27 de out. de 2020

A arte de escrever narrativas #5

Módulo 5: Comece o seu texto pelo final


Por Rogers Silva

Este é um módulo controverso. Nem todos concordam e seguem a lógica do “uma vez pronto o final, você sabe exatamente onde quer chegar”, porque nem todos acreditam que toda narrativa exige um enredo. Mas... como assim? Calma! Listemos alguns motivos de muitos escritores não concordarem com a afirmação do título deste texto:

1)      Nem todos os escritores se preocupam com a construção do enredo[1]. Ou seja, nem todos criam suas narrativas (sejam elas um conto, um romance, um longa-metragem) com a ideia de inserir nelas uma apresentação, conflitos, desenvolvimento, clímax e desfechos bem definidos.

2)     Nem todos os escritores se baseiam em enredos para começarem a escrever. Para alguns, basta uma ideia vaga e, daí, sentar em uma cadeira em frente ao computador e escrever escrever escrever até saber aonde tudo aquilo vai dar. Muitas obras-primas foram escritas a partir, por exemplo, de uma frase de efeito ou de uma ideia básica inicial. José Saramago, em suas entrevistas, discorre bastante sobre essa questão.

3)     Seguindo a lógica do item 2, nem todos os escritores planejam suas narrativas (na literatura, especialmente, isso é bastante comum). Há obras (algumas obras-primas) que foram escritas em um mês, dois meses, sem nenhum tipo de planejamento prévio.

4)    Alguns escritores preferem criar narrativas com foco em personagens, tanto em suas características físicas, mas principalmente em seu cotidiano e em suas características psicológicas. Um bom exemplo disso é nossa Clarice Lispector. Há narrativas, inclusive, que passam integralmente na mente do personagem.

5)     Alguns escritores fazem de suas obras (tanto poéticas quanto narrativas) um grande experimento com a linguagem e, nem sempre, se preocupam com outros aspectos como personagens, espaços, enredo. Aqui, o objetivo é demonstrar todo o potencial da linguagem verbal como meio de experimentalismos e, por que não?, comunicação.

Se você não faz parte de nenhum desses grupos acima, dentre outros, talvez este módulo sirva para algo, pois saber onde chegar em uma narrativa (cuja uma das preocupações seja o enredo) é de suma importância, porque normalmente é lá que estão o clímax (o ponto máximo) e o desfecho (a conclusão). Ou seja, é sobretudo no final que está centrada a expectativa do leitor.

A ideia de começar um texto literário e/ou uma narrativa pelo final não é nova nem é minha. Particularmente, conheci-a em A filosofia da composição (1846), de Edgar Allan Poe, sobre o qual já comentei e sugeri nesta web-oficina. Tudo indica, a partir do seu próprio ensaio, que Poe conheceu-a de outro autor. Para Edgar Allan Poe, nada mais claro que todas as intrigas serem elaboradas em relação ao epílogo (desenlace/conclusão), porque só tendo o epílogo constantemente em vista é possível dar a um enredo um aspecto indispensável de causalidade.

Ao discutir a construção do seu poema mais famoso, “O corvo”, Poe afirma que a obra em questão teve seu começo pelo fim, porque é aí que devem começar todas as obras de arte. O autor compôs, primeiro, aquela que seria a estrofe (equivalente ao clímax em uma narrativa tradicional) mais importante do seu poema narrativo[2]. Assim, estabelecido o ponto culminante (a estrofe clímax), ele melhor poderia variar e graduar a importância e a seriedade das outras partes e poderia, ademais, assentar o ritmo, o metro, a extensão e o arranjo geral do poema a partir dessa estrofe. Tudo, no poema, deveria levar a um lugar que o autor sabia exatamente o que/como era.

“O corvo”, embora se trate de um poema narrativo, é em essência um poema que, por sua vez, possui suas próprias características (ritmo, métrica, rima, verso, estrofe, musicalidade, etc.). O foco maior desta web-oficina, no entanto, é o texto essencialmente narrativo, como a micronarrativa, o conto, a novela e o romance. E o texto narrativo – como já discutimos – exige outros elementos (narrador, personagens, tempo, espaço e enredo). Tendo em vista, em especial, o enredo, o final de um conto – por exemplo – equivale: a) ao clímax e ao desfecho, ao mesmo tempo; ou b) ao desfecho.

É possível escrever o final antes do começo e do meio? Sim. É possível escrever o clímax antes de qualquer outra parte de uma narrativa? Sim. É a estratégia mais adequada? Depende (para Poe, com certeza). É o único processo possível para a escrita de um texto narrativo? Óbvio que não. Há dezenas, centenas, talvez milhares de processos diferentes. Cada escritor, com o tempo e a experiência, vai encontrar aquele processo que mais se adequa ao seu perfil, aos seus objetivos, ao seu estilo literário e ao seu ritmo de trabalho. Mas para isso é preciso tentar. 


[1] Não confunda narrativa (como) com enredo (o quê). Nem toda narrativa possui um enredo claro e definido. Em algumas, inclusive, é até difícil detectar o enredo.

[2] Um poema narrativo conta uma história por meio de versos e estrofes, entre outros recursos próprios do gênero lírico. Por outro lado, por ser – adjetivamente – uma narrativa, possui elementos como personagem, tempo, espaço, etc. “O corvo”, de Edgar Allan Poe, é um belíssimo exemplo de poema narrativo.


* Para aprofundar nessas e em outras questões, realize o curso completo (imagem abaixo). Para ter acesso ao programa, é só pedir pelo e-mail coisasprobule@gmail.com (Assunto: Web-oficina) ou clicar na imagem abaixo.

