27 de fev. de 2021

De açúcar

Por Cláudio B. Carlos

Salivar, diante da imagem, até não mais aguentar. E lambê-la. Toda. Dos impolutos pezinhos aos angélicos cabelos – incluindo a mimosa coroa. Lambê-la, até não mais poder. E mordê-la. Comê-la. Toda. Dos imaculados pés aos dourados cachinhos – incluindo o gracioso ornato da cabeça. Morder, com especial deleite, seus cândidos joelhinhos e as alvinhas e apetecíveis nádegas.

É pecado, padre? É? Devorar, assim, uma santinha (tão bonitinha!) de alfenim?


22 de fev. de 2021

Escrever é uma fórmula de sonhar possibilidades

Por Milton Rezende

A mim ensinou-me tudo 

“... e a monotonia da vida será para mim / como a recordação dos amores / que me não foram advindos, / ou dos triunfos que não haveriam / de ser meus”. (Fernando Pessoa)

O pouco que sei,

sei de o não saber,

mas só o de sentir

e nunca poder alcançar.


Tudo passou por mim

como as águas de enchente,

mas vi tudo fluir e o vazio

de nada reter nas mãos.


Se escrevo é só uma fórmula

de sonhar possibilidades

enormes, como se fossem

passos de uma criança deitada.

 

Breve e longínquo

“...você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e da solidão que em minha porta bate... eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, e na parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até em me mudar... lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.  (Edson Trindade/Tim Maia)

Breve, como breve é a luz da lua cheia

Durante o eclipse solar da vida humana.

 

Breve, como breve é a sombra da noite

Durante o sono da vida como um lençol.

 

Breve, como breve é o sonho do amor

Durante o intervalo das ilusões perdidas.

 

Breve, como breve é a existência do corpo

Durante o trajeto sobre o planeta terra.

 

Breve, como breve é a presença do espírito

Durante o convívio quando se pensa em anjos.

 

Longínquo, como longínqua é a essência dos seres

Durante o percurso no trafegar das ruas atribuladas.

 

Longínquo, como longínquo é tudo o que se vê

Durante o passeio da câmara em panorâmica no alto.

 

Longínquo, como longínqua é a felicidade íntima

Durante a procura pelo convívio ideal a mais de um.

 

Longínquo, como longínqua é a música do Yes

Durante o embalo da paixão não correspondida.

 

Longínquo, como longínqua é a ideia de um Deus

Durante o desespero batendo nas grades da prisão.

  

Antônimo de alegria

 “quem vive como eu não morre: / acaba, murcha, desvegeta-se.” (Fernando Pessoa)

 

No subterrâneo não adianta sorrir

Porque as nossas presas de marfim

Jamais verão a luz do dia ou o sol.

 

Eu estive nas cavernas por muitos anos

E durante todo esse período nunca recebi

Uma visita que não fosse trazendo a comida.

 

No isolamento não adianta existir

Porque os nossos sonhos dourados

Jamais saberão o que é reciprocidade.

 

Eu estive nas prisões por muito tempo

E durante todos esses anos nunca recebi

Uma notícia que não fosse de morte na família.

 

Na escuridão não adianta insistir

Porque os nossos olhos arregalados

Jamais avançarão além da cortina sem cor.

 

Eu estive nos cemitérios desde a adolescência

E durante toda a minha vida nunca recebi

Uma nota que não fosse de pesar e esquecimento.

  

Do livro O jardim simultâneo (Editora Penalux, 2013). Pedidos de exemplares pelo e-mail coisasprobule@gmail.com. Preço: R$ 44,00, com frete incluso.

20 de fev. de 2021

‘Aldeia dos mortos’, de Adriana Vieira Lomar

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

Uma grata surpresa descobrirmos obras que comportem considerações prévias antes de adentrarmos propriamente em suas páginas para análise de seus objetivos e meios. Quer a afirmativa anterior explicitar que, um texto em tais condições, propicia adicionais reflexões que não só desenvolvem ainda mais a mensagem textual, como provocam a ampliação do universo discursivo de seus autores. Isto, a nosso ver, contribui para a consecução de um dos maiores e mais nobres objetivos finais da Literatura: provocar o pensamento reflexivo.

