14 de jun. de 2021

A voz do silêncio e outros poemas


Por Milton Rezende

 

A sentinela que foge

Paredes brancas

de um quarto hipotético

onde estou instalado.

 

Vejo através de sua indiferença

que não estou protegido de nada.

É sempre esse medo e essa ansiedade

a roubar-me a calma que não tenho.

 

Apenas alguns centímetros de argamassa

a me separar da vida que corre lá fora

com seus ruídos abafados e nítidos,

quando a eles se presta uma atenção nervosa.

 

Sinto que uma espécie de catástrofe se tece

no silêncio e vai acontecer a qualquer momento.

Devo portanto ficar acordado e atento

para não ser pego de surpresa e em pânico.

 

Mas uma tranquilidade não se conquista

através de meios tão precários de defesa.

Preciso me dispor a sair e enfrentar o mundo

com seu exército de homens rudes à espreita.

 

Então saio com o desconforto de não fazer parte,

com uma fragilidade revestida só pelo escudo de si própria,

com um receio de ser ridículo só por me dispor a andar

e com a certeza de que não posso ser livre aqui

ou em qualquer outra parte onde nunca estive.


A voz do silêncio

Estou acordado

e não sonho,

mas a realidade

antecipada

me envolve.

 

A barba se me

desprende do rosto

fio-a-fio num frio

maior onde estou

me enregelando.

 

Tudo se dissolve

na aparência de ossos

de que fui formado,

e que é minha forma

mais resistente no mundo.

 

Mas a terra

(com seus vermes)

decompõe ao seu contato

todo o meu aprendizado

doloroso da vida.

 

E uma cova me absorvendo

transforma tudo o que fui

num triste resumo de pó

que um dia se chamou homem.

 

E que lhe deram um nome

(que tive), mas que a terra

aterra no tempo o traço

nominal dessa efemeridade.

 

Atômico

Nossos filhos nascem cegos

pela poeira do nosso tempo.

Nós ainda enxergamos

porque já entendemos o mundo

a partir da poeira que há nele,

e que não nos incomoda muito.


Do livro Areia (Á Fragmentação da Pedra) (João Scortecci Editora, 1989). Pedidos de exemplares pelo e-mail coisasprobule@gmail.com. Preço R$ 20,00 + R$ 10,00 frete = R$ 30,00

11 de jun. de 2021

O casamento

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Como havia chegado antes do horário previsto para a cerimônia, deixei-me estar ali, à porta da chácara que fora estilizada para eventos, junto com o pai da noiva, que, radiante, ia recebendo os convidados. O bom homem não se continha de felicidade ao ver mais uma de suas filhas principiar nova etapa de vida e ia também apresentando-me. E assim conheci, e apertei mãos, e ganhei beijinhos e abraços inúmeras vezes. Diante de mim desfilou toda uma galeria de personagens. Havia desde o pequenino pajem, sobrinho da noiva, até um tio-avô. Crianças, adolescentes, casais, colegas de trabalho, tios, primas, amigos de amigos de fulano e fulana, de todas as cores, alturas e idades. Um verdadeiro filme ia se desenrolando dentro de mim com aquela pequena amostra dos mais variados tipos humanos. 