25 de out. de 2020

Pandemia

Por Adriano Besen 


É bem difícil ser normal

Em tempos de pandemia

Alguns até respeitam

Outros vivem de heresia

 

Cada um cuida de si

Até que chega o seu dia

Tem gente despreocupada

E falam de hegemonia

 

O insensível não percebe

Tudo que ele contraria

Não era pelo mais forte

Mas por aquele que sofria

 

Vive o corpo egoísta

Enquanto a alma jazia

Pensa que não perece

No entanto, sucumbia 


Adriano Besen é natural de Florianópolis, Santa Catarina. Autor do livro infantil A história de uma galinha. Publica em antologias, revistas, jornais, blogs e sites. Foi colunista do jornal O Tropeiro. Escritor, Músico e Contador de histórias. Pesquisador e Aventureiro. Apaixonado por livros. Instagram: @adrianobesen / e-mail: cp.adventure@bol.com.br

23 de out. de 2020

À noite o sono é vigília

Por Milton Rezende


Pânico da avenida I

Somos pessoas cansadas

e imóveis à sombra de

um abrigo sem folhas,

e o que nos caracteriza

e ao mesmo tempo nos

diferencia das outras

espécies aprisionadas,

é a nossa dificuldade

quase absoluta em sermos

felizes – como se

a felicidade fosse um

passaporte para a morte.  

Pânico da avenida II 

As situações de vida

em minha ex-cidade

são como fantasmas

no espelho nostálgico

da minha memória.

 

É o mesmo que ausente

percorrer um casarão

tombado pelo patrimônio

e tombar realmente, numa

queda surda e repleta

do pó da história.

 

Em minha antiga rua

havia ao menos rostos

antigos a andar na rua.

 

E eu era um deles

hoje sou incógnita

e não me reconheço

na paisagem insólita.

 

À noite o sono é vigília

nas figuras das paredes

do meu escritório.

Drummond, Beatles e Lula

fixam-me de suas molduras

enquanto eu sonho estar longe.

 

Fora isso a vida transcorre

inexorável rumo ao seu desfecho.


 Do livro Inventário de sombras (Editora Multifoco). Exemplares esgotados

21 de out. de 2020

‘Soda Cáustica Soda’ – um livro corrosivo

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

Em janeiro de 2017 escrevi o seguinte sobre o livro Fragmentos de um exílio voluntário do escritor Lúcio Autran: “Autran nos apresenta uma obra em que se observa a conciliação entre expressividade e artesanato verbal. Suas angústias e inquietações ganham vida e se manifestam construindo uma poética presa à realidade e dirigida ao intelecto onde a experiência humana de nosso tempo nefasto é posta em evidência. O resultado é que temos contato com uma obra de lastro existencialista a constatar como as relações humanas caminham rumo ao aniquilamento”.

Reencontro o autor agora na publicação de Soda Cáustica Soda, e com redobrada admiração observo que cada vez mais ele afina o seu tino crítico e uma sensibilidade que não deve calar. Essa nova obra se constitui em alentada reunião de textos que apresenta ao leitor poemas belíssimos como “Horas”, “O aprendiz de insônias”, “Três cabrestos”, “Pandora 2018”, “Século XXI”, “Nove degraus e um pássaro numa tarde de verão”, dentre vários outros.

É flagrante o desalento diante do mundo contemporâneo. E não poderia ser diferente. Nossos dias são mesmo difíceis, dilacerantes, angustiantes. Há desencanto, mágoa, ironia, muita dor e uma espécie de pesadelo que não acaba. Em “A procissão dos enfermos no cais do desterro” (poema em prosa), há um lirismo pungente que nos toca profundamente, porque nos perguntamos: o que será afinal do humano?

Em “Desespero”, o leitor se depara com o seguinte trecho:


“Alguns poucos ainda buscam por bússolas tontas sussurrando o vento norte, mas não há vento nem norte, não há esperança de fuga, só uma porta ainda os separa do tempo dos homens, a mesma porta que os levará para fora do tempo e dos homens. Ombro a ombro, suores em febre misturam-se afluentes, roçam as peles em pânico no rumor da força da multidão amalgamada na fúria de quem descobriu um insepulto fim, sem escatologias.

 

Uma morte sem cadáveres da qual eles morrem todos os dias.”

E, no entanto, olhemos para outros ângulos dessa sensação de fim de mundo: sempre há e haverá reconstrução, vide, a propósito, todos os poemas da última parte da obra, “Seis danças desconexas para a sexta década”, dedicados ao filho do autor (que esperança maior poderia haver?). É nessas frestas de reconstrução eterna da vida que a linguagem poética busca luz no fim do túnel.

Soda Cáustica Soda é título corrosivo sem dúvida. É o é nas 16 partes em que está dividido e que levam títulos como demônios, cicuta, escatologias, exílios, dezembro entre escombros, dentre outros. Há porém, entremeados àqueles poemas cáusticos, outras partes agrupando poemas a que o autor deu o título de “Contrapontos”. Não é por outra razão que o poeta André Caramuru Aubert, que assina o prefácio da obra, afirmou que ressoa em suas páginas “um profundo lirismo, mesmo quando à primeira vista se insinua épica ou corrosiva. No poeta Lúcio Autran, o ‘bardo épico’, o ‘poeta amargo’ e o ‘eu lírico’ se misturam e se confundem em poemas que muitas vezes parecem pedir, por um lado, uma leitura íntima, silenciosa, num sofá aquecido por uma taça de vinho e pela luz amarelada de um abajur noturno, e por outro lado, exigem, sem fazer concessões, uma declamação feroz, no centro de um palco, voz alta com timbre de tenor, com o rosto crispado e braços abertos” .

