5 de ago. de 2020

Literatura e pessimismo – Malagueta #34

Por Daniel Lopes Guaccaluz

Procure se lembrar, atravesse todo barulho dos muitos “eus”, da sociedade, de todos os meios de comunicação; Isto está sussurrando. Em geral, não ouvimos porque estamos distraídos ou ocupados com tarefas urgentes e inúteis. Isto é generoso, altruísta, delicado, atento à beleza. Isto é quem somos para além de todas as máscaras. Geralmente, não conseguimos ouvir, perdidos que estamos, até que uma grande dor abra nossa escuta. A Literatura ocidental, desde Shakespeare, é uma Literatura pessimista. Fitzgerald: “É claro que toda vida é um processo de demolição”.Tudo é sempre muito trágico e o homem caminha para seu próprio abismo. Por quê? Porque está desconectado de si. Já não se lembra de quem é. Não encontra dignidade em seu próprio coração e então se volta para o poder e a ascensão social: as disputas de poder das “dark plays” shakespearianas; a busca de ascensão social de Julien Sorel; O grande Gatsby; Judas, o obscuro; Extinção, de Thomas Bernhard. Sempre o abismo como destino. Hemingway chegou mesmo a dizer que não se pode ser feliz e inteligente ao mesmo tempo. Não nego a etapa da dor. É difícil arrancar uma máscara afixada à face com Super Bonder, mas a grande dor é a fissura que abre o Ser à escuta de si. Na filosofia, Nietzsche também percebeu isso e, a partir daí, distanciou-se de Schopenhauer. Zaratustra sempre se volta à sua caverna e aos seus animais. E o que é o além do homem, se não o ser que goza em ser si mesmo, que não espera reconhecimento exterior, mas que se realiza ao desenvolver todas as potências da abertura que encarna? Nietzsche não vai pelo caminho metafísico; busca os céus com os pés na Terra; vislumbra, no entanto, o mesmo ser que os grandes instrutores eram: o iluminado. Se seu chamado é guerreiro, então regozije-se com a guerra; se é a literatura, realize-se com a escrita e não com a fama. Nosso valor não está no reconhecimento da sociedade, mas na realização do chamado mais fundo de nosso coração. A Literatura ocidental é pessimista porque o ser humano esqueceu de si; e a maioria culta identifica-se com este lugar de perdição e errância. Há, no entanto, uma porta para outro lugar no interior. Olvidado no fundo do silêncio, aquilo que somos clama atenção. A Literatura pode ser alegre. Também. 


Daniel Lopes Guaccaluz é escritor, jardineiro e professor. Edita o blogue: www.pianistaboxeador21.blogspot.com. Gosta de arte, planta, bicho e gente. Seus autores preferidos são Jack Kerouac, Louis Ferdinand Céline, Dostoiévski e Guimarães Rosa. Não ignora o lado sombrio do mundo, mas ainda crê na força da amizade, da gentileza e do amor. Pai de Sofia e João Gabriel. Publicou os livros Pianista Boxeador, Fruta, A delicadeza dos hipopótamos, No céu com diamantes e Ménage à trois. Foi um dos organizadores da coletânea de contos Do outro lado da notícia. Eterno aprendiz.

2 de ago. de 2020

'EntreMeios' - um romance feito de fendas e camuflagens

Por Milton Rezende

 

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

                        MÁRIO DE ANDRADE

 

Acabei de ler o romance EntreMeios, de Cassia Penteado, acho que por umas duas ou três vezes em uma única vez. Explico-me: foi uma leitura feita de idas e vindas. Recapitulações. Tentando lançar luzes sobre alguma passagem anteriormente lida e não totalmente absorvida, e este foi um processo enriquecedor. Fiz com este livro uma leitura sui generis: antes de eu terminar eu recomeçava e lá pelas tantas iniciava tudo de novo, mas mantendo as pontas do início e do desfecho afinal cíclico.

Não quer dizer com isso que seja um livro de leitura difícil, mas requer perspicácia e a vontade de continuar lendo e continuar sorvendo tudo porque trata-se de uma prosa poética, ou melhor, verdadeira poesia em prosa – deliciosa e vermelha.