Quando encontramos, então, uma obra que escapa aos padrões usuais de ficcionalização, melhor ainda, pois além de demonstrar a força criativa do autor, faz-nos lembrar de Umberto Eco em Seis passeios pelo bosque da ficção: “Se os mundos ficcionais são tão pequenos e ilusoriamente confortáveis, por que não criar mundos ficcionais tão complexos, contraditórios e provocantes quanto o mundo real?”.

Ao abrir as páginas de um romance, o leitor firma com o texto literário um contrato de consideração do ficcional, a fim de encontrar as verdades organizadas no cerne da obra, pois sabe que se trata de uma dada visão de mundo. É então que se estabelece o acordo tácito entre obra e leitor, com a mediação do autor – por meio da linguagem –, no trabalho contínuo de construção ficcional na porosidade com o real, ora na sua ampliação, ora no seu desvelamento. A transgressão da realidade que é o texto ficcional, cria uma sensibilidade do “estar no mundo” por meio do universo construído: sem, contudo, negligenciar a realidade da qual parte o texto literário.

Desta condição reflexiva é que o livro se torna uma verdade em si que – não sendo absoluta – incide na percepção do leitor para além das páginas. São esses toques e trocas entre ficção e realidade, de fulcral importância para assinalar o encontro entre leitor e obra, que, claro, parte do mundo tal qual vemos para construir um “admirável mundo novo”, em linguagem, sem adentrar, todavia, naquilo que poderia se compreender apenas como imitação do real. Dá-se o encanto porque a obra literária é um mundo em que cabe o que está neste, o que não se compreende ou se teme compreender, ou o que ainda não se disse sobre este.

Um admirável mundo novo se descortina ao leitor do romance Aldeia dos mortos, de Adriana Vieira Lomar, que nos apresenta um narrador em um estágio evolutivo que conhecemos como feto humano! Trata-se de uma obra complexa e permeada de provocações. Provocações muito, muito oportunas neste momento que vivemos. Partindo da premissa de que o feto tem consciência de si e dos outros – o que implica a preexistência da alma ou do espírito, como queiram –, que há vínculos indissolúveis entre ele e sua ancestralidade via experiências pretéritas, e de que a memória lhe está parcialmente obliterada, mas ainda assim sente e pensa, ainda que em graus variados de nitidez que vão se afinando ao longo do tempo de refúgio no útero materno, a autora abala consciências, certezas e crenças. Subverte de partida a condição do pensamento materialista, e segue demolindo noções cartesianas de tempo e espaço sem, no entanto, impor verdades. Sugere-as de tal modo e com uma habilidade narrativa que encanta o leitor, planta sementes de outras possibilidades de consciência quanto à questão da existência humana. 

O feto vai à princípio tomando consciência de si e começa a perceber cada vez com mais nitidez a ambiência onde está e na qual se desenvolve materialmente. Sente cheiros e os toques carinhosos da mãe, até que um belo dia “um peso abala a estrutura” de onde está, porque sente os efeitos do sofrimento da mãe quando esta diz que o irmão dela foi assassinado.

Compreensível que aquele ser fique boa parte do tempo "inconsciente", porque o órgão de manifestação dessa consciência – o cérebro – está em processo de formação e, assim sendo, dorme em pesada letargia, mas sonha, e nesses momentos, toda uma história paralela se desenvolve porque consegue aos poucos reaver recordações do passado e sua mente vai paulatinamente provendo-se de conceitos e pensamentos acerca de si. E quem poderá provar por A mais B que assim não é de fato na vida humana? Conseguimos que um astronauta russo chegasse ao espaço em 12/04/1961 (como está referenciado no livro) e, no entanto, o homem permanece interiormente esse desconhecido.