Verdade – o leitor se depara com essa grande habilidade do autor em versejar com profundidade, tanto em poema curtos e concisos, quanto nos longos, com tendência épica. Há, inclusive, poemas em prosa e aqueles outros em que surgem sugestões visuais na página impressa.

Há ainda outro aspecto crucial nessa obra. No ambiente em que vivemos no mundo, e sobretudo no Brasil (atualmente abatido pela discórdia imbecilizante e pela intolerância histérica – e não se deixe de ler o poema “A besta qualificada”), Lúcio Autran empreende experiência radical de engajamento estético-político, cujo risco dá consistência e fibra a uma poesia que se emancipou da estreiteza ideológica e poética e soube tirar proveito artístico do exame de seus limites e de sua ação. Lembramos ainda, a título de reforço, que a poesia é política. Pode até não tratar disso diretamente, mas é um ato engajado. E política, nos versos, não significa tratar somente de fatos e desgovernos, mas de ressignificar símbolos. E entenda-se que ressignificar símbolos não espelha unicamente o protesto puro e simples. Exprime o perscrutar o porquê isso ou aquilo acontece em nossas vidas. Decorre disto, seguramente, as saídas que podem iluminar. A começar pela publicação de um livro como este.


Título: Soda Cáustica Soda

Autor: Lúcio Autran

Editora Patuá, São Paulo – SP

2019

176 p.

ISBN: 978-85-8297-863-4


Adquira a obra pela Editora Patuá ou pela Amazon

19 de out. de 2020

As dicas e as memórias de Stephen King

Por Rogers Silva

Stephen King é aquele tipo de escritor que, acredito eu, é melhor no cinema do que na própria literatura. Ou seja, as adaptações de seus livros (O iluminado (1980), Um sonho de liberdade (1994), Eclipse total (1995), À espera de um milagre (1999), Janela secreta (2004), entre outras), uma vez assistidos, dispensam a pessoa de ler suas obras. Por pensar assim (embora tenha lido dois livros seus – dos quais gostei – há muuuuitos anos), eu nunca tenha, até então, pegado um dos seis livros do autor que lá estão em minha biblioteca particular. Só até alguns dias atrás, quando peguei seu Sobre a escrita, um livro não-ficcional.

Sobre a escrita – a arte em memórias (On writing), uma espécie de memória profissional e manual para escritores, foi publicado nos EUA em 2000 e, no Brasil, em 2015, pela Suma de Letras. Possui 256 páginas. Sua tradução ficou sob a responsabilidade de Michel Teixeira. Ganhou algumas novas edições e reimpressões (no Brasil), alguns prêmios e muitas críticas elogiosas de críticos norte-americanos e – claro – sempre está entre os mais vendidos na categoria “Biografias e memórias”.

Podemos não gostar de sua literatura (particularmente, não tenho uma opinião formada), mas não podemos fingir que o cara não seja um fenômeno mundial: escreveu mais de 65 livros (59 romances), possui mais de 60 filmes adaptados de suas histórias (alguns clássicos do cinema como os já citados O iluminado, Um sonho de liberdade e À espera de um milagre), vendeu mais de 400 milhões de exemplares em 40 países e recebeu diversos prêmios, dentre os quais o Bram Stoker Award, o World Fantasy Award, a Medalha Nacional das Artes e a Medalha por Contribuição de Destaque à Literatura dos Estados Unidos.

Sobre a escrita está dividido em quatro capítulos (Currículo, Caixa de Ferramentas, Sobre a Escrita e Sobre a Vida: Um Postscriptum) que, na verdade, poderiam ser divididos em dois grandes temas: memórias pessoais/profissionais; dicas de escrita e publicação. O primeiro capítulo é um amontoado de breves cenas sobre sua infância, adolescência, juventude e início da fase adulta que nem sempre seguem uma lógica cronológica, assim como em um livro de memórias tradicional, onde o tempo recua e avança, de maneira que o leitor é quem deve juntar os fatos e formar um todo com unidade.

Esse primeiro capítulo funciona para sanar a curiosidade do leitor sobre um autor com tanto sucesso e, claro, como uma fotografia (fotografias não são a realidade, nunca esqueça) do Steve King criança/adolescente, antes de se tornar no autor Stephen King. De acordo com suas memórias, sua vida não foi nada fácil: cuidado apenas pela mãe (seu pai abandonou a família), com um irmão pouco mais velho, eles passaram por muitas cidades e casas. Para piorar, Steve passou por uns bons bocados, sobretudo quanto a questões financeiras e de saúde. Não teve uma vida fácil até, claro, começar a receber quantias que – podem parecer absurdas, mesmo hoje, para os escritores e o mercado editorial brasileiros – contribuíram para melhorar sua vida financeira.

 

“...achei que tinha o início de uma boa história para a Cavalier, e em algum lugar de minha cabeça a esperança de chegar à Playboy acenava discretamente. A Playboy pagava até 2 mil dólares por contos de ficção” (p. 70).