Saí deste livro de estreia com uma palavra formulada nos desvãos do meu cérebro já antigo e que ainda gosta de se expressar com palavras em desuso justamente quando requer e precisa de um termo forte para anunciar algo novo e inovador. Uma estreia deveras alvissareira.

Há que se ressaltar neste livro, publicado pela Editora Reformatório, seu caráter bastante diferenciado e promissor, bem como enaltecer esta nova autora, Cassia Penteado, que publica seu primeiro romance e promete. Literatura concisa, cheia de frases como lâminas afiadas da faca de sashimi, “que permite um corte perfeito com um único golpe”. Lâmina limpa antes de ser usada. Impressionante.

Dir-se-ia que é um romance duro, cruel, mas simultaneamente límpido e doce, como aquele personagem singelo que vai enrolando o seu cigarro de palha, numa passagem da mais pura magia: “ele desembrulha um pedaço de tabaco torcido e enrolado em corda. Do bolso da calça fina de tergal cinza, ele traz o canivete de aço inox com detalhes em madrepérola; era ainda menino quando o herdara do avô. Com ele fere e descama o fumo que armazena na palma da mão, depois o despeja na folha de palha, enrola-a na superfície da ponta dos dedos, leva à boca aquela gaita de palha recheada de tabaco picado, lambe a borda da folha com a ponta da língua e, com a saliva, cola-a no corpo do cigarro, encerrando a obra”.

Procedimento simples e poético que contrasta com os muitos coágulos de sangue que virá antes e depois, em profusão, no cérebro emaranhado de traumas e pesadelos e culpas da personagem principal. Ou seriam duas personagens mulheres? Ou apenas uma, a mesma? É preciso ler o Entremeios para saber.

Numa passagem inóspita e realista a personagem se questiona: “extirpar o útero de mulher que jamais parira? Sou chão batido em que a semente não germina, sou árvore maldita que não deu fruto, aguilhoada pela ardência da devassidão da infertilidade. O destino poupara-me a desgraça de gerar víboras, de ter, nas palmas, o enxerto fecundo de outra anomalia a perpetuar minha vileza. Jamais desejei reproduzir algo que não partisse de meu cérebro, dos meus sentidos, e a vida secou inopinadamente as minhas entranhas”.

Um romance feito de fendas e camuflagens e com a capa vermelha como glóbulos de sangue, muito sangue. Afinal havia um buril. Sim, um buril.

1 de ago. de 2020

O escritor

Por Ricardo Novais

 

Numa certa manhã, João Lebre acordou aborrecido. Olhou para a escrivaninha velha, o computador velho, as letras velhas e respirou fundo. Mal se vestiu e precisou ir à rua, caçar ar puro, gente outra, ideias novas. Dobrou a esquina, viu muita coisa velha na nova gente. Sempre a mesma agitação. Lebre parou alguns instantes, pensou em tornar ao lar, entretanto, dispôs-se a andar, aumentou o passo, atravessou outra calçada, andou, andou, andou e chegou à frente de sua própria casa.

 

__ Que acontece, João?

 

João respirou fundo, novamente. A esposa nada entendia; os filhos, pequenos, menos ainda. 

 

__ Tenho que escrever... – Lebre disse isto e trancou-se no escritório às pressas.

 

Pegou do cigarro, acendeu-o, mas não tragou dele. Não fumava. A fumaça rapidamente tomou conta do ambiente. Deixou pousar as costas à cadeira bege, iniciou uma homilia mental em conjunto com uma observação de memória recente. Abriu uma garrafa de uísque barato...

 

Havia ali uma grande biblioteca na casa, naquele compartimento, herança do pai. Os livros, quietos, olhavam para o escritor, e este retribuía. A coleção de obras-primas de autores clássicos continha Flaubert, Eça, Eco, Rosa, Dostoievski, Tolstói, Kafka, Machado, alguns outros mais recentes, outros ainda mais antigos. Há uns jogados ao pé da estante, livros de diferentes tamanhos, cuidadosamente organizados como títulos de nobreza. Um exemplar da grande literatura ficava exposto em mesa central: Em Busca do Tempo Perdido, do romancista Proust. A esta altura era este autor francês o que mais lhe chamava a atenção e mais repreendia os seus modos de escrita e as suas preferências de criação literária.