Era um sábado chuvoso, e como a cerimônia seria realizada ao ar livre, em um gramado muito florido, havia o temor dos transtornos do tempo. Os minutos iam se sucedendo sem que a noiva desse o ar da graça. Em dado momento, naquela balbúrdia que os convidados fazem questão absoluta de fazer, surge do nada um senhor já bastante idoso dizendo-se pai do noivo. Pai adotivo do noivo, afirmou ele ao tempo em que me apertava a mão. Uma voz feminina pouco mais atrás de mim perguntou a outrem: Mas e o pai do noivo? O verdadeiro morreu? Outra lhe responde: Não, menina, não é morto, não. Dizem que... E não pude mais ouvir porque uma terceira voz, também feminina, as interrompeu quase a gritar: Amélia, como você está linda! Está um arraso! Fashion! Isso durou segundos, pois logo outra criatura, creio que do cerimonial, começou a juntar casais e mais casais a formar uma espécie de fila de padrinhos. Minutos e minutos intermináveis se passaram, nos quais a gravata torturava-me ao pescoço. O terno, algo que não estou habituado a usar, me oprimia os ombros, e, para piorar a situação, o noivo em pessoa aproximou-se de mim e abraçou-me tão forte que pensei que me partiria os ossos. Disse-me: Estou muito feliz que tenhas vindo. Sabe? Chegar até aqui não foi fácil, uma luta terrível. Respondi-lhe: Pois bem, aí tens a merecida vitória que é o dia de hoje. Sorrimos afetuosamente, mas fomos interrompidos pela mestra de cerimônias, ou seja lá qual nome tenha, que implantou um raminho de flores no bolso do meu paletó, ao tempo em que ia juntando os casais de padrinhos — atualmente, são muitas as testemunhas — e eu no meio daquilo, sem par, sem ninguém, até que me chamaram pelo nome, e lá me fui ao ponto em que estavam três moças, aparentemente sem par — ou porque o gênero masculino está escasso, ou porque o número de mulheres supera o de homens, não sei. O certo é que me foi destinada como par alguém que me disse ter trabalhado com a noiva em tal lugar assim assim, e que eram muito amigas etc. Isso dito com a fila em movimento, que se postaria em determinado ponto até que se desse início à cerimônia. Na rabeira da fila ficaram de braços dados as outras duas moças. Todos ali eram amigos entre si, e eu pensava cá com meus botões se poderia perguntar a minha dama de companhia o que ela sabia sobre o pai do noivo, o verdadeiro. A moça à nossa frente começou um diálogo misterioso entremeado de sinais e risinhos com as duas moças do fundo. A que estava ao meu lado participava também, e a gravata a me apertar o pescoço, as orelhas a queimar, meu Deus! Que aflição! E nada da noiva. Até acontecer um fato insólito. A moça que estava com o braço metido no meu, em determinado momento, disse para a organizadora do evento: olhe, vou trocar de lugar com minha amiga aqui de trás e vou com a outra amiga. Assim a vida às vezes nos prega peças, inverte papéis no último instante, embaralha os dados do acaso. Seja como for, depois de tantos e tantos anos vividos não consigo entender as mulheres. Francamente. Ela de modo muito delicado retirou o braço do meu: Minha amiga aqui vai com você. E foi então que outro braço meteu-se no meu, e vi uma menina linda, bem ao meu lado, e que sorria e lançava olhares insistentes para os fios grisalhos de meus cabelos. A gravata se me afigurava como a corda de um enforcado. Começou a tocar a música de entrada dos padrinhos, seguidos pelo noivo e respectiva mãe, depois entrou o pai adotivo do noivo com a mãe da noiva, e todos a esperar. Nesse ínterim, pouco me foi possível falar com Mara — este o nome do novo par —, a não ser da minha preocupação com o horário do retorno. Estava em outro estado, a cinco horas de viagem, e se aproximava a hora marcada com o motorista que me levaria de volta até a rodoviária. Quando sentamos em cadeiras próximas ao altar, pedi a Mara que, no momento oportuno, explicasse à noiva minha ausência na festa. Por fim surge a noiva, caminhando com o pai até o altar. O noivo lhe estende a mão, e, nesse exato momento, ante um olhar ao relógio, aflijo-me mais ainda: era a exata hora marcada com o motorista. Era preciso uma atitude. Como retirar-me sem ser notado? A isso poderia contornar de modo satisfatório pois os olhares estavam voltados para os noivos. Mas como abandonar uma companhia tão linda e de modo tão repentino? Retirei com cuidado o raminho de flores de meu paletó e disse: Para você, obrigado pela companhia. Ela, depois de olhar muito séria para o raminho disse: Obrigado, boa viagem.

*

Sentado no escuro do ônibus, folguei a gravata e recordei-me de tudo e de tanto que havia se passado há pouco e ao longo do tempo. Estive a pensar em todas aquelas pessoas que certamente fariam parte de um passado que ia se esfumaçar no tempo de minha memória. Alguns, sim; outros, não. Só o tempo, senhor dos destinos, dirá. Fiquei a pensar no rumo que aguarda os noivos, a torcer que se entendam, que se compreendam e, sobretudo, se amem da maneira mais ampla possível, transformando a atração e o desejo da juventude em uma grande, madura e duradoura amizade. Difícil, bem sei, nesse tempo que atravessamos, em que tudo anda conspirando contra uniões. A tônica tem sido a desunião, a dissensão, a dissolução. Inopinadamente recordei-me da linda menina que estivera ao meu lado por poucos minutos a me fazer companhia, que mal sei quem é. Revi os pais da noiva de pé naquele altar e imaginei quantas e quantas dificuldades e tropeços passaram em suas escolhas e decisões até chegarem ali, a empurrar a roda furiosa da vida no sentido da continuidade da espécie, afinal, é também para isso que estamos aqui. Recordei-me afinal do pai do noivo, o tal ausente, o que será que dizem dele? Que destino terá tomado dentro da cabeça das pessoas? Quais estradas espinhosas terá ele seguido?

*

Na rodoviária, estou exausto depois de mais de dez horas sentado entre idas e vindas. Meia-noite. Um enigmático dia se anuncia. Ajusto o maldito paletó e lembro-me mais uma vez de Mara, desejando muito que ela também um dia se case e seja feliz para sempre como nos contos de fadas, que nada mais são que belas metáforas (ou sonhos vãos, que seja, mas ainda assim sonhos) de nosso eterno anseio. É quase uma da manhã quando entro finalmente em casa. Jogo o paletó sobre o sofá e, antes de estirar-me na cama, olho na estante dos livros um porta-retratos amarelecido pelo tempo. Nele a fotografia do homem que se casou hoje quando tinha quatro anos. Penso comigo: os olhos dele me pareceram um pouco mais escuros que no dia em que ele saiu da sala de parto.

9 de jun. de 2021

Poemas de Fernando Ignez


Mais do mesmo 

O que há de novo

Que mereça ser dito?

O que há de novo?