Isso na década de 1960. Ademais, é importante não esquecer que 2 mil dólares nessa época, lá nos EUA, equivalem a bem mais do que 2 mil dólares hoje. Eis outro exemplo (agora referente ao adiantamento de uma publicação pequena de Carrie, a estranha, seu primeiro livro), que pode assustar e frustrar o (aspirante a) escritor brasileiro, que normalmente precisa mendigar para ter seus escritos publicados (ganhar com eles, então, é quase um milagre por aqui):

 

“Um adiantamento de 2.500 dólares para a edição de capa dura (normalmente lançada antes da edição brochura, a principal e maior) era bem pequeno, mesmo para o início da década de 1970, mas eu não sabia disso e não tinha agente literário para me dizer” (p. 76).

No entanto, pouco tempo depois Stephen King receberia uma ligação do seu editor dizendo que os direitos da edição brochura de Carrie tinham sido vendidos para a Signet Books por 400 mil dólares, dos quais a metade (aqui cabe um negrito) era do autor. Isso em 1973. A fim de comparação, à época ele pagava 90 dólares por mês em um aluguel de uma casa. Quatrocentos mil dólares! É muito irreal para a realidade editorial brasileira? É.

Este primeiro capítulo, embora também trate de literatura e de escrita, foca mais em questões da vida do autor, como a relação com sua mãe, irmão, familiares; seus problemas com drogas e bebidas; sua experiência como professor, etc. Algumas das poucas dicas que surgem aí, já antecipando os dois capítulos posteriores, são: “a percepção original do escritor sobre um personagem ou personagens pode ser tão equivocada quanto a do leitor” (p. 71) e “parar uma história só porque ela é emocional ou criativamente custosa é uma péssima ideia” (p. 71).


Uma característica que acho interessante nos filmes e séries norte-americanos, mas me irrita profundamente quando me deparo com livros de ficção e não-ficção daquele país é a necessidade de, a todo o momento, fazer referências a nomes próprios, seja de jornais, ruas, praças, escolas, supermercados, lojas, hotéis, rios, cidades, estados, bairros, pessoas famosas, personagens, jogos, times, seriados, etc. Em geral, são referências dispensáveis, pois: 1) são conhecidas apenas pelos moradores do país (quiçá nem isso); 2) não acrescentam informações valiosas à narrativa e; 3) comprometem a fluidez do texto. Isso ocorre com bastante frequência no primeiro capítulo do livro, o que destoa da linguagem clara e direta do autor. Para não ser injusto, uma ou outra referência é de conhecimento público/mundial, como Edgar Allan Poe, Tom Swift, Charles Dickens, Mickey Mouse, Pato Donald, New York Times, filmes como A noite dos mortos-vivos, Jack, o estripador, entre outros. Essas, sim, fazem sentido para praticamente qualquer leitor dos 40 países onde Stephen King está traduzido.

No segundo capítulo de Sobre a escrita – a arte em memórias, “Caixa de ferramentas”, Stephen King enfim começa a dar dicas práticas sobre a escrita, como propõe em seu título:

  • “Coloque seu vocabulário na primeira bandeja de sua caixa de ferramentas e não faça qualquer esforço consciente para melhorá-lo” (p. 104). Ou seja, sem se preocupar com enfeitar a escrita com um vocabulário que não possui, o escritor deve, ao contrário, utilizar as palavras que conhece: “gorjeta” ao invés de “gratificação”; “cagar” ao invés de “ato de excreção”, etc. Por que, afinal, tornar as coisas piores escolhendo palavras que sejam parentes distantes daquelas que você sabe/quer usar?
  • “Uma construção gramatical ruim produz frases ruins” (p. 107), por exemplo: “Como mãe de cinco, com outro a caminho, minha tábua de passar está sempre aberta”. Estranho, não?
  • “A simplicidade da construção substantivo-verbo é útil – na pior das hipóteses, pode fornecer uma rede de segurança para sua escrita” (p. 108). Junte qualquer substantivo com qualquer verbo e, pimba!, o escritor terá uma oração: “Rochas explodem”; “Jane transmite”; “Montanhas flutuam”. Embora algumas ideias sejam estranhas, todas as orações são perfeitas.
  • Evite a voz passiva. Segundo o autor, escritores tímidos gostam dela pela mesma razão que pessoas tímidas buscam parceiros passivos. A voz passiva é segura porque não exige o enfrentamento de uma ação problemática: “A reunião será realizada às sete horas”. O escritor precisa, na verdade, tomar a rédea da situação (da reunião), o que exigiria um “A reunião será às sete”.
  • Divida o pensamento em dois porque fica muito mais simples. Fica mais fácil para o leitor, e é ele que deve ser a preocupação de qualquer escritor. Não é tão simples ser o “cara do lado receptor”, de acordo com Stephen King, então não complique sem necessidade.
  • O advérbio não é seu amigo. Palavras que modificam o verbo, adjetivo ou outro advérbio, geralmente terminam em “mente”. Com os advérbios, o escritor parece demonstrar que não consegue se expressar com clareza, de não conseguir passar a mensagem: “Ele fechou a porta firmemente”. O termo “firmemente” precisa de fato estar aí? Ou a partir do próprio contexto não subentende que o personagem fechou a porta de maneira firme? Reflita. O problema do uso de advérbio é que ele é igual erva daninha: quando o escritor menos espera, os advérbios se proliferam e ocupam todo o texto.