 

João Lebre escrevia textos do que a crítica se especializou em chamar de autoajuda, embora também tenha se aventurado pela ficção juvenil. A subsistência ficou a cargo da gorda pensão que a mãe deixara, sempre foi filho único. É verdade que também tenha figurado como professor, por recreação; e, naturalmente, escritor, por vaidade. Editores medíocres o publicaram, revistas on-line listaram suas pequenas obras e as livrarias das redes sociais expuseram seus livros. Poder-se-ia dizer-se bem-sucedido.

 

No entanto, o escritor sentia em suas entranhas a necessidade de volumosa criação literária. Ansiava, com dor estomacal, adentrar ao rol de maiores literatos do mundo, reservar a cadeira escura de onde pudesse tomar chazinho das cinco da tarde. Perceba, senhor leitor, aí é que estava toda aflição e desgosto do autor que sonhava em ser célebre, ser um grande literato, celebrado, renomado nos grandes salões letrados.

 

Tinha ele de retornar àquela sala, sob a escrivaninha e a tela onde deveria preencher as linhas, exatamente para forjar um método de trabalho: a metodologia da criação.

 

__ Preciso que esta parede seja pintada de branco, impecavelmente branca, toda branca, branca, branca... – esbravejou ele em meio da afetação. – Não há de ter uma manchinha sequer; nenhuma! Uma parede alva, clara, brilhante que me traga ideias brilhantes... Isto! Terei sim aspirações brilhantes, divinas... Voilà!

 

Assim foi. Pintou-se toda de branco a parede lateral, que fica de frente para a velha escrivaninha. No primeiro dia, porém, nada. Não que as ideias não viessem; vieram. Lebre chegou as escrever quase vinte páginas de prólogo, mas não foram boas... Quando resolveu descansar um pouco da escrita, resolveu também ler o escrito; fez ele mal nisto.

 

Ao terminar de ler as vinte linhas, o escritor percebeu que os mesmos livros o fitavam, do mesmo lugar. De modo que os autores clássicos foram mais claros do que a parede alva recém pintada:

 

__ Não está bom, João! – foi a sentença.

 

Proust foi ainda mais enfático:

 

__ Está uma porcaria, meu amigo da América! Escreva coisa melhor para não ser confundido com algum selvagem ou qualquer homem que pega da pena....



 

A depressão o engoliu. Fez a mesma rotina de algumas semanas. Saiu à rua, andou, viu gente nova e coisas velhas, tomou ar às ventas, a fumaça preta da cidade grande o fez tossir no âmago.

 

E você, hein, amigo leitor que meramente lê, não valoriza os esforços incríveis do processo criativo de um homem letrado? Oh, não! A dona leitora, que não tem mesmo um gênio fácil, já vem exclamando: “Ah, me poupe! Quanta doidice!”

 

O escritor retomou à escrita e escreveu uma única palavra, em fonte Arial: Nada. Escreveu e não escreveu... Nada! Mudou o tamanho e a fonte das letras, mas foi um fracasso comovente.

 

Então que alcançou a maior bizarrice de sua metodologia da criação. Retirou toda a roupa, ficou nu em pelo na escrivaninha com o ar-condicionado ligado na mais baixa temperatura; por certo, para ter ideias frescas. A esposa entrou de surpresa e o surpreendeu nesta esquisitice e se escandalizou:

 

__ Que isto, João? Que gelo é este, João? Vai ficar doente pelado neste frio.

 

Ao invés de ideias arejadas, ao final de uma semana o escritor estava com pneumonia; e as ideias frescas que, porventura, ele possa ter conseguido, derreteram assim que se abriu a janela e adentrou o primeiro raio de sol.

 

João Lebre, magnífico intelectual desta terra de literatos, morreu naquela mesma noite, às dez horas e cinco xícaras de chá. Proust, ao saber da morte do brilhante escritor brasileiro, pousou a mão esquerda ao queixo, sacudiu, sutilmente, a cabeça três vezes, ergueu à meia altura uma xícara de café e disse, em baixo tom, no meio da biblioteca da escrivaninha: “Aos esnobes e aos amadores”.

31 de jul. de 2020

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29 de jul. de 2020

Você pode ganhar o livraço 'Um andarilho dentro de casa', de Milton Rezende!