Qualquer coisa

Se tiver verve

Até o velho serve

 

Coloco o que vale

Numa casca de noz

Lembranças sonhos e medos

E dispenso todo o resto

Ralo abaixo

Bueiro adentro

Sem roupa na chuva

 

Que venha o novo

Mesmo que disfarçado de velho

Que venha o novo

Com areia entre os dedos

 

Só a novidade desacelera a roda do tempo

E eu não me canso de procurá-la

Entre peles macias e cabelos brilhantes

Me despi mais uma vez

Acontece que desta vez eu travei

 

Na hora de seguir

Não soube mais

Pra onde ir

 

E continuo parado

O velho não me deixa sair

O novo não vem

E eu, travado, não vou

Fico aqui

O novo está dentro de mim

  

Explosão

Não se aproxime demais

Pois há risco de explosão

Me deixe transbordar aos poucos

Eu sei bem o que guardo

 

Peço atenção ao tato

Olhe de longe

Pare e identifique-se

 

Se decidir entrar

Que entre devagar

Leia os avisos

Em sinal de respeito

 

Não invada

Há um limite claro na entrada

Não ignore as placas

Penduradas no meu peito

 

Se for andar comigo

Acompanhe os passos lentos

 

O caminho pode ser errático

Sem sentido sem destino

Esteja disposto a vagar por um tempo

 

Se me vir recuar

Fique atento

Num piscar de olhos

Eu desapareço

 

De corpo presente permaneço

Mas já bem longe em pensamento

  

Isabel 

Quero amar uma Isabel

Que é nome forte e bonito

Assim como as mulheres

Que carregam este nome

 Que rima com mel

Sem deixar de flertar com fel

 

Quero dizer Isabel vem cá

E ela não vir

Porque ela só vem quando ela quer

Mas quando ela vem

Ah

Ela vem

Ela vem com seu cabelo de Isabel

Vem e me hipnotiza

Isabel vem e fala as coisas

Que precisam ser ditas

Com o charme que só Isabel tem

 

Isabel sabe amar

Isabel já amou muito

Conhece as dores de amor

E deixa você lidar com as suas dores sozinho

Isabel espanta as dores alheias com seus cabelos escuros

Passa por cima delas com suas sandálias de Isabel

Ela encara as dores com seus olhos fortes

E as dores pequenas fogem correndo

Sabendo que não tem chance de magoar Isabel

 

Mas Isabel sente

E Isabel chora as dores do mundo

Quietinha, pra ninguém ver

 

Cadê você, Isabel?

Vem logo

Com sua seriedade profunda

Me ensinar a ver os filmes de arte

Que eu nunca quis ver sem você

 

Vem, Isabel

Que a fumaça do seu chá vai curar a minha rinite

Meus olhos querem se perder na sua pele

E eu quero ficar me perguntando

No que pensas, Isabel

Quando tens o olhar perdido além do portão

 

Quando eu já estiver ficando aflito

Imaginando as besteiras da falta de amor

Você acorda do seu transe profundo

Da sua melancolia intrínseca

E coloca suas pernas sobre as minhas

Me dá um sorriso e me acalma o coração

 

Isabel que sabe de tudo

E faz de conta que não

Isabel que está sempre certa

E pra quem duvida ela explica

Com poucas palavras e uma interrogação

Isabel que pula as horas chatas da vida

Rindo de meia na frente da televisão

Isabel que enfeitiçou Bandeira

Desfilou na frente do poeta

Evaporou e o deixou sozinho

Com a caneta e a imaginação

 

Isabel que entende de música

Que gosta de se arrumar pra sair e dançar baião

Que é música brasileira e faceira

Que ela dança de pés no chão

Mulher que ignora os pretendentes

Quando eles ultrapassam os dedos das mãos

 

Já consigo ver Isabel colocando os cabelos pra cima

Pedindo pra eu ir buscar o pão

Isabel manda e eu vou

Vou à padaria como quem vai a uma missão

De agradar a minha menina

Que ainda não veio

Que está espalhada pela cidade

Esperando alguém aparecer no meio da multidão

  

Fernando Ignez, 39 anos. Paulistano perdido em São Paulo. Graduado em Audiovisual. Tradutor e poeta.

4 de jun. de 2021

Meus olhos verdes (folhetim romântico) – Final

Por Rogers Silva

38 –

Jéssica estava no hospital. Marina não dera detalhes acerca do assunto, mas dissera que a ex-namorada queria vê-lo hoje ainda. Ainda ofegante, Geisel tentava recompor o corpo, que se metera numa estúpida paralisação, e reordenar a respiração. Arrumou-se rápido e se direcionou ao endereço indicado por Marina. Ainda com os mesmos sentimentos pregressos, ele buscava explicações para o acontecido. Chegando ao hospital soube (Marina estava na porta) que a ex-namorada havia sido estuprada no dia anterior e, antes, já tentara entrar em contato com ele, mas não conseguira. Atordoado, quis saber mais detalhes, contudo Marina preferiu deixar Jéssica detalhar (já que estava em condições, pelo menos de conversar. “Afinal, felizmente – como dissera a colega de sala de Geisel e amante (namorada?) de Jéssica – não tinha sido tão grave, fisicamente falando”). No corredor da enfermaria o rapaz encontrou os pais da ex-namorada. Olhou-os e cumprimentou-os constrangido. Vencendo o constrangimento, perguntou como estava, no momento, Jéssica. O pai falou que estava melhor, mas ainda muito perturbada. A mãe apenas chorou, abraçada ao homem. Este completou que Geisel podia entrar, pois a filha queria vê-lo. Embaraçado diante da situação quis obedecer, de imediato, o decaído pai de Jéssica. Mas preferiu esperar e, talvez com a espera, se preparar – se recompor.