Com a ajuda de uma misteriosa mulher que vê sentada “no banco de algum lugar”, o feto em sonho retoma a herança de si mesmo, mas já dentro da estrutura psicológica em que se encontra, reavendo o patrimônio das realizações e das dúvidas que acumulou, a se lhe regravarem no ser, em forma de tendências inatas, e passa a reencontrar as pessoas e as circunstâncias, as simpatias e as aversões, as vantagens e as dificuldades, com as quais se acha afinizado. Ou simplesmente acompanha a história de seus antepassados, história essa que a criatividade da autora moldou dentro de datas simbólicas que oscilam entre 13/10/1968 – data em que falece o poeta Manuel Bandeira – e 16/12/1976, quando ocorre uma chacina na Lapa em São Paulo. Temos aí a ancoragem no real que nos situa bem em cheio na época que passou a história brasileira, como a época nebulosa da ditadura militar no Brasil. E toda essa circunstância está de alguma forma ligada ao assassinato de seu tio. Este fato norteará as suas preocupações de descobrir como aconteceu e, veja-se o nível de consciência, se poderia fazer algo para evitar aquele acontecimento nefasto.    

A “Aldeia dos mortos” passa a existir, em última instância, não no casarão de número 89 no alto da íngreme ladeira dos martírios. É, em verdade, uma grande metáfora de nosso país e do nefasto período de uma sociedade enfraquecida na base, pela falta de sólidos fundamentos morais, de que é exemplo gritante o capítulo “o casamento de tio Arthur” (p. 130), que desvela a tônica social, permeada de jogos de interesses e de relações de poder no daquele tempo. Vejamos por quê. Entenda-se que há um recuo no tempo em que o feto presencia esses acontecimentos. Tio Arthur, irmão de sua mãe, vai se casar. Lia, a governanta do casarão, “prepara suco de maracujá para Bernadete: Bastante açúcar e meio litro do frasco de suco de maracujá com alface. Ela adormece com cara de anjo e a festa prossegue.”  Anote-se que Bernadete é filha de uma empregada doméstica, uma deserdada da sorte sem pai, sem mãe, que foi afinal adotada por Vó do Caco – a matriarca da família. E Bernadete é o que popularmente conhecemos como ‘chave de cadeia”, um ser completamente desajustado e revoltado que precisa de controle a todo custo. Resultado? Tome-lhe suco de maracujá goela abaixo. Mais adiante encontramos “na mesa principal, Vó do Caco com as tias endinheiradas com seus maridos e filhos”. Mais adiante; “hoje é um dia memorável. Eles dançam. O ritmo de suas pernas se contrapõe ao que ocorre fora daqui. Os militares marcham com pés rígidos e opressores.” Lemos na sequência lembranças de uma das convivas, conversando com uma de suas irmãs sobre o pai:

“__ Ele falava de tudo. Lembra quando você se apaixonou e o que ele disse?

__ Que eu ficaria molhada. Agora vê, ela nunca falou de sexo conosco. E ele achava a coisa mais natural do mundo. Naquela época, e até hoje em dia, isso seria um espanto.”

E finalmente, o capítulo se encerra com: “Muda, Vó do Caco fica na querência; não insiste. Quem sabe Padre Nelson não consegue convencê-la, pensa. Já já ele chega. A esta altura, está proferindo o sermão.”

Temos aí o quadro perfeito de nossa sociedade de então. Os deserdados da ‘sorte’ amansados na base de suquinho de maracujá para que a festa dos ricos seja possível, estes indiferentes a curtir suas vidas mesquinhas, sexualidade desorientada, pés rígidos e opressores a marchar e, finalmente, o sermão da igreja! Que beleza! Tudo em apenas quatro páginas de um capítulo!

Cabem mais algumas observações finais a essa obra de desfecho surpreendente. A porosidade que a autora estabelece entre a ficção e a realidade deve ser observada do ponto de vista contextual e flexível, de modo a construir um maior refinamento de nossa percepção tanto no que diz respeito à história da sociedade como um todo, quanto às questões existenciais do feto que afinal sabemos tratar-se de uma mulher.