Milton Rezende expressa na sua poesia os lados latentes do seu espírito, o qual não encontraria outros caminhos para existir, a não ser quando revelados em sua forma pura, desnudada pelas palavras. O raciocínio poético utilizado por Milton não joga demasiadamente com as palavras, pelo contrário, diz exatamente o que se intenta entender nos primeiros contatos com sua poesia. Milton diz da dificuldade em conciliar seus paradigmas de homem rural com as novas ideias propagadas por uma juventude que pensa entender de tudo. Por este olhar, o poeta afirma ter preferência por sua sabedoria pragmática, ainda que ela seja de fato exposta a fraudulência. No poema “Alzheimer preventivo” o poeta desabafa o peso que sente pelo julgamento externo, e encontra na transfiguração dos seus sentimentos para as palavras o refúgio contra a maldade dos homens. Já em “Medo de...de/decair” o tema da morte faz-se presente na convicção de que o fim do ser é a ausência de dor, e também de que o homem não deve lutar contra o poder impositivo da morte, ainda mais quando é ela o anestésico contra a dolorosa vida. Os temas para este escritor são diversos e sempre expostos sem mascaramento pela escolha de palavras simples com poder de formar sua narrativa poética sem o comprometimento de seu entendimento.

1986 – 2016: trinta anos da poesia andarilha de Milton Rezende. Um marco e ao mesmo tempo um desafio. Como seguir adiante sob o peso destes dez livros publicados? Uma vida se transcorreu nesse intervalo debaixo da chuva ou em dias de sol mas, na verdade, ao pé da letra, não se saiu muito do lugar de onde se começou a andar, em círculos concêntricos de perplexidade. A literatura é cíclica e ainda hoje nos convida a seguir as mesmas trilhas com as questões que nos motivaram. O negócio é seguir caminhando, andarilho sem causa, à beira do caminho, no meio dos atalhos de pedra e de sonhos. 

 

EXPURGO

hoje eu mordi

um chumaço de

papel higiênico

para estancar

(ou tentar conter)

o sangramento

da língua dilacerada:

como um cadáver

antecipado que devora

o seu próprio sudário.


Onde comprar:

No site da Editora Penalux (penalux@editorapenalux.com.br) ou diretamente com o autor (milton.rezende@yahoo.com.br).


Sobre o autor: 

Milton Rezende nasceu em Ervália (MG) em 1962. Viveu em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF. Funcionário público aposentado, atualmente reside em Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste em doze livros publicados. Possui colaborações em diversos blogs, revistas, jornais e sites de literatura. Site: www.miltoncarlosrezende.com.br


*** ***

Caro leitor, será sorteado 1 (um) exemplar do livro Um andarilho dentro de casa, de Milton Rezende. Para participar do sorteio:

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28 de jul. de 2020

Resultado do sorteio de 'Ferramentas dos deuses', de Fábio Bahia

A vencedora do sorteio do livro Ferramentas dos deuses (Fábio Bahia) é a Jacqueline. Parabéns! 


A contemplada terá sete (7) dias para entrar em contato com os editores d’O Bule pelo e-mail coisasprobule@gmail.com a fim de enviar seu endereço. Ademais, um contato será travado com a ganhadora através do e-mail. Após esse prazo, caso não tenha entrado em contato com O Bule e enviado o seu endereço, outro sorteio será feito.

27 de jul. de 2020

A arte de escrever narrativas #2

Módulo 2: Não subestime a importância da originalidade

 

Por Rogers Silva


Pense em cinco autores originais... Guimarães Rosa? Sim. Machado de Assis? Também. Edgar Allan Poe? Com certeza. José Saramago. Claro! Clarice Lispector? Siim. Cinco autores diferentes de locais e épocas diferentes: três brasileiros (um deles de meados do século XIX); um estadunidense também do meio do século XIX; um português, cuja carreira decolou a partir da década de 1980, século XX. Todos eles praticam o mesmo tipo de originalidade? De forma alguma. Cada um foi original à sua maneira em seu tempo. Tomemos dois deles como exemplos.

 

Machado de Assis é um autor brasileiro do século XIX, e isso diz bastante sobre a sua originalidade. Quais autores eram contemporâneos de Machado? José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Aluísio de Azevedo, Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, entre outros. Todos são, sem exceção, grandes escritores. Nenhum é, porém, tão original quanto Machado (Álvares de Azevedo, na minha opinião, possui uma verve extremamente original que, talvez, não tenha tido tempo de explorar, por ter morrido muito jovem).

