24 de jan. de 2010

Chapéu de mágico

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Na verdade nunca fui mágico. Sabia meia dúzia de truques e uma vez um macaco de circo me ensinou a hipnotizar pedras e tigres.

Sim, é verdade que eu trabalhei no circo, já fui mulher barbada sem nunca ter sido mulher, já me vesti de urso, já derrubei touros capados, mas nunca fui mágico. Acontece que eu estava foragido. Tinha coronel, polícia e Lampião no meu rasto e fui me esconder naquela pobre cidadezinha nos fundos de pra-lá-dos-montes. Eu usava um chapéu de mágico, roubado, e o povinho me confundiu de sujeito ordinário. Me receberam bem pra danar. Fizeram banquete e tudo. Mataram cabra. E me deram a última donzela virgem daquelas bandas. Juracema. Eu aproveitei. Lambi os beiços. E como gostei da menina, não contei pro povo que de donzela ela já passava longe.

No dia seguinte, veio a conta. Como fui tolo, pensei. Metido em outra enrascada. Os pra-lá-dos-montinenses estavam cansados de tanta seca naquelas terras. E cansados também estavam da chuvarada que quando vinha não vinha só, mas vinha enchente. Era tarde pra dizer que eu não era mágico e me lembrei do macaco do circo. Eu já tinha hipnotizado pedra, já tinha hipnotizado tigre, não seria difícil hipnotizar aquela gente. Acabou seca, acabou enchente. Quer dizer, o povo todo não viu mais seca nem enchente. Alguns morreram comendo terra e outros morreram afogados na última estação. E quando o efeito do transe passou eu me chispei daquele lugar e trouxe comigo a donzela que não era donzela.

Hoje, velho, me recordo daqueles dias, e da fatalidade de ter conhecido Juracema, que fugiu de mim na cidade seguinte com o mágico de um circo que por lá acampava.

Do livro Rapsódias – Primeiras histórias breves (Ed. Multifoco, 2009)

13 comentários:

Parreira disse...

Muito bom o conto: desencanto, tô-nem-aí-mas-sou-assim.

Unknown disse...

Rodrigo,

esse foi definitivamente um dos contos mais legais que já li aqui no bule. A linguagem, as imagens, tudo muito legal mesmo! Meus parabéns.
André

Eduardo Kawamura disse...

Gostei, muito bem humorado e um tiquinho fantástico.

Anônimo disse...

Olá,
é realmente muito bom ler textos de qualidade. Um mágico que não é mágico e que hipnotiza uma cidade é algo surreal, mas temos tantos políticos que não são políticos e iludem da mesma forma o povo incauto, que é bem possível um falso mágico manter a todos longe da realidade, pelo menos por algum tempo.
Abraços
Moon

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Moon, Eduardo, André e Parreira, obrigado pelas palavras. Legal que cada um comentou um viés do conto, bem bacana, valeu :-)))

Esta semana o blogue estará bem movimentado, Cronos cheio de trabalho rsrs

Abraços a todos, R.

Guilherme S. disse...

Pois pra mim isso parece mesmo um breve resumo para um longo romance.

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Quem sabe, Guilherme?!?!

Guilherme S. disse...

Rodrigo: você é quem sabe, a história é sua! ;) [Mãos à obra!]

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Verdade, Guilherme rsrsrs É um caso a se pensar. Tem muita coisa ali nele pra uma investida. Pode ser um caminho interessante...

Unknown disse...

Show de bola, Rodrigo e concordo com o Eduardo: há um sabor de fantástico aqui.

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Mauro, e olha que este é o menos fantástico do livro rsrsrs Abç, vlw

Geraldo Lima disse...

Tem alguma coisa de Pedro Malasarte nesse seu conto, Rodrigo, aquelas espertezas do herói picaresco. Gostei bastante.

Parreira disse...

Pedro Malasarte, putz!, há quanto tempo não ouço isso!
Mas vc tem razão, Geraldo: o mágico aqui é mesmo um pícaro, criado na viração, um sujeito que ainda se dá ao luxo de rir amargamente de si mesmo.