39 –

“Oi... – disse ela, deitada na cama do quarto branco da enfermaria.” “Oi – retornou Geisel constrangido.” Jéssica chorava brandamente. Não era de extravagâncias. Nem no seu chorar. Chamou-o para perto, não tivesse medo. Não era medo – quis falar. – Era... Não sabia o que exatamente sentia naquele quarto branco, a ex-namorada deitada naquela cama branca. Era estranho estar ali depois de tudo que sofrera, de tantas respostas buscadas sozinho, ora no quarto pequeno de sua casa, ora na rua, andando como um zumbi, ou em qualquer outro lugar em que estivesse. Era muito desconfortável estar ali perto dela se o que mais quisera, até então, foi que pelo menos telefonasse (Mas eu... – justificaria ela) pedindo perdão por tudo que fizera, pela traição, pela dor que a traição lhe causara. Enquanto ele sofria, Jéssica deve que aproveitava com a amiga (amante?). Isso era o que mais doía: a dor que não demonstrava, a dor que ninguém vira nela, nem colegas em comum, que a viam sempre, nem Andressa, que um dia a vira passeando com Marina no shopping. Mas, no fundo, ele achava interessante essa alternância de sofrimento – antes ele, agora ela. Porém, Geisel em hora alguma fora consolado por ela (agente da dor), e agora a moça buscava sua ajuda, mandara chamá-lo. “Não percebe que é muito estranho estar aqui perto de você depois de tudo? – ele disse serenamente. É muito estranho...” A jovem esboçou palavras, mas ele: “Hoje – continuou – quando soube o que tinha acontecido, fiquei desesperado. Só melhorei quando soube que não era tão grave assim. Ainda bem... Você tá bem?... – um silêncio forçado. – Como... Quem foi? – perguntou, esperando com curiosidade (mas não expressa no semblante) a resposta.” Jéssica começou, agora explicitamente, a chorar. Passava as mãos nos olhos tentando enxugá-los. Geisel olhava-a sério. Paciente. Ela não queria falar sobre o assunto. No momento, não. Ele ansiava pela resposta. Apenas queria ouvir a confirmação. E continuava ali, sério, com uma raiva disfarçada. Constrangido. Mas atencioso. Era mesmo tão difícil assim falar sobre o assunto? Pensava em perguntar pelos motivos que a fizeram traí-lo, mas preferiu não dar margem à questão e sofrer mais. Após vinte minutos de conversa, ele quis sair daquele quarto, ir embora, pois não queria dar vazão para que as intimidades surgissem e penetrassem na maltratada relação dos dois. “Eu lhe chamei aqui para pedir-lhe perdão – disse Jéssica, estendendo a mão direita.” “Depois conversamos sobre isso – pegando a mão dela. – Você tem coisa mais importante pra se preocupar neste momento. Um dia, quem sabe... – não completou.” “Espero que um dia me perdoe... Apesar de...” “Não se preocupe – interrompeu, seco.” Geisel soltou sua mão, afastou-se um pouco, virou-se e se preparava para sair quando: “Eu ainda te amo – disse a moça.” Ele estava de lado. Parou. Virou o rosto, ficou olhando-a, o semblante sério, e pensou: Não acredito em você. Nunca mais acreditarei em você – só pensou. Nada disse. – Por mais que seja difícil, nunca mais acreditarei em você e em mais ninguém... – continuou pensando (mas nada disse), ainda a mirando. Jéssica também o olhava, meio meiga, meio tímida, meio séria, meio tudo. Talvez esperasse algo vindo do rapaz... (a única expressão que poderia vir dele era um sorriso irônico, julgando a situação em que se encontrava. Mas não sorriu. Segurou-se). “Até mais... – disse Geisel, passou pela porta e, de costas, a trouxe, fechando-a.”

40 –

Hoje, véspera de Natal, nove dias após o mencionado antes, Geisel está do mesmo jeito que o encontramos no começo desta narrativa, refletindo, sentado numa cadeira, prostrado sobre uma mesa pequena, se perguntando dos porquês de Jéssica demonstrar tanto amor por ele. Perguntando-se do motivo de existir dor se tem apenas vinte e um anos. Perguntando-se... Assim o encontramos neste exato momento. Depois de sair do hospital, ele veio embora intencionado em mudar de vida, esquecer o passado, bloquear o telefone (o que de fato fez) para não ser procurado por pessoas com quem não estava a fim de conversar. Procurou não ficar em casa (e pouco ficou. Vinha, quase sempre, somente para dormir), não conversar com ninguém acerca do assunto passado (Jéssica), fazer de tudo para esquecê-la. É muito cedo para dizer se conseguiu, se os artifícios adiantaram. Deixemos o tempo passar... (Enquanto isso, riamos dele. Que seja um riso irônico ou sem graça. Mas riamos).

41 –

Há pouco ele tentou (em vão) encontrar palavras para a feitura de um poema. Forçou bastante, mas não as encontrou. “Não, eu não sou poeta”. À beira da pequena mesa em que estava prostrado, de súbito, sobreveio-lhe uma grande vontade de gritar. Não gritou. Levantou-se. Foi para o quarto. Ao olhar por alguns minutos ao espelho, surge-lhe (não mais que repentinamente) uma frase de efeito. Voltou à mesa. E para terminar o seu conto (habilmente disfarçado em terceira pessoa. E agora, riamos? Não. Não tenho motivos para risadas. Ria sozinho) – para terminar o conto escrevo o que há pouco me veio, subitamente, ao ver minha triste e patética imagem refletida:

“É por esses olhos vermelhos, Jéssica

Que eu te odeio”

 

* Publicado originalmente no livro Manicômio (2012).