 

Quais desses autores são tão ironicamente sutis como Machado? Qual deles escreveu narrativas tão fragmentárias, com capítulos curtíssimos, em uma época de grandes calhamaços, sobretudo entre os estrangeiros, com capítulos bem longos? Qual desses autores foi tão mordaz com seus próprios personagens? Que autor, além de Machado, dialogava e ironizava seus leitores e leitoras? Que autor retratou tão bem sua localidade (a capital do Brasil à época), seu povo, hábitos e costumes sem, no entanto, parecer um retratista neutro? Sem desmerecer a grandeza dos outros autores citados, mas nenhum, caro leitor – nenhum deles foi tão original quanto Machado. O estilo de Machado é inconfundível. Os estilos de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, por exemplo, às vezes se confundem. Ou seja, se o leitor tiver acesso a um poema de cada um, se não for um especialista, raramente conseguirá identificá-lo ao seu autor.

 

Ah, mas Machado de Assis viveu numa época e num país medíocres, no seio de uma sociedade intelectualmente medíocre – diria um leitor mais radical. Há controvérsias, embora exista quem assim pense. Como outro exemplo, peguemos José Saramago, um escritor nascido em 1922, em Portugal, e morto em 2010. Quanta literatura não foi criada antes dele! Quantos gênios não surgiram antes dele (inclusive em Portugal, país com uma bagagem histórica e cultural muito maior do que o Brasil)! Mas – pasmem – Saramago conseguiu, mesmo assim, ser um escritor originalíssimo. Dois exemplos de seu estilo e de sua originalidade:


a)     Escrevia quase todas as suas obras em forma de alegorias e parábolas. Ou seja, ele partia de uma premissa às vezes comum (de repente, quase todos os habitantes de uma cidade ficam cegos) e, por meio de uma trama bem construída, ao final transmitia uma mensagem indireta (só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são). Saramago, em suas obras, criava analogias a fim de representar pensamentos e ideias de forma figurada. Uma coisa sempre queria dizer muito mais do que ela aparentemente dizia.


b)    Sua linguagem: Saramago, em geral, escrevia frases e períodos longos, com bastante léxico da linguagem oral e uma pontuação pouco convencional. Evitava os pontos finais e os substituía por vírgulas. Aboliu o travessão (os diálogos ficam inseridos entre a narração) e os pontos de exclamação e interrogação (que podem ser percebidos pelo próprio contexto ou pela indicação do narrador como, por exemplo, em “João perguntou”). A letra inicial maiúscula da palavra indica a fala de um personagem, e não o travessão ou aspas, como é mais comum.

Outros recursos e características que corroboram seu estilo original são: aproveitamento de provérbios populares; ironia; sarcasmo; trocadilhos; arcaísmos, etc., o que – por si só – não seriam suficientes para fazer dele um autor diferente de qualquer outro, uma vez que vários outros, antes, já haviam utilizado esses recursos, em conjunto ou separadamente (vide Voltaire, ainda no século XVIII).

 

Ah, mas originalidade é algo inato: ou se é ou não se é, afirmaria algum leitor. Há controvérsias. Leia o que Edgar Allan Poe escreveu em seu A filosofia da composição: “A verdade é que a originalidade (a não ser em espíritos de força muito comum) de modo algum é uma questão, como muitos supõem, de impulso ou de intuição. Para ser encontrada, ela, em geral tem de ser procurada trabalhosamente, e embora seja um mérito positivo da mais alta classe, seu alcance requer menos invenção que negação.” Concordo com Poe. Saramago não encontrou seu estilo em seu primeiro livro (que, aliás, ele renegou) nem, muito menos, no segundo. Ele o obteve com muitos estudos, leituras, experiências e escolhas. Optou por uma linguagem fluída, por exemplo, e para isso abriu mão de vários recursos comumente utilizados por outros escritores (como o travessão, o ponto de interrogação, o ponto de exclamação, os dois pontos, o ponto-e-vírgula, etc.).

 

Aqui chegamos à questão a que toda discussão sobre literatura chega: literatura é a arte de usar as palavras. Sendo assim, os recursos linguísticos são de fundamental importância para a construção da originalidade. Eis um exemplo:

Fonte: p. 23 do livro Manicômio/Rogers Silva, Uberlândia: Composer, 2012.