Esta circunstância não exclui a capacidade de contemplação crítica da obra porque não se trata de uma ação en passant, de modo que o leitor aceite todas as colocações do texto como verdade legítima ao mundo empírico. O leitor encontrará ecos de provocações e de ampliação do nosso entorno social ainda hoje, posto que, como função possível do texto ficcional, pode-se listar a de desvelar as práticas que orientam – em linguagem – as ações humanas. Uma leitura de mundo que vai além deste, pois amplia nossa capacidade de reflexão do “estar” no mundo. A obra tem – entre tantos outros fitos – o fito de construir a ampliação acerca de ‘verdades’ circunscritas nas práticas sociais referenciadas. E positivamente, é o que acontece neste belíssimo romance.

18 de fev. de 2021

Consultório médico

Por Ricardo Novais

Leitor, já teve saudade do passado? Mas não falo da depressão advinda da contemplação da vida alheia. É uma saudade imaginária, tão imaginária que se torna real.

Quatro horas da tarde, sol. Uma bela tarde. Encontro minha mulher. Ela é gostosa, mas não sei se ainda gosto dela. Às vezes, a companhia de alguém é melhor do que estar sozinho; concorda? Quem está sozinho está sempre em má companhia.

__ Juliano? Você está atrasado, meu!

Um grito alto, eu não disse nada. Naquele momento, eu estava de saco cheio. Foi difícil sair mais cedo do trabalho para ir ao maldito médico que atestaria minha filantrópica herança ou minha desgraça eterna: um filho. Os ginecologistas são os humoristas da medicina, reduzem nossa vida ao deslumbramento e retiram, habilmente, o dinheiro do nosso bolso.

__ Deite-se com a barriga para cima, dona Adriana. – disse o ginecologista rindo, mecanicamente, e dirigiu-se para o radiologista. – Vamos já fazer os procedimentos...

Enquanto uma enfermeira melecou todo o ventre, o casulo do bebê, com um gel de aspecto plástico e o radiologista ajustou o aparelho de exame ultrassonográfico, Adriana não parou de falar. Perguntou o que eu achava da gravidez, se estava tudo bem comigo, o que eu estava sentindo, se eu preferia menino ou menina, se eu estava feliz, com medo, se seríamos bons pais; um humor melancólico se apossou de mim. Posso dizer que sim, leitor, eu queria ter um filho com aquela mulher, e, no entanto, não gostava da ideia de ter um filho. Não me aproximei, sequer segurei a mão de Adriana. Não a amparei naquela sala. Fiquei a olhando observando a certa distância, sentado em uma cadeira ordinária de consultório médico. Ela tornou a puxar conversa, sorriu; eu devolvi o sorriso, sem dizer palavra. Não que eu seja tão frio às emoções maternas e aos cálculos da vida, senhor leitor e dona leitora, mas tinha vontade de ir embora, sair correndo.

Acabou. Não deu para ver nada no monitor do aparelho de ultrassonografia além de um imenso pensamento escuro que se mexeu frenético e misteriosamente. O passado tomou conta de minhas entranhas e parou no estômago. Cena em câmera lenta, a angústia de pensar no futuro... Mas, ora!, caro leitor, pensei errado. Refaço o pensamento e percebo que o futuro é o único lugar onde nossos negócios prosperam e nossa felicidade é assegurada; concorda?

Adriana falou, falou, falou; e não me ouviu. O tédio descrito por Flaubert pode ser isto, uma aranha que tece sua teia nos cantos do coração e não ouve ninguém. Saímos pelo complexo hospitalar, fomos jantar no restaurante do centro da cidade. Jantamos bem. Paguei a conta. Entramos no carro. Vinte quilômetros de ideias desconexas depois, chegamos em nossa casa. Caminhamos em silêncio. Em seguida, ela voltou a falar contente. Sentamos no sofá da sala de estar. Olhares reflexivos que bateram na parede e voltaram fizeram um assovio assombroso no ambiente. Um ano e três meses de casamento, minha amiga leitora. Um ano e três meses... Que apatia da vida! O ânimo de viver tem certas abstenções.

Quando eu tinha dez anos, meu pai me perguntou o que eu queria ser quando crescesse, eu não soube lhe responder. Talvez eu quisesse ser astronauta, jogador de futebol ou um homem rico. Percebo que eu só precisava de uma máquina do tempo. Se eu pudesse voltar ao passado jamais retornaria ao futuro, muito menos ao presente.