** Continua no dia 04 de junho.

29 de mai. de 2021

Meus olhos verdes (folhetim romântico) – Parte 9

Por Rogers Silva

35 – 

Quinze dias se passaram. “Foi uma maneira que ela usou pra superar a insegurança que sentia em relação a você – disse Andressa a Geisel.” Estavam na casa desta, e ele em seu colo. Andressa fazia carinhos, passava as mãos no rosto dele. “Mas... – não completou. – Nesses últimos dias não houve um minuto sequer em que eu não pensei nela; aonde quer que eu ia, eu via seu rosto: nas paredes, na TV, nos rostos de outras moças, em tudo; um minuto em que eu não tentei achar reposta lógica de Jéssica ter feito isso. Não houve um dia sequer em que eu não sonhei com ela.” E acordava atordoado, pois Jéssica e Marina riam sarcasticamente dele. Ora acordava com falta de ar. Levantava-se, pois tinha medo de dormir e sonhar, e sonhar com ela. Sonambulava pela casa, ligava a televisão, e as mesmas porcarias de sempre. Deitava-se com medo, mas também com esperança de dormir rapidamente. Porém, os olhos ao teto, enxergava claramente a fisionomia de Jéssica, e ela ria, e ela chorava, dizendo (de forma hipócrita) que nada fizera. “É pior tentar achar reposta. Esse tipo de coisa não tem explicação...” “Eu acordo e durmo pensando nisso...” “É porque ainda está muito recente...” “Uma dor tão forte e tão constante... Tenho medo de... Um dia, de tanta raiva (acho que nunca senti tanto ódio na minha vida), eu dei um murro tão forte, mas tão forte na parede, que sangrei a mão.” “Para, vai – tentou melhorar o ânimo do rapaz, abaixou o rosto e deu-lhe um beijo. – Me promete uma coisa?” “O quê?” “Que nunca mais vamos falar sobre. Esqueçamos. Bola pra frente.” Geisel sorriu (um sorriso abatido) e disse: “Tudo bem. Prometo.... – mas interrompeu-se. E completou – Tenho certeza, Dressa, não sei por que, talvez uma intuição, mas isso não vai ficar assim.” 

36 – 

“Até que enfim a música ridícula que estava tocando acabou, pois não tem nada a ver com a situação que relembro agora. Quero uma canção que eu possa questioná-la. Talvez esta:

Eu tranco a porta pra todas as mentiras

E a verdade também está lá fora...

Será que existe verdade lá fora?

A porta fechada me lembra você a toda hora...

Que tanto de portas é esse?

Eu tranco a porta pra todos os gritos...

Que música sem sentido é essa?

E o silêncio também está lá fora. Lá fora só há silêncio. Mecanicamente disfarçado por palavras vazias. Que só machucam. Ou para nada servem. Palavras, somente palavras...

Será que eu tô trancado aqui dentro?...

Que música sem sentido!

Será que as perguntas são certas?... Vou tirar da rádio e colocar um CD. Essa não! Não estou entendendo nada! Sem nexo já basta a vida! – mesmo chorando eu penso, indignado com a falta de razão para o que aconteceu. Eu preciso de motivos óbvios! Jéssica, eu preciso saber por que fez isso. Vem aqui agora e me diga! Vem... Não consigo entender... 

Por que eu choro tanto, meu Deus? Talvez com o cair das lágrimas o sofrimento seja aliviado. Que se danem aqueles que queiram explicar meus sentimentos. Que se danem os psicólogos! Jéssica vai ser psicóloga... Que Jéssica se dane! Explique e dê-me solução! Progressos do ser humano, se sofre mais, mais? Me explique isso! Por que o homem, a cada dia, sofre mais e mais vazio fica?

Um CD. Outra música. Uma que me faça relembrar de tudo, mas sem ódio, sem raiva, sem remorsos. Que a mágoa, aos poucos, acabe. Tomara. Ou... Comece. Começa:

 

Não sei por que você se foi

Quantas saudades eu senti

E de tristezas vou viver

E aquele adeus não pude dar

 

Você marcou na minha vida

Viveu, morreu na minha história

Chego a ter medo do futuro

E da solidão que em minha porta bate

 

E eu

Gostava tanto de você

Gostava tanto de você   

O som melancólico e triste do piano ajuda minhas lágrimas caírem. Mas não caem como antes, veloz e desesperadamente. Realmente, eu gostava tanto de você. 

Eu corro, fujo desta sombra

Em sonho vejo este passado

E na parede do meu quarto

Ainda está o seu retrato

 

Não quero ver pra não lembrar

Pensei até em me mudar

Lugar qualquer que não exista

O pensamento em você 

Aqui no quarto, não. Aqui há este espelho estúpido que me olha a todo o instante. Diminuirei o volume da canção. Vou para a sala... 

Enquanto permaneço aqui na sala, nesta mesa pequena, chorando, relembrando do passado, ouço a música distante, baixa. E sorrio chorando quando relembro do sorriso espontâneo de Jéssica. De sua boca falando que me amava. Mas amava? Uma profusão de emoções. Lugares-comuns. Tenho o direito? Enquanto caem as lágrimas, a canção que vem lá do quarto me ajuda a livrar do câncer que me corrói o peito. Ou o estômago? 