O segundo capítulo, “Sobre a escrita”, que dá título à obra em sua versão brasileira, é – teoricamente – o mais importante do livro: é aí que surgem as principais dicas para os que pensam em enveredar pelo caminho da escrita/publicação de literatura. Stephen King começa com a dica mais básica: “Se você não tem tempo de ler, não tem tempo (nem ferramentas) para escrever. Simples assim” (p. 128). Mas não para por aí, óbvio. Veja outras:

  • Trabalhe (sim, para o autor escrever é um trabalho como qualquer outro, mas um trabalho prazeroso) em um local com atmosfera serena, pois é difícil trabalhar em um ambiente onde sustos e intromissões são a regra, não a exceção. Tenha um lugar só seu; uma porta que você possa fechar, pois a porta fechada é um modo de dizer ao mundo e a si mesmo que o assunto é sério quando você está lá dentro.
  • Estabeleça uma meta diária (número de palavras) e deixe a porta fechada até que a meta seja cumprida. Três mil palavras? Mil palavras? Cinco mil palavras? Aí é com você.
  • Não tenha, em seu local de trabalho, telefone, televisão, videogames ou qualquer outra distração. Feche as cortinas ou baixe as persianas.
  • “As pessoas adoram ler sobre trabalho. Sabe-se lá por quê, mas adoram” (p. 139).
  • “A descrição é o que transforma o leitor em um participante sensorial da história” (p. 149). No entanto, a descrição pobre deixa o leitor confuso e míope, enquanto a descrição exagerada o enterra em detalhes e imagens. Saiba o que descrever e o que deixar de lado, pois o trabalho principal é contar uma história (pode parecer contraditório essa afirmação, mas para Stephen King a história é algo que surge do enredo e, portanto, mais importante que este, que é mecânico e anticriativo).
  • O cenário e a textura são muito mais importantes para que o leitor se sinta dentro da história do que qualquer descrição física dos personagens.
  • O diálogo é crucial para definir o caráter de cada personagem, mas as suas ações dizem muito mais sobre ele. Para o autor, o diálogo é uma habilidade que aprendem melhor aquelas pessoas que gostam de conversar e ouvir os outros, de forma a perceber os sotaques, o ritmo, os dialetos e as gírias de vários grupos.
  • As melhores histórias são sobre personagens (pessoas), e não sobre acontecimentos. Prestar atenção ao comportamento das pessoas reais pode ser uma boa.
  • Após escrever a primeira versão da história (conto, novela ou romance), revise/crie a segunda e, por fim, dê um polimento final (Fórmula: 2ª versão = 1ª versão – 10%). Você deve cortar alguns trechos se quiser aumentar o ritmo da história.
  • Pesquisas são inevitáveis (sobretudo quando se escreve sobre o que não se sabe); no entanto, é no pano de fundo que elas devem ficar.
  • Cursos e seminários sobre escrita, embora não formem escritores, oferecem um benefício inegável: o desejo de escrever ficção ou poesia é levado a sério. Sem falar que é uma solução para muitos escritores criativos e veteranos, que ganham pouco, de ensinar o que sabem para escritores iniciantes.
  • Se você está ansioso demais para ser publicado, deixe de lado a busca por agentes literários (prática que é muito comum nos EUA) e banque a edição do próprio bolso.

Segundo Stephen King, os leitores não são atraídos pelos méritos literários de um romance, mas sim por uma boa história que possam levar consigo no avião, por exemplo, de forma que ela mantenha o leitor virando as páginas. Isso se dá, sobretudo, quando os leitores reconhecem as pessoas (personagens) que estão no livro, seus comportamentos, seu ambiente, seu jeito de falar. É uma questão de identificação.

Sobre a escrita – A arte em memórias, de Stephen King, é um misto de memórias de fatos que foram cruciais para ele se tornar escritor e manual para escritores iniciantes. Embora se trate de um autor bestseller, sua motivação para escrever não é – nunca foi – o dinheiro. Ele escreve porque é algo que o completa. Porque o alegra. E se você escreve porque também sente alegria, vai escrever para sempre – essa é uma bela lição de Stephen King, para o qual escrever é mágico, é a água da vida. E a água é de graça – então beba até ficar saciado.

18 de out. de 2020

Paisagem das montanhas

Por Ricardo Novais

Quando Rita desembarcou na rodoviária do Tietê, logo se viu diante de gigantesco mistério guardado no coração da cidade grande. Percebeu-se, então, como parte deste coração tão cosmopolita, mais precisamente num dos portões mais importantes onde a dona Esperança recebe os forasteiros.

Entre movimentos céleres e bater violento de pernas pátio afora, Rita observou rostos desconhecidos tão dela reconhecidos d’algum lugar. Dona Esperança foi logo chegando e lhe dizendo:

__Que belezinha! De onde você veio, menina?

__ De Minas...

Rita achou tudo na cidade uma peça monumental. Ela veio por amor, amor ao noivo que não foi buscá-la na rodoviária, não deu notícia alguma de seu paradeiro e não soube que ela arrumara emprego numa pensão da Ponte Pequena. Mas dona Esperança era patroa boa; deu-lhe comida, ofício, roupas afrancesadas e companhia certa nas noites frias, também nas quentes.

Entretanto, nem toda felicidade do mundo é completa; Rita sentia muita dor de solidão – não mais do noivo antigo, mas das antigas montanhas. Numa tarde de folga ela andava pela Praça da República quando viu um quadro belíssimo, pintado por artista sensível e bucólico. Era paisagem de montanhas, cobertas por um verde muito vivo e tocante, uma sobreposta à outra, como encaixadas em cenário de papelão. Rita comprou a aquarela; sorrindo de alegria, pendurou-a na parede de seu quarto recordando-se das porteiras de sua terra natal que havia deixado para trás.