Quero destacar, neste trecho do conto Clarissa, de minha autoria, dois pontos:

1) a escolha por colocar as falas em itálico (e não da forma tradicional, que é com travessão e em outra linha) – Mas que presentes? Em todo o conto (de umas três laudas, aliás) os diálogos surgem assim: em itálico e no meio da narração. É uma forma de dar mais fluidez à história.

2) a escolha por utilizar uma linguagem não só coloquial, como “gramatical e ortograficamente errada” (de acordo com a língua culta), uma vez que se trata de uma criança contando a sua história e da sua amiga Clarissa: “trabaiá”, “estudá”, “braba”, “facin”, “os dia”, “árvre”, etc. Uma criança não conversa como um adulto. Uma criança do interior não conversa como uma criança dos grandes centros urbanos. Uma criança do interior de Minas da década de 1990 não conversa como uma criança do interior de Minas de 2020.


Percebe, leitor, que às vezes a própria história a ser contada exige uma linguagem assim e não assada? Ah, mas em literatura pode usar uma linguagem como essa do conto Clarissa, “toda meia estranha”? Claro! A literatura é o espaço supremo da potencialidade da linguagem. Tudo é possível se o objetivo do autor, com aquele texto, assim o exigir. Quer outro exemplo?


“Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?”

Fonte: p. 159 do livro Todos os contos/Clarice Lispector, Rio de Janeiro: Rocco, 2016.


Um leitor mais gramaticista tenderia a “consertar” o trecho do conto A imitação da rosa, de Clarice Lispector:


“Antes que Armando voltasse do trabalho, a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia. Então, sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?”


Gramaticalmente mais aceito, literariamente mais pobre. Como assim? Releia o trecho original, escrito por Clarice Lispector. Que impressão passa? Afobação, pressa, ansiedade. Releia o trecho “revisado”. Passa a mesma impressão? Não. Porque a pontuação comprometeu o efeito desejado[1]. Ou seja, para o objetivo de passar a impressão de uma personagem afobada, ansiosa pela chegada do marido, a falta da pontuação tradicional (com a ajuda do polissíndeto[2]) surtiu muito mais efeito.


Agora, tendo em vista ainda a mesma autora, multiplique a utilização desses e de outros recursos por centenas, milhares de vezes. Qual o resultado? O estilo inconfundível de Clarice. E o estilo (aquilo que diferencia um de outro autor) é o que faz um escritor original. Ou não.



[1] Aqui já entramos no módulo 3 da nossa web-oficina...

[2] O polissíndeto é uma figura de linguagem que se caracteriza pela repetição de um determinado conectivo entre palavras, expressões ou mesmo orações. Em geral, o conectivo mais utilizado nesse tipo de figura é o “e”.


* Confira, no próximo dia 15 de agosto, o módulo 3 desta web-oficina.

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26 de jul. de 2020

Antítese

Por Glenio Cabral

Antítese: figura de linguagem que consiste na exposição de ideias opostas. Exemplos: Já estou cheio de me sentir vazio. Vi a cara da morte e me senti vivo.

Por isso, de todas as figuras de linguagem a antítese é a que mais se confunde com o ser humano. Afinal, todo mundo carrega um oposto dentro de si. Tenho um amigo, por exemplo, que todos os dias acorda feliz da vida. Nos turnos da manhã seu humor é implacável, mas à tarde uma carranca mascara o seu rosto. Não sei o que acontece, só sei que é assim. Pela manhã ele é o cara mais legal desse mundo, tapinhas nas costas e tudo mais, mas à tarde se mostra recluso e mal humorado.

Alguns diriam que meu amigo sofre de transtorno bipolar, patologia que causa terríveis variações de humor. Pois eu digo que o que ele tem é excesso de antítese no sangue, isso sim.

Aliás, o poeta americano Walt Withman foi o primeiro a assumir ser portador dessa patologia gramatical: “Eu me contradigo? Pois bem, sou muitos!”

Pois é, somos muitos. E porque somos muitos, somos felizes e tristes, malvados e bonzinhos, otimistas e trágicos, heróis e vilões, fracos e fortes, inteligentes e burros, e tudo isso ao mesmo tempo. Isso explica porque ninguém é 100% alguma coisa. Somos seres divididos, binários, ternários, quaternários, e a antítese em nós é que faz com que sejamos, no máximo, parcialmente alguma coisa. Nunca totalmente. 