Não sei por que você se foi... Não, você não se foi. Você está aqui, pertíssimo de mim. Você marcou em minha vida... Mas um dia esta marca irá embora. Sei. Chego a ter medo do futuro e da solidão que em minha porta bate... Bate. Entra. E toca: 

E eu... gostava tanto de você

Gostava tanto de você... 

Eu corro, fujo desta sombra. Em sonho vejo este passado... Por incrível que pareça, na parede do meu quarto ainda está o retrato de Jéssica. Não quero ver pra não lembrar...

37 –

Vinte dias depois da inexplicável traição, Geisel ainda não falara com Jéssica. Acabara completamente o vínculo. Nem ela nem ele tentaram reatar, dar e pedir explicações, se desculpar nesse tempo que passara. Geisel, no dia do seu aniversário (15 de dezembro), às sete horas da noite, numa sexta-feira, encontrava-se no quarto, deitado na cama, olhando o teto e pensando, quando o telefone tocou. Refletiu... Não. Repensou... Foi atender. Depois de ter ouvido com certa resistência Marina falar, sentou-se no sofá, estranhamente paralisado. “Não é possível. Deus! Meu Deus! Isso não pode ter acontecido”. Não conseguia acreditar no que ouvira. O susto o paralisara. Perplexo ante um mundo, o seu, que desabava, ficou ali, inerte. As palavras de Marina soaram novamente em seus ouvidos. Deixou-se cair no sofá.


* Publicado originalmente no livro Manicômio (2012).

** Continua no dia 04 de junho.

26 de mai. de 2021

Feito estilhaços no tempo

Por Milton Rezende

Confidencial

Nada consta.

Consta que seja um nada

em face a uma constância

de extremos inarredáveis.

Enfim

um nada consta sobre

outro consta um nada

-- A vida incerta do homem -- 

Nas folhas gastas do mundo

não consta nada em

detrimento desse nome.

Um simples nome em meio

a tantos outros no arquivo

de uma gaveta metálica.

 

Saldo

De cotidianos resíduos

arrancados na solidão de prisioneiro

em que todo o meu ser se devora,

tento compor uma imagem humana

que me faça aceitável a mim mesmo.

 

No silêncio da morte aparente

na qual me recolho ao túmulo previsto

não sei com que ânsia mórbida de calma,

procuro juntar os cacos de culpa diária

que reunidos formam um apelo ao suicídio.

 

E não é só o remorso das manhãs doentias

pelo que na noite se desfez em delírios

de humana fraqueza cansada de si mesma,

é todo um saldo de perdas que tenho que fazer

e lançar no cômputo geral das misérias minhas.

 

De cotidianos resíduos

recolhidos no isolamento mental de indivíduo

em que todo o meu ser se liberta,

tento compor uma imagem poética

que se faça de ideias e despreze a vida.

 

O sol nas vidraças

A tarde de setembro

fecha o cerco

sobre o quarto claro,

e o sol nas vidraças

não faz lembrar

o temporal de ontem.

 

As águas da chuva

descem pelo esgoto

sob a cidade lavada,

e o rio na planície

não deixa esquecer

o ciclo natural das coisas.

 

O destino das nascentes

sintetiza de forma mimética

a trajetória emocional

de um objeto humanizado.

 

Agora é andar obscuro

contra a corrente

e deixar que a pedra

arrebente a vidraça.

 

Depois o sol um dia

vai incidir o seu enigma

sobre uma antiga vitrine

depositária de nossos sonhos

-- feito estilhaços no tempo --


Do livro O acaso das manhãs (Edicon, 1986). Pedido de exemplares pelo e-mail coisasprobule@gmail.com. Preço: R$ 20,00 + R$ 10,00 frete = R$ 30,00.

25 de mai. de 2021

Trem

Por Carla Guerson

 

O trem está partindo e mais uma vez Laura não teve coragem de embarcar.

Retorna com sua mala vermelha e a coloca de volta no porta-malas. Já perdeu as contas de quantas vezes fez esse mesmo movimento. Olha para o espelho esperando a vermelhidão dos olhos diminuir. Dá a partida no carro, liga o rádio no volume baixo, a dor de cabeça companheira reaparece.

Ainda faltam alguns minutos para o horário das crianças chegarem da escola. Laura estaciona o carro na rua de casa e resolve continuar ali. Mantém o ar condicionado ligado, contrariando sua predisposição. Ouve a voz interna de seu pai alertando-a para o desperdício de combustível. Mandaria se fuder, se ele estivesse vivo.

As crianças saem do transporte escolar e Laura consegue ver que estão brigando. A cena repetida só faz aumentar ainda mais a vontade de não se mover. Vê os filhos entrando, Cida os recebe. Dentro de casa, os olhos da memória lhe revelam todo a sequência de acontecimentos: mochilas jogadas, almoço, gritos, louça, televisão.

Ela resolve não entrar, um pequeno gesto de covardia. Manda uma mensagem de voz à empregada avisando que teve um imprevisto e vai almoçar fora. Já de volta ao centro, embora esteja com fome, resolve não comer e se senta no boteco ao lado do consultório, pede uma cerveja de garrafa.

O relógio da parede avisa que faltam 15 minutos para a próxima sessão. Laura confere na agenda o nome do paciente: Gerson, o rapaz que se parece demais com seu primeiro namorado.

O gole desce gelado enquanto a lembrança pede licença para se instalar. O beijo furtivo no cinema, as mãos geladas, o frio na barriga. A tristeza feroz que a tomou quando ele foi embora da cidade. A urgência, a intensidade. A ânsia de viver da juventude contrastando com a inércia de agora.