Deitada na cama a olhar a paisagem das montanhas pendurada na parede, ela imaginava tudo que o real panorama não lhe mostrava. Rita abria a vidraça e tentava ver algo a encaixar-se entre tantos prédios, nada via além do cinza; então fechava a janela contra o frio, vento, chuva, insetos, ladrões, fantasmas, enfim, fugia por instantes da cidade de garras árduas. Ao anoitecer, o acender humano lhe dava a visão desejada: a paisagem das montanhas, com a linha do horizonte a tocar o mágico e formoso sol descambando numa luz alaranjada, discreta, bem colocada, onde tudo é tão vasto que a pequenez não tem fim. “Deveras, que quadro bonito! É lindo demais da conta!”, dizia ela consigo. “Sinto como se estivesse junto de mamãe naquele Morro do Pilar...”.

A vida foi assim passando para Rita: vida estéril, artificial, impessoal. É verdade, amiga leitora, a moça sofria de tudo – menos de falta de amor, já que não se pode sofrer do que não se tem. Nenhum dinheiro trouxe gosto à paisagem que ela enxergava de sua janela.

Noutro dia dona Esperança morreu, Rita herdou a janela da patroa. Vitral maior, vista bem localizada para o Pico do Jaraguá, onde a luz e o ar entram com maior entusiasmo e esplendor; mas nem isto é bom consolo a quem só consegue ver o beco, como diria Manuel Bandeira. Rita dependurou o quadro de paisagem de montanhas à parede de seu novo quarto; o quadro foi sempre a sua companhia de solidão entre seus ofícios sutis e inexplicáveis – onde a felicidade não inspira confiança alguma.

16 de out. de 2020

Quatro micronarrativas de Adrianna Alberti

O mais frágil dos reinos

Construiu suas atitudes em uma base sólida, cimentada em sua própria capacidade de resolver problemas e olhar atentamente os detalhes. Não soube dizer quando se perdeu, entre as funções do dia a dia e o acúmulo de coisas, estudos demais. Agora as cartas estão suspensas, delicadamente encostadas umas nas outras, parece que esperando um sopro para desmoronar. Suspira para os lados, evitando encostar no caos de um castelo frágil. Mais uma lâmina, repete, uma semana, um prazo. Só mais um, tenta dar conta, busca se convencer. Então tudo treme, sob o olhar rigoroso de superiores. Ainda se encontra em pé.


Não mudem os livros de lugar

Primeiro, um importante fato sobre mim: eu peço o mesmo sorvete há sete anos na sorveteria da cidade. Portanto, na noite em que, sem nenhuma sugestão, eu coloquei queijo ralado no meu miojo, considerei uma vitória. Apenas uni o pensamento de que sopa é excelente quando vai queijo ralado, miojo é quase uma sopa, então deveria ficar bem. Não ficou. Decepção. O queijo empelotou e o miojo ficou com cheiro esquisito e sabor estranho de queijo velho, quando deveria ter o sabor e o cheiro artificial de galinha caipira. Me senti orgulhosa, mas completamente decepcionada. E é por essas e outras que peço o mesmo sorvete há sete anos na mesma sorveteria da cidade.

 

Agridoce

Aqueles olhos, como um filhote fofo demais, mirando como se estivesse em uma loja de brinquedos. E quase esqueceria que aquela criatura não é um simples ser humano. Porque ali havia habilidades como se, ao invés de um jogo de dados de 20 faces ao acaso, tudo fosse escolhido a dedo: o máximo em constituição, força, destreza, inteligência, e o carisma? Ah o carisma. E outras habilidades exímias, cada dia uma nova descoberta. Mas em contrapartida era uma inocência humilde. Não me entenda mal, eu admirava profundamente, mas ainda assim fui embora. Dispensei todas as lembranças, como se pudesse. Era coisa boa demais para coexistir na minha pouca significância.

 

O capeta não é vermelho

Não é possível que ela tenha me impedindo de alcançar meus objetivos. Não, realmente não. Ela sabe como eu gosto das coisas: desafiada! Não há altura suficiente, nem compromisso urgente. Não há madrugada tranquila e nem mesmo o mais singelo presente. Ela deve me amar na mesma proporção que a amo, pois me nega tudo diariamente, desafiando. Eu sinto, em meus bigodes e nos meus pelos alaranjados, a sonora negativa imposta por sua voz. Agora, colocar essa barreira entre nós, enquanto diz: Não arranhe o sofá, já é demais. Desconfio, será que é possível que ela esteja me impedindo de fazê-la sorrir? Duvido.

15 de out. de 2020

Pela inutilidade da vida

Por Allyne Fiorentino

Você sabia que a lagartixa come mosquitos, baratas e outros bichinhos que podem transmitir doenças aos seres humanos? Sabia, também, que ela não oferece nenhum risco à nossa saúde? Pode fazer um carinho nela se quiser, nada te impede de ter uma relação mais próxima com a bichinha, a não ser que sua avó tenha dito que se tocar na lagartixa pega “cobreiro”. Sempre achei que “lagartixeiro” seria um nome mais apropriado para essa lenda.

A abelha também, a maioria delas não tem ferrão, então elas não podem fazer nada pra te machucar e são extremamente importantes no processo de polinização. Mas aposto que você logo pensou na abelha africana, aquela amarelinha, que tem um ferrão, que aliás ela adia muito para usar em você, já que é a sentença de morte pra ela. 

Ah você tem aflição se uma abelha sem ferrão pousar em você? Bom, eu sugiro que comece a treinar para perder esse medo do toque físico. Muito antes de qualquer pandemia já tínhamos perdido o hábito de tocar as pessoas, abraçá-las... olhar nos olhos então, nem se fala... quando foi a última vez que você olhou verdadeiramente e sem receio nos olhos de alguém por mais de 5 segundos? Acho que o que nos falta são os toques físicos e os olhares profundos, com bichos selvagem e com bicho humano.

