30 de jan. de 2010

Dilema (ou 47 Segundos)

Por Mauro Siqueira

--O que passa na cabeça de alguém com o cano de uma arma, ainda quente, entre os olhos?... Não perca tempo tentando adivinhar o que é, eu respondo: a porra de uma maneira de sair da situação, sem a necessidade de uma cirurgia em que o resultado não seja você mesmo babando pelos próximos vinte, trinta anos ou, então, como fertilizante orgânico de um campo santo clandestino!
--Eu tinha quarenta e sete segundos para encontrar essa maneira.
--Não fazia ideia de onde estava, sabia apenas que era próximo a alguma ferrovia, estava muito quente ali, o suor pingava da minha camisa, que colada ao corpo começava a incomodar tanto quanto aquela situação. E que situação... maldito Vicente! Entrei naquela graças a ele. Pelas frestas daquele amontoado de tábuas que Eles chamavam de galpão, eu podia ver a poeira em suspensão numa coloração avermelhada nadando na luz que entrava; o sangue de Vicente escorria para perto de mim e graças à tensão capilar ele subia vagarosamente pela minha calça de linho que um dia foi branca – aquele sangue ainda não era o meu. Ali mesmo nos cascalhos em que estava ajoelhado implorando a algum deus pela minha vida, Vicente, o maldito, jazia numa posição bizarra: de costas, a perna esquerda quebrada num ângulo estranho – pareciam duas pernas direitas. Os ossos das mãos foram esmagados com uma marreta. O rosto virado em minha direção – tinha os olhos miúdos vidrados em mim. E por fim, o estrago do tiro na boca que quase separou a cabeça do resto do corpo. Era grotesco, o homem de voz trovejante, mas de andar desengonçado, não era mais nada além de um monte de massa de nada; ainda assim parecia desengonçado.
--Eu já não tinha mais esperanças de sair dali andando com minhas próprias pernas... pensei no que minha vida era e do que nunca teria sido...
--"Abra la boca!", disse o maldito argentino – o filho da puta tinha de sê-lo.
--Abri-a debilmente, ele empurrou a arma por entre meus dentes amarelados de nicotina como se fosse um termômetro, meu corpo de alguma forma entendendo a metáfora, tremia para validar a cena. Seus dois amigos riam do fundo do galpão, um deles aumentou o volume de um rádio que sibilava alguma coisa ininteligível para mim... Deus, eu já podia ver os anjos chorando por mim e ainda teria de morrer ouvindo pagode dor-de-cotovelo!
--"Monteiro! Acabe logo com isto, estamos com fome", disse o cara do rádio com impaciência.
--Era o fim.
--Pude sentir o vibrar das molas e engrenagens do .38 quando o cão da arma foi puxado. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, eu não consegui fechar os olhos.
--Nem Monteiro. Não piscou ao apertar o gatilho...
--(Uma vez, num filme, duas personagens discutiam o que era um milagre. Um deles respondeu: "É quando Deus faz o impossível, possível.")
--Não houve disparo, simplesmente a arma "negou fogo", Monteiro ia examinar a mesma quando...
--Caiu levando as duas mãos ao rosto já cheio de sangue – por que nos momentos mais estranhos da nossa vida temos as ideias mais tolas e estúpidas? A primeira coisa que passou pela minha cabeça ao vê-lo no chão foi: “Defeito de fábrica, o fabricante promoveu um ‘recall’, Monteiro não se deu ao trabalho de levar a arma”.
--O argentino desgraçado contorcia-se na terra vermelha e no cascalho de dor, eu ainda ajoelhado começava a entender que o tiro saíra pela culatra, quando vi o revólver. A três palmos do meu alcance a arma acenava para mim com a promessa de poder e vitória, os amigos do seu antigo dono eram mais lentos que lagartos pré-históricos e levaram uma vida para tomar alguma atitude. Duas ideias loucas atravessaram meu córtex cerebral: a primeira, faria como nos filmes e derrubaria os brutamontes com poderosos golpes de artes marciais que nem mesmo conhecia. Ou a segunda, convencer-ia-os a desistir – falaríamos de Buda, Jesus, Krishna, Gandhi, King, Bono, esses caras –, já que muitas pessoas haviam se machucado.
--O dilema nem corroeu meus sentimentos.
--Peguei a arma, levantei, virei-a em direção dos dois babacas, agora, lívidos e mansos. Não sabia se ainda podia funcionar, atirei rezando que não acontecesse o mesmo que aconteceu com o argentino – tinha de sê-lo!
--O tiro ecoou no galpão, acertei em cheio.
--O pequeno rádio de pilha se desfez em pedaços, em várias direções, em várias evoluções. Os dois não entenderam nada, nem mesmo eu entendia, então eu corri. Ouvia os zunidos, sentia a pólvora no ar e corria tudo o que não corri na adolescência, atravessei a porta do galpão ainda correndo, a claridade me cegou e por um momento não sabia o que era direita ou esquerda, corri em direção à ferrovia, podia ouvir os caras me perseguindo e eu corria – se não tivesse meu baço num acidente de infância, aquela dorzinha que dá nas costelas teria me feito parar e... bem, nada de história. Eu corria feito o diabo, eu ainda ouvia os tiros, corria como quenianos, não ousava olhar para trás, tinha medo de me tornar uma estátua de sal ou de nunca mais ver minha Eurídice... e então eu corri...
--até não mais ouvir os tiros.
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Versão revista do livro De vermes e outros animais rastejantes (Ed. Multifoco, 2008).
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3 comentários:

Bruna Maria disse...

É legal ver como a racionalidade se estabelece mesmo nas situações mais extremas - como nesses 47 segundos. Existe também uma naturalidade no tratar de situações de violência; acho isso curioso nas narrativas. Como se o que fosse absurdo, grotesco ou inaceitável em termos de humano se mostrasse de uma forma objetiva e fria aos nossos olhos.
Gostei do conto!
Pergunta: a versão é revista em termos de acordo ortográfico ou você achou que deveria mudar algo de enredo, em relação ao original?

Beijos!!

Unknown disse...

Opa Bruna, obrigado por gostar do conto. Gostei das questões levantadas sobre a violência, isso dá panos pra manga... Eu gosto do absurdo, grotesco e do inaceitável, aliás, acho que cada um gosta a sua maneira. Mas não sei se todas as formas de demonstrar esse interesse (compulsão?) Seja de uma maneira "placa de Petri" de ver a vida. Eu tento não romantizar muito ou cientificar muito... eu gosto de debochar disso. Às vezes. ;)

P.S.: Resposta: a versão é revista de acordo como o novo acordo (hã?), uma outra palavra nova, um ou outro rearranjo de sintaxe. É isso.

GiAlmérida disse...

Bem, como eu TENHO o livro, posso dizer que essa nova versão está mais "polida" do que a primeira, mas essa não chega a ter grandes mudanças, a ponto de parecer outro conto. Bj!!