26 de jan. de 2010

Pia Benta

Por Fernando José Karl
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Vim a este Hotel Sunset Boulevard, rente ao mar grosso de sal e azul, porque me contaram que aqui estavam me esperando Schopenhauer e Francisca B. Não os encontrei. Não faz mal. Ficarei espiando o mar tranqüilo assim e o visível corpo n’água.
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Mar em que nos abandonamos e que cresce em nós com as tormentas, continuará a ser água salgada em desalinho constante e os limites deste mar, fixados em alguma idéia, se confundem com a altura do céu que é claro sem nunca ter pensado: este céu é suficientemente despovoado de anjos e beatas virgens, de tal modo que resta sempre novo céu que podemos exaurir e dele arrancarmos as finas cordas da chuva, as chuvas de que é capaz o espírito.
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E acontece que, para o espírito, as nossas presentes chuvas, sem consideração moral, são mais molhadas. Aquele que construiu em si a obrigação de molhar os dedos na pia de água benta, sabe que nunca deixará de faltar matéria e realidade à água benta e só terá necessidade de recorrer a ela se, vazio, e para iludir o escuro em si mesmo, tocar a suposta santidade da água que, ali na pia, é água apenas, e isso é tudo para essa água que, sem pia nem beatitude, continua ali e logo evapora. Mas chega de filosofia.
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Não vou esperar mais. Daqui posso ver a Tabacaria. Talvez o Esteves saiba onde Schopenhauer — o peixe espinho — e Francisca B. estejam.
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Fernando José Karl - Nasceu em Joinville/SC no ano de 1961. É autor de Casa de água (Poesia), O Cacto (Romance) e Senhora do gelo (Novela), entre outros livros.
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Um comentário:

Parreira disse...

Interessante essa história de construir um conto sobre um encontro que não aconteceu.
Linguagem precisa, segura, imagens competentes (as cordas da chuva, por exemplo) - e concordo que as chuvas do espírito são mais molhadas - porque chovem dentro.
Só gostaria que, na Tabacaria, o Esteves ou ainda o Pessoa me esclarecessem: a Francisca, porra, vem ou não vem?