Paga a conta e se dirige ao prédio comercial onde divide um consultório com outra psicanalista. Senta-se na poltrona e ouve com atenção a história de Gerson, que poderia ser a de qualquer outro garoto com dificuldades de aprendizado e pais rígidos.

Na mão, anotações em um papel. A cada paciente, o pensamento viaja.

Na estação o trem sai todo dia às 12:45. 


Carla Guerson. Feminista, escritora, leitora compulsiva, uma apaixonada por narrativas. Escreve contos, poemas, crônicas, publica em revistas literárias e no site https://carlaguerson.medium.com/. Participou de duas antologias e está escrevendo seu primeiro livro, O som do tapa (Editora Patuá).

24 de mai. de 2021

Meus olhos verdes (folhetim romântico) – Parte 8

Por Rogers Silva

31 –

Geisel, após chegar em casa, trocou a roupa, foi à cozinha comer alguma coisa, se sentou um pouco na sala e se direcionou ao quarto, seu local favorito. Pensava, ao olhar aquele espelho grande, em como o ganhara. Seus pais, antes de ele vir para Uberlândia, disseram-lhe para trazê-lo. Tinham-no comprado numa dessas lojas de móveis antigos, numa viagem ao Rio de Janeiro. Acharam-no lindo e instigante. Geisel tinha dez anos quando compraram o objeto numa loja do Rio. Agora, ele foi ao som e colocou uma música da Ivete Sangalo, deitou-se na cama e, embalado pela melodia da canção, olhando distraidamente a moldura desgastada do espelho, pensava em Jéssica. Achava que ela tinha sido a melhor coisa que acontecera em sua vida. No dia seguinte, sábado, acordou cedo e foi ao shopping trabalhar. Chegou em casa às seis da noite. O seminário começaria às sete. Precisava se arrumar rapidamente. Desde quinta-feira não falava com Jéssica, por isso, ao tomar banho, se vestir, pensava nela... Durante toda a tarde tentara se comunicar com ela, falar-lhe do evento acadêmico no sábado, mas não a encontrara. Pelo telefone sua mãe dissera que Jéssica havia saído. Mas Geisel, agora em casa, não se preocupava em não ter encontrado a namorada, pois pensava nas últimas palavras ditas, na quinta-feira, último dia em que se falaram: Eu te amo, viu? Nunca deixe de acreditar nisso – e desligara o telefone. Falara meio soluçosa.

32 –

Geisel descia pela avenida Segismundo Pereira, no seu Chevette rebaixado, curtindo o aroma do vento que, suave, passava a impressão de que a noite ia ser agradável. Uma noite gostosa – pensava. – Depois do seminário, se não demorar, vou ligar pra Jéssica ir lá pra casa. Aproveitar a noite... O seminário ocorreria no auditório do Bloco B, perto do Bloco A e, um pouco mais acima, do Bloco J. Estacionou o carro em frente a este bloco e, ao fechar a porta, avistou um casal (Ou não... – pensou), um(a) bem próximo(a) da(o) outra(o). Geisel se direcionou rumo aos namorados, pois teria que passar por perto para ir ao bloco onde aconteceria a palestra. De repente, um baque. Ao olhar involuntariamente para o casal, tão grudado, sentado no mesmo banco em que ele tinha dado o primeiro beijo em sua namorada, um grande abalo. Um tremor tomou conta do seu corpo inteiro. Ficou sem palavras, sem ação, sem percepção dos sentidos, completamente desorientado ao enxergar os olhos brilhantes de Jéssica (aparentava um olhar apaixonado) direcionados a... a... que-que..., meu Deus!, a beijava? “Agora sim, tá tudo claro!” Despediam-se? Já?! Marina, após o-o, Deus, beijo?, e um beijo apaixonado, sim!, viu Geisel parado, olhando, perplexo, e se assustou. Apontou o indicador, cutucando Jéssica. “O quê?” A princípio não entendendo, uns cinco segundos depois também o viu. Não pareceu se assustar muito. Apenas arregalou um pouco os olhos. Mas recompôs-se. E olhou-o com um semblante tão calmo que aquilo fez crescer sua raiva momentânea. Uma confusão de sentimentos o atormentava. “Agora sim!” Não sabia o que fazer. “Tava na cara!” Pasmou-se ante a inexplicável traição de Jéssica. E logo com ela, com Marina.

33 –

Enquanto Jéssica tentava se explicar, acusando-o de estar tão ausente ultimamente (Ausente? – não se conformava com as desculpas) e dizendo que mesmo assim nada fizera, aguentara, apesar da carência, Geisel olhava-a e se lembrava de forma confusa do quadro de armação bronze com rajadas negras que dois dias antes mandara fazer, o rosto dela estampado – uma foto, ampliada num estúdio, que tiraram numa dessas viagens de reconciliação. Um quadro que, enquanto não dava à namorada, tinha o colocado na parede do seu quarto – substituído o mapa da cidade natal pela peça. O rosto concreto, este, se fundia ao rosto da foto. Um semblante tão estranho, tão desconhecido dele! Como, em mais de nove meses, nunca percebera essa feição? Deus, como pude ser tão tolo? Por que ela fez isso? “Por quê?!! – e o grito instintivo.” Jéssica se assustou. Mas forçou para permanecer na situação de aparente normalidade que escolhera forjar. Depois de dizer a Marina algo, talvez que queria conversar com Geisel (estático, olhava-as com um olhar incompreensível), esta se afastou. Agora ele e Jéssica conversavam. Com um semblante entre constrangido e cínico, Marina (pouquíssimas pessoas espalhadas, aqui, ali, cúmplices) a uns cinco metros de distância os observava.