__ Eu te amo, Juliano!

__ Também te amo, Adriana!

__ Amor? Vou ligar para mamãe e dizer que vamos ter um filho...

__ Não ligue! Vou pedir o divórcio.

Ela chorou, foi para o quarto e dormiu. Eu bebi três ou quatro doses de uísque vagabundo sem gelo, fiquei assistindo televisão até quatro e pouco da manhã, e, sobriamente, faltei no trabalho. Pedi demissão, larguei minha casa e fui morar em um flat alugado. Deixei o presente por causa do passado. E que laços irônicos faz a vida, meu caro, que dá certos nós no pretérito do destino decidindo a sorte em uma sala de consultório médico; se ao menos fosse em um bilhete de loteria... Do futuro, meu filho já tem quatro anos.

16 de fev. de 2021

O melhor céu da sua memória

Por Adrianna Alberti

Interior

Bois e vacas pontilhavam, dividindo a paisagem com cupinzeiros altos e marrons. Quando as árvores da margem começaram a surgir, cedendo uma sombra gostosa, entrou na estradinha de terra, daquelas empoeiradas, cheia de buracos. Tudo trepidava. O GPS já não funcionava. Ficaram apenas na indicação do tio: reto toda vida, depois do bar do Zé, terceira chacrinha, com o flamboyant na entrada. A casa era só quartão e banheiro, a varanda de cimento batido. Depois do barranco o rio turvo e os bancos de areia. Cheirou o mato e observou a imensa teia de aranha entre as árvores frutíferas. Se controlou para não gritar com o sapo-boi no banheiro de noite.

  

O quintal do inferno

O primeiro mês foi sofrimento. Noites quentes, o ar morno e seco, a roupa sempre molhada, cheia de suor nojento. Sofreu com um ventiladorzinho barato e fraco, aprendeu a molhar a toalha para umidificar, mas depois se tornou uma cobertura encharcada para tentar amenizar os mais de 38 graus. Achou que não poderia piorar. Até visitar a cidade mais ao norte. Lá onde se nada no ar de tão úmido. A sombra bem-vinda era o espaço perfeito para as gotas de transpiração escorrerem pelas costas, calças poderiam ser descartadas – era uma questão de necessidade. No rio não se via a margem do outro lado. O povo do sotaque diferente, sorridente, mas quem poderia ser feliz em um lugar onde faz 45 graus na sombra?

  

Um céu de desejos

A casinha era de madeira, onde se poderia ver vãos entre um cômodo e outro, pequena, colorida, tábuas rosas em um quarto, marrom dourado na cozinha. O quintal era terra batida, poeira, arbustos e ervas. O cheiro do pão a acordou, surpresa, esquecida naquele quinhão sul-mato-grossense. Durante o dia, toras e madeiras velhas foram unidas na frente da varanda da entrada. O vinho sangue-de-boi barato, ralo, inesquecível. Os bancos eram duros, sem encosto, perfeitos. O fogo estalava, de hora em hora alguém o cutucava para não apagar. Acima um azul-escuro pontilhado de estrelas. Vez e outra uma estrela cadente se fazia presente. Faz um pedido, alguém dizia. Não houve melhor céu em sua memória.

13 de fev. de 2021

O universo genial de Julia Quinn: um pouco sobre o primeiro livro da coleção 'Os Rokesbys'

Por Iasmim Assunção

Bridgerton, nova série da Netflix, vem se popularizando cada vez mais. A produção já se tornou a maior série do serviço de streaming, com 82 milhões de telespectadores em seu primeiro mês de estreia. O roteiro é baseado nos nove livros de época da autora Julia Quinn, a coleção “The Bridgertons”. Cada livro conta a busca por amor dos oito irmãos Bridgerton, nomeados em ordem alfabética do A ao H, no século XIX; mas os livros não são na mesma ordem de nascimento deles. Além disso, o último se trata de uma coletânea de contos sobre os irmãos e seus respectivos pares, além de um capítulo extra sobre a matriarca Violet.