Os sapos também entram na jogada, aqueles sapos verruguentos que encontramos na fazenda também comem moscas, mosquitos e bichinhos que nos fariam mal. Então, apesar de você achá-los feios e nojentos (o que bem pode ser recíproco do sapo em relação a você), não há motivos para matá-los e nem ter medo deles. “Mas o xixi do sapo, se espirrar no olho, cega”. E você já conheceu alguém com cegueira de sapo?

Ao continuar essa amarga saga sociológica a que nos obrigamos todos os dias nas redes sociais, passei inúmeras vezes por postagens que tinham mais ou menos o mesmo intuito que esses primeiros parágrafos, entretanto com menos informação e uma persuasão mais direta: “não matem esses animais” – eles dizem – e prevendo a nossa miséria como seres humanos incapazes de saber o valor da vida, eles completam: “porque eles são úteis para você!”.

Com essa barganha pela vida eu finalmente entendo que tipo de ser humano nos tornamos ao longo do tempo. Talvez não esteja claro para o leitor ainda, mas imagine-se em um filme de guerra ao estilo hollywood, você com a arma na mão matando seus inimigos, sentindo-se o próprio salvador da pátria por dizimar seus semelhantes, e, de repente, surge uma criança implorando clemência. Você olha para ela e diz: se eu te deixar viver, o que eu ganho com isso? Eis a aplicação da utilidade imediata da vida.

Não me espanta ter saído essa semana aquele comentário de um popular dizendo: “Mas pra que serve onça?” “Se estão morrendo no Pantanal, que falta nos farão?”. Do ponto de vista da onça, ela poderia pensar o mesmo sobre nós. A diferença é que ela acharia bons motivos para que fôssemos extintos, já que somos uma espécie extremamente violenta, cruel e destruidora.

Mas nós temos os cães e os gatos, que substituem nossa incapacidade de amar outros seres humanos de forma sincera. Quanto mais nos afundamos na crença da desvalorização das vidas, o que nos levará a uma guerra civil em poucos anos, mais acreditamos que somos capazes de amar apenas os animais domésticos. Não qualquer animal: só os domesticados, adestrados, fofos, engraçadinhos, carentes, dóceis, submissos... Há leis que os protegem devido a sua grande “utilidade” para os seres humanos. Agora é fácil entender porque a lei que protege os animais feios, agressivos, selvagens, peçonhentos, venenosos, livres e “inúteis” a nós não é levada a sério apesar de existir.

Foto: Sebastião Salgado

Sentindo essa impotência tão grande diante da matança de animais e de flora, nós queremos desesperadamente nos enganar, mas sabemos que essa “lógica da utilidade” é aplicada a tudo, inclusive a vidas humanas. Se um ser humano é considerado sem utilidade imediata para o sistema que criamos para nos oprimir, sem nenhum pudor chega-se à conclusão de que ele não deveria existir.

Tentamos desesperadamente não pensar muito nisso, trabalhamos o bastante para que não sejamos considerados inúteis e, portanto, descartáveis para a sociedade, mas o que escondemos bem no fundo da nossa consciência é a verdade que todos sabemos: somos todos inúteis.

E temos medo de assumir que essa inutilidade da vida é o que a torna verdadeiramente importante. É impossível colocar um preço em uma coisa inútil, eis o seu verdadeiro e mais sólido valor.    

Apesar de tudo, pelas redes eu conheci um homem que salvou uma lagartixa. Em sua postagem, ele contava que ela caiu na cola e as patinhas ficaram grudadas. Com um algodão e azeite de oliva, ele pacientemente limpou cada minúscula patinha. Ela não tinha nenhuma utilidade pra ele.

Um dia, quem sabe, nossas mãos cheias de sangue poderão ser limpas em azeite virgem e seguiremos vivendo inutilmente... verdadeiramente... 

14 de out. de 2020

Ponto final

Por Glênio Cabral

__ Está decidido! Vou por um ponto final nessa relação!

E lá vai ele, o fatigado ponto final, saindo da gramática normativa e caindo direto na realidade árida das relações humanas. Que fardo pesado para um pobre ponto! Seu trabalho é finalizar uma frase, um período, uma narrativa, mas uma relação?! É justo exigir isso de um ponto?  

Ah, mas nós, seres não pertencentes à gramática, apreciamos fazer isso. Basta o desejo de dar um fim a alguma coisa, a qualquer coisa, e pronto, já vamos arrancando, com violência, o pobre ponto do seu habitat natural. 

“Deixem-me na gramática!”, quase ouço o ponto, desesperado, gritar. “Não me metam em suas complexidades!”

E de forma filosoficamente cínica, lhe respondemos que, infelizmente, pra tudo nessa vida há um ponto final correspondente. Tem ponto final pra casamento, pra namoro, pra noivado, pra paciência, pra segurança, pra convivência, pra harmonia, pro exercício do poder... É só chegar o limite, o auge das forças, o desgaste, o desencanto, e arrancamos o ponto do seu mundinho gráfico pra encerrar alguma coisa do lado de cá. 

Não se sabe se um ponto tem sentimentos. Talvez tenha. Talvez fique triste por finalizar, vez por outra, uma amizade, uma história de sucesso. Talvez.

Mas o fato é que tudo nessa vida tem um fim. E, conforme uma vez me confidenciou um desses sinais que finalizam períodos, não é pelo fim que se deve chorar, mas pela forma como a coisa toda acaba.