34 –

“Liguei o toca-cd. Não escolhi o álbum, apenas dei play. Qual teria sido a última música que eu ouvira ali, naquele quarto pequeno? Aumentei ao máximo o volume. Que ninguém ouvisse o meu pranto. Mas quem poderia ouvir o meu choro? Eu estava completamente só.

O telefone tocava.

Eu estava desesperado, estava em pânico. Pode parecer exagero, mas eu nunca conhecera uma dor tão forte. Eu estava sofrendo. ‘Estava’ é piada. Estou... (Mas a canção ridícula que passa agora na rádio abranda a dor).

Naquele dia, a canção: Meu coração, sem direção...

Deitei na cama e desatei a chorar. Chorava alto, soluçava e fazia todos os tipos de perguntas que eu pudesse: Por quê? Por quê?! Por quê?!!

As estrelas vão me guiar...

E o telefone tocava.

Eu mordia o travesseiro. Assim diminuía o volume do meu choro. Que ninguém ouvisse. Mas a dor não diminuía com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. O travesseiro, em poucos minutos, estava molhado.

Não! Essa música, não! Só no refrão percebi que a tal era exatamente a primeira que Jéssica me oferecera, um dia, numa dessas rádios. Dizia lembrar de mim todas as vezes que a ouvia.

E agora, se lembra de mim, Jéssica? Onde está o seu amor? Evaporou? Onde está aquele amor verdadeiro com o qual dizia que me amava? Me mostra. Eu quero vê-lo! Onde está?

Num beijo que eu jamais provei igual... Preferível fosse não ter provado. Um beijo de Judas. Um beijo que de tão doce se tornou amargo, como as lágrimas que eu provo sem querer agora – eu pensava, eu chorava.

O telefone tocando... Porra!

Se eu não te amasse... Agora não estaria chorando – murmurei, após ter tirado a música. Preciso de algo mais agressivo – pensei. Algo que me faça quebrar tudo que está em minha frente – exagerava por causa do sofrimento.

Odeio essa música! – gritei. Odeio você, Jéssica! Odeio esta dor no meu peito! Não. Não havia ódio em mim, por incrível que pareça. Indignação, sim. Um enorme sentimento de injustiça. E constrangimento, vergonha. No meio de tantos CDs espalhados pela pequena mesa, na qual ficava o aparelho de som, um me fazia lembrar de Jéssica. Um é piada: em tudo eu via Jéssica. Tudo que eu olhava me fazia relembrar daquela cena. Um dos álbuns Love colection que ela me dera. Peguei-o, ainda chorando, um choro mais ameno, e de repente subiu um ódio tão grande que, quase sem perceber, joguei-o contra a parede. O resto do CD (a capa de plástico dentro da qual ele estava) espalhou-se pelo ar, caindo caindo ao chão.

Por quê? – após os porquês eu me derramava. Chorava.

E o telefone não mais tocava. Melhor assim.

Por que eu fiquei daquele jeito quando as flagrei, tão sem ação, tão sem palavras? Eu deveria ter dado uns murros na sua coleguinha, naquela cara lavada, cínica, que parecia achar o que faziam a coisa mais normal do mundo. Putas. Sem-vergonhas.

E Jéssica? Eu deveria ter gritado, falado tudo o que sentia! Entretanto, não consegui falar quase nada. Que cheiro é esse? Você está fedendo álcool! Você bebeu? Você está fedendo álcool com cigarro. Você fumou? Você está horrível, Jéssica! Por que me olha assim tão cinicamente?! O que faz agora não é nada normal. Não pense que vai sair sem marca. Por que me olha assim? Por que me fala assim, de forma tão dura? Você está sendo injusta. Você foi muito injusta comigo, Jéssica. 

Por que me acusar por algo que você estava fazendo? ASSUMA SEU ERRO! Seja sincera, justa, verdadeira e assuma seu erro! O que mais me doía, quando me lembrava do acontecido, era a expressão desavergonhada de Jéssica.

E aquela idiota que ficava ali nos rondando! Fala pra ela sair daqui senão vou matá-la – gritei.

Jéssica foi até Marina, encostou suas mãos nas mãos dela e disse-lhe alguma coisa. Eu ficava olhando aquela cena patética e dava-me uma vontade de ir lá e... Fazer algo que as machucasse, que as fizesse sentirem a dor que eu estava sentido. Humilhá-las, pensei em humilhá-las. Mas só pensei. Não tive, em momento algum, atitude para fazer qualquer coisa. Eu me encontrava atônito. Nada disso está acontecendo comigo. É tudo um sonho. Isso! É tudo um sonho – eu pensava ali, enquanto Jéssica se justificava me acusando. Sim, ela tentava se explicar (Engano seu... – dizia) e me acusava (o culpado sempre acusa). E não era um sonho...”

O texto acima se encontra digitado em duas folhas A4. Próximas a outras, jogadas de qualquer maneira em cima da mesa, numa sala pequena, na casa de um jovem, transmitem um ar de desorganização.

 

* Publicado originalmente no livro Manicômio (2012).

** Continua no dia 29 de maio.