eu tenho de consertar o que eu fiz, colar cacos (ainda que cole, será o mesmo vaso?). Hoje sei que sempre foi ela. Um pouco tarde, certamente. Sinto-me oco. Dentro de mim... vago espectro pela remissão, buscando consolo nos lábios, colos alheios, sugando algo que elas não têm para oferecer... virei um estranho íncubo. (Viver faz mal). Mas com ela, corpo reconstruído, restaurado, estilhaços que era não mais. Com ela meu fingimento dura pouco: sou autêntico.

Em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui, uma saudade (uma dor dela), mas está claro no seu corpo que será só isso: nostalgia (catarse de fato dessa dor, está curada...). Não poderei dizer no seu ouvido, olhando nos olhos dela, que a amo, se não, nem essa nostalgia vou ter, e ela passará por aquela porta. Ouço o apito da locomotiva...

...última chance, última chance, última chance... uma locomotiva anunciando a última saída.

Ela não me deu escolhas a não ser de eu trocar os móveis de lugar e estar aqui (em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui), num motelzinho de 29,90 por 4 horas, fazendo amor com ela e com camisinhas que furei enquanto a olhava acariciar o braço pelo espelho, na esperança desesperada de uma gravidez indesejada.

Hoje, hoje eu vou inverter clichês.

Mauro Siqueira - É carioca e formado em Letras pela UERJ. Faz parte de um grupo de pesquisa que tem como objeto a prosa brasileira contemporânea. Publicou em 2008 pela Multifoco De vermes e outros animais rastejantes, contos, seu primeiro livro. Atualmente trabalha como assessor editorial na EdUERj e prepara o segundo livro, também de contos, Simplesmente complicado. Passa a maior parte do tempo livre lendo, pensando em literatura, rock (inglês), filmes (bons e ruins) e trocadilhos infames. E ainda tenta manter vivo o seu blog (http://devermeseoutrosanimaisrastejantes.blogspot.com) nas noites de insônia, que não são raras. Está sempre “on”.
Contatos: maurovss@gmail.com @maurovss (twitter) Mauro Siqueira (facebook)
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COMUNICADO D’O BULE AOS COLABORADORES: Com apenas cinco dias de existência, nosso blogue já recebeu uma quantidade grande de colaborações. Nossa caixa postal está cheia e, claro, estamos felizes. Todos os textos serão lidos e analisados. Talvez demore um pouco para respondermos. Os textos aceitos entrarão na fila para serem publicados no blogue e, quando forem, o seu autor será avisado. Esperamos a compreensão de todos. Enche-nos de alegria constatar a fome de literatura que existe no nosso país. Uma fome boa. Afinal, como disse Quincas Borba, humanitas tem fome, humanitas precisa comer.
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9 comentários:

Bruna Mitrano disse...

Viver faz mal, meu caro. Viver estraga a saúde.
Maurito, eu não disse lá, mas digo aqui: gostei pacas desse.
Ah, temos que conversar sobre essa coisa de uso de parênteses...rs

Rogers Silva disse...

gostei deste texto também, sobretudo do final: "hoje, hoje eu vou inverter clichês". texto poético, ora confuso (de uma confusão que é mais ambiguidade; vontade de não explicitar tudo).


p.s: só se atente a um 'tem' no plural sem acento. coisa de nada, mas... :D

Larissa Marques - LM@rq disse...

belo espaço!

Unknown disse...

Incrível como tem gente boa escrevendo por aí.

Nada tem sensação mais arrebetadora do que a surpresa (os que acham que o amor é mais forte, perdõe a falta de traquejo ao dizer que acreditam nisso por que nunca foram supreendidos).

Não digo isso só pelos textos dos colunistas e do Mauro que foi o colaborador escolhido, mas esses dias estava futucando nos blogs das pessoas que comentam, como tem coisa boa por aí.

Meu niilismo que morra sufocado.

Meus parabéns pra todo mundo.

Um grande abraço.
André

Bruna disse...

Mauro, eu "te conheço" da UERJ. Legal ver como você escreve bem. Parabéns pelo conto, o final é ótimo também.

Guilherme S. disse...

Inevitável lamentar que essa umazinha aí vai dar trabalho pro Judiciário...! Tô até vendo: DOS REQUERIMENTOS - 30% dos vencimentos líquidos do última chance, última chance. Vai lá! Fora isso... ;) o texto é magnífico.

Unknown disse...

Talvez, só talvez, nos conheçamos. Da UERJ, onde mais, da EdUERJ também, who knows? Mas não importa.

Me deu desespero.

Seu texto me deu muito desespero.

E vou dormir feliz com esse peso no peito. Com esse peso no peito (verdade, pesa. Como uma música triste, que é bonita, mas dói - ou será bonita porque dói? Não sei. Não ligo.)

Vou dormir feliz.

Grata.
Milena.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Com 3 dias de atraso consigo parar e comentar os comentários(?) sobre o meu continho publicado aqui, n'O Bule. Obrigado a todos e a tudo! Mauro.

@Bruna Mitrano: é só marcar dia e hora!
@Rogers: vlw a dica, será revisada.
@Bruna: tb "te conheço" da UERJ, vou vistar os seus textos tb.
@Guilherme: pois é... por e$$e ponto de vista, ela podeira dar mais trabalho... e tão clichê quanto uma gravidez.
@Milena: talvez nada, de uerj e eduerj, :)