Mas se a antítese é sempre o lado contrário de tudo, teria ela uma oposta para si mesma? O que seria o contrário dessa figura de linguagem? Em outras palavras, qual seria a antítese da própria antítese?

Eu diria que é a uniformidade. Não a uniformidade positiva, aquela que agrega e fortalece as pessoas, mas a uniformidade que traz o marasmo, o paradeiro, a ausência total de conflitos e mudanças. É o comodismo disfarçado de calmaria, a preguiça travestida de satisfação, o medo que finge ser sossego e serenidade. Por isso precisamos tanto da antítese. São suas contradições que nos deixam em crise, e são as crises que nos forçam a sair do lugar, a mudar a forma de pensar, agir, interpretar a vida, a deixar a zona de conforto rumo a mudanças necessárias.   

Que venham os opostos, então! Que venham as crises! E da próxima vez que me perguntarem o que é frio e calor, eu direi que é crescimento. Direi que é crise. Direi que é antítese.   

23 de jul. de 2020

Como gato que fica sem dono

Por Cláudio B. Carlos

Não sabia da morte nem de seus significados. Até gostava da palavra e encantava-me a triste elegância ou a elegante tristeza das mulheres de negro, chorosas nos velórios. De certo, só que era alguma coisa de muito grave. Mas era tão distante de mim, que correndo pelos campos com os guaipecas, ou comendo furtivas guabirobas entre um brincar e outro, era impossível imaginá-la ou sabê-la. Chegou-me silente como um passar de flanela em tampo de vidro, e com ares de sorro levou-me o amigo deitado em palavra de cerejeira. Também gostava desta: caixão. Talvez por não saber que nela pudesse caber o gigante que carregou-me às costas um dia. Ali, no centro da sala, como num passe de mágica, em frente ao féretro me branquearam os cabelos, como se tivesse dormido à geada. Petrifiquei-me por dentro e entendi que assim como a saudade, que também é palavra bonita, a morte, em um dos significados que traz como disfarce que escolhe à toa em um leque de opções, é guri que fica sem pai, como gato sem dono, assim, sem pernas pra se enroscar. 


Cláudio B. Carlos é poeta e contista. Nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé-RS. Tem diversos livros publicados. Coordena o Grupo de Escritores O Bodoque. Atua no mercado literário como editor, preparador e revisor de textos. Vive em Cachoeira do Sul-RS. É editor da Editora Coralina (www.editoracoralina.com.br) e da Saraquá Edições (www.saraquaedicoes.com). Apresenta o podcast Balaio de Letras (www.anchor.fm/claudiobcarlos).

22 de jul. de 2020

Entre gestos e pequenos absurdos

Por Milton Rezende


Interstícios da vida

Deixar de ser cúmplice da vida

de outros que em mim personificam

a parcela da culpa que subtraio

do erro coletivo e meu, individualizado.

 

Obscurecer o reflexo do sofrimento

de homens que não vejo em presença,

mas que em espécie me julgam digno

de vê-los (como testemunha da morte

sem remissão de si) em que se abrigam.

 

A desvisão do homem como forma de se

desviar do mundo, numa covardia anônima

de se cegar para o que há de recíproco

no duplo ato de existir e ser responsável

por esta morte latente, usada como escudo.

 

Mantendo a essência que não explico

mas sei que existe onde deixo

de existir para ser parceiro da vida,

criação simbólica do gesto de um deus

não conclusivo, que se deu por satisfeito

em seu cansaço.

  

Na prisão

Estou sufocado entre homens

e as circunstâncias indicam

que eles também estão presos

por um fio de desespero

à necessidade de convívio.

 

Estou preso a gestos e sorrisos

alheios que nada me dizem,

mas preciso deles e os procuro

para sobreviver a esse tédio

que me aniquila em mim mesmo.

 

Estou inerte como um poste elétrico

a quem se atribui energia a energia

que se transmite por uma fonte exterior.

E que eu, portanto, não tenho energia

e minha existência é nula se isolada

do processo humano que me condiciona à vida.