Julia começou a publicar sobre essa família a partir de 2000, se tornando então uma best seller. Apenas em 2018, publicado no Brasil pela Editora Arqueiro, conheceríamos os vizinhos dos Bridgertons, mas de uma geração anterior da família mais fértil da alta sociedade. Os Rokesbys se passa trinta anos antes do primeiro livro com Daphne Bridgerton, e nessa coleção podemos até ver os primeiros filhos de Violet e Edmund Bridgerton (Anthony, Benedict e Colin) crescendo e a família aumentando ano após ano.

Os Rokesbys são quatro irmãos e uma mulher: George é o mais velho, herdeiro do título. Então vem Edward e Andrew, um militar que foi lutar na guerra nos Estados Unidos e outro que estava na Marinha. Nicholas é o mais novo e o arteiro da família. Mary é a mulher Rokesby, mas não tem seu próprio livro.

No primeiro livro da coleção, acompanhamos George Rokesby e Billie Bridgerton. Billie também é a mais velha dos irmãos Bridgerton, mas por ser mulher, não será viscondessa. Billie não se comporta como uma dama deveria: a moça pratica tiro, caça, pesca, usa calças e até cuida das colheitas. É extrovertida, corajosa e adora aventuras perigosas! Para Billie, é ela quem deveria cuidar das propriedades da família, porque era seu sonho. Ela não gostava nem um pouco da ideia de dar seu sonho ao irmão que ajudara a trocar as fraldas, Edmund (que mais tarde seria o pai das crianças ordenadas alfabeticamente).

Já George era diferente, se sentia assim. Ele era reservado, tímido, apesar de presunçoso, e bem mais velho do que o próximo irmão, Edward. George tinha responsabilidades desde o dia em que nascera, mas as odiava. Ele se sentia impotente vendo os irmãos indo para a guerra, sendo que ele não poderia se arriscar para honrar seu país. Billie pensava nele como arrogante e irritante, mas porque não o conhecia como conhecia o bem-humorado Edward ou o simpático Andrew. Era claro para todos que Billie um dia se casaria com um Rokesby, por suas famílias serem sempre tão unidas, e ela aceitara seu destino. Mas esse Rokesby devia ser Edward.

Quando Billie vai salvar um gato do telhado de sua casa e acaba ficando presa por horas, ela não desiste de gritar por ajuda. Para sua infelicidade, o homem que apareceu com um sorriso debochado no rosto e os braços cruzados era George, quem ela odiava. A história entre eles começa quando George deixa a escada cair ao tentar salvar a moça e acaba ficando preso no telhado junto a ela. No entanto, Billie torceu o próprio pé ao escalar o telhado antes de George chegar, e o pequeno acidente levou os dois a passarem muito tempo juntos, pois ele é quem teve de carregá-la após finalmente descerem do topo da casa, mesmo que nenhum sentisse a mínima vontade de conversar um com o outro.

Billie não é delicada e cheia de formalidades, o que deixa os diálogos entre ela e George cheios de farpas. Julia Quinn, como sempre, consegue que nos apaixonemos por qualquer personagem de seu desejo. Billie e George são teimosos, têm a cabeça-dura e não admitem para si mesmos que apreciam a companhia do outro. Não poderiam, depois de tantos anos dando respostas ríspidas. George via a menina fora dos padrões como algum tipo de aberração, mesmo que se importasse com ela o suficiente para não usar o adjetivo no pior significado possível.

Entre os leitores, há uma comparação entre Billie Bridgerton e Eloise Bridgerton, sua sobrinha, e George Rokesby e Anthony Bridgerton. Porém, cada personagem é único. Diferente de Anthony, George não era o libertino que sabia falar com mulheres. Depois que se abre, o mais velho dos Rokesbys é o mais fofo dos homens. Ainda que haja uma diferença de trinta anos entre as histórias, Billie conseguiu ser mais livre e singular do que Eloise. Se a alta sociedade fez alguma coisa, foi se tornar mais rigorosa. Além