Alguns finais surgem de repente, o ponto pingando do nada, dando a impressão que a narrativa se estenderia por parágrafos a fio. É quando fica aquele gosto de quero mais, aquela saudade das frases, dos períodos, das narrativas, da ficção que de tão fascinante se mistura ao nosso mundo, nos arrancando dessa realidade patética, arrebatando-nos por inteiro. 

Mas também há finais decadentes. Frases que ficam soltas, sem nenhum sentido, desesperadas por desejarem continuar na escrita da vida, mas impedidas pelo ponto que se impõe, aliás, que foi imposto. E quando ele pinga na vida, a história encerra do jeito que estiver sendo escrita. E aí, você sabe, a última impressão, ou a última escrita, é a que fica.

Dura sina essa do ponto final. Finalizar na gramática e na vida. 

E ponto final.

11 de out. de 2020

‘Amor & Gelato’ – Uma história bem italiana

Por Iasmim Assunção

Amor & Gelato foi publicado no Brasil pela editora Intrínseca em julho de 2017. A autora, Jenna Evans Welch, passou sua adolescência na Itália, passeando de scooter e tomando mais gelato do que deveria. Hoje ela vive nos Estados Unidos, em Salt Lake City, com o marido e o filho.

O romance conta a história de Carolina, que fez uma promessa a sua falecida mãe de encontrar seu pai. Lina ainda está abalada com a morte da mãe e não fica nada feliz em deixar os Estados Unidos para morar com um cara estranho, ainda que fosse na Itália. No primeiro dia que passa em Florença, já quer ir embora. Howard, o cara estranho, é o administrador de um cemitério de soldados da Segunda Guerra Mundial que recebe constantes visitas, e morar em uma casa rodeada por túmulos não deixa Lina contente.

Assim que Carolina chega em sua nova moradia, a assistente de Howard, que também é uma antiga amiga da mãe de Lina, entrega um diário para a garota. O diário pertencia a mãe de Lina e conta a história da falecida mulher enquanto morou em Florença. Com relutância no início, Carolina embarca na aventura para saber mais sobre o que levou ao trágico final de sua mãe com o homem que amava.

Em uma de suas corridas matinais pela propriedade, Carolina conhece Ren, apelido para Lorenzo, seu vizinho que mora em uma casa de doces. Antes de receber o diário, Lina não estava interessada em aproveitar as belezas arquitetônicas, mas com o suporte de Ren, os dois vão recriando a trajetória da mãe de Carolina em Florença enquanto tentam desvendar as milhares de perguntas que surgem conforme leem o diário. Howard havia matriculado a garota na escola, no caso de ela querer ficar mais do que só um verão. É por isso que Ren já tinha ouvido sobre Lina, pois todos comentavam a chegada de uma nova garota na escola. Assim, Ren ajuda Lina a se enturmar com seus colegas de classe em festas de colegial italiano. Daí nasce uma amizade divertida entre Lina e Ren.

O livro também gira em torno dos dois possíveis pretendentes que dividem o coração de Lina, mas a parte do mistério sobre a mãe e a verdadeira paternidade de Carolina é mais interessante, pois conforme ela lê o diário, os leitores também leem fragmentos dele. Ren é um menino muito fofo e está sempre apoiando Lina, mas não há uma química significativa entre eles. Era uma boa amizade que foi arruinada com a necessidade de enfiar romance em tudo.

Ainda há Thomas, um intercambista britânico que emana “bad boy vibes” e tinha tudo para ser um dos melhores personagens, com seus cabelos escuros e olhos azuis. Lina descreve Thomas como o menino mais lindo que já vira, mas a conexão entre eles é ainda pior.

Enfim, trata-se de uma boa história, mas com uma protagonista fraca como personagem. Lina não é divertida ou sarcástica, não tem uma personalidade forte, mas também não é tímida e quietinha. Ela é uma protagonista que seria secundária em qualquer outra história. Apesar de termos que considerar a morte de sua mãe, Lina é bem insuportável. Não consegue ter uma conversa com Howard para perguntar sobre o passado dele e de sua mãe; na verdade, ela foge dessa conversa e apenas lê o diário porque tem medo de ser enganada por um estranho que – convenhamos – é o melhor personagem. Lina tira conclusões precipitadas por causa da escrita (aliás, não existiria história sem esse diário) e ignora o homem que foi simpático e compreensivo desde o começo.

Uma coisa realmente interessante no romance é o cenário, porque, quem não gostaria de ir para a Itália? Mesmo que seja apenas na imaginação... A descrição que Jenna faz sobre as artes, as histórias culturais e os monumentos de Florença faz qualquer leitor se sentir naquele país. Nunca fiquei com tanta vontade de comer pizza e tomar um gelato. Como o livro mesmo diz: as pessoas vão à Itália por vários motivos, mas ficam por dois: amor & gelato. O romance traz muito da culturaitaliana de Florença

Apesar de tudo, é um livro leve e rápido, e eu leria apenas para desvendar os questionamentos do passado da mãe de Carolina. Clichês jovens são clássicos por uma razão: a fórmula criada para eles funciona. Se uma autora de romance adolescente quer fugir dessa fórmula, deve pensar muito bem para fazê-lo funcionar.


* Onde comprar o romance Amor & Gelato: Amazon.

** Livros podem ser enviados a’O Bule para serem resenhados, cabendo aos editores a seleção. Tratar pelo e-mail coisasprobule@gmail.com