 

Estou cansado destas noites

sem memória e sem projetos,

a não ser a própria projeção

que delas fazemos antes que venham

com sua carga de sonhos recusados.

 

Estou farto desta minha vida

tão inutilmente subdividida

entre pequenos absurdos e gestos

que sepultam de mim justamente

aquilo que era eu para além

do fracasso a que me sei condenado. 


Do livro Areia (À fragmentação da pedra) (João Scortecci Editora, 1989). Pedidos de exemplares pelo e-mail coisasprobule@gmail.com. Preço: R$ 20,00 + R$ 10,00 frete = R$ 30,00.

21 de jul. de 2020

Tempo de cão (capítulo 2)

Por Marcia Barbieri

Livro Um – Um homem sem sombra

 [Sentei no alto da montanha, peguei o binóculos do meu falecido avô e observei a trágica comédia da vida] 

Cutuquei. Estava viva.

Cutuquei. Estava morta.

Um zum zum zum de moscas.

Uma falação de fantasmas.

Cheguei antes de amanhecer em Sombrio. Eu vim a pedido do meu pai e pela boca insossa de minha mãe. Minha mãe pouco falava, no entanto, seu corpo se estendia em um falatório sem fim. Da sua língua comprida em riste se fez a ausência do meu verbo. Da sua vértebra curvada se fez meu andar altivo. Eu era um figo amadurecido que já não se sustentava no pé. Ela cutucava o próprio umbigo e depois levava o dedo à boca. Observava a sua saliva absorto. Ela me devolvia o olhar com a baba branca já escorrendo pelo peito. Era um gesto desesperado, eu sei. Talvez procurasse a origem da desgraça. Sem se dar conta que a maternidade era a raiz da sua desventura. De repente percebia que o útero era uma construção anatômica que se assemelhava a um patíbulo. Talvez fosse uma questão de tempo até ver os condenados pendurados pela traqueia. Qual de nós tomaria partido e impediria o enforcamento¿ Qual monstro poderia duvidar da crueldade de sua própria cria¿ O monstro nutre uma falsa esperança de sacralidade. No entanto, não podemos fechar os olhos diante do assombro. A maldade pode ser adivinhada no gesto primeiro, no choro inaugural ou numa inocente mordida nos seios. O canibalismo começa com o filete de sangue misturado ao leite materno. Eu não estava mais dentro dela, às vezes, ela se esquecia e me empurrava em direção a sua barriga com o intuito que eu nunca partisse ou que voltasse em breve. Prepotência. Não estava preparada para o abandono. Desde criança ouvira que os filhos traziam alento e sossegavam apenas debaixo das asas da mãe. Não sabia que alguns filhos eram capazes de amputar os voos de sua genitora. Aquela velha história mentirosa do filho pródigo. Sentava de costas para a janela, uma evidente negação da extensão fora do seu corpo, colocava as mãos sobre meus olhos, numa espécie de venda artificial, não me explicara nada sobre a diáspora, aprendi num livro de geografia. O mundo é só uma placenta mais espessa e elástica, a qual não temos que atravessar, meu filho, não vale a pena se cansar, veja, suas pernas são tão fininhas! Venha, sente no meu colo. Daqui a pouco começa o temporal, escuta escuta os trovões se aproximam. Miocárdio, também aprendera essa palavra e não conseguia parar de soletrar mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio. Ventrículo direito ventrículo esquerdo veia cava aorta. Por acaso todos os mamíferos amam da mesma forma¿ Porque eu amava de uma forma frouxa, como se tivesse sido chocado e não parido. As paisagens de dentro eram foscas, enxergava cor quando caminhava fora do quadrilátero que me fora destinado. Mãe não conseguia compreender minha deformidade congênita, não aceitava que a minha mente era dada a espetáculos puramente abstratos. Embora tenha sido, como muitos, gerado dentro da casca, tornei-me um ser avulso. Você já viu um rato perdendo a vida ao tentar devorar o queijo da armadilha¿ Ela parecia um rato prestes a perder. Porém, o seu declínio não me provocava pena, um incômodo talvez. A tragédia visitava pouco a pouco todos os seres, era preciso se habituar. Um cômodo, dois cômodos, três cômodos, a casa não pararia o seu crescimento, quando mais eu me movimentava, maior ela se tornava. Meu lar não podia mais ser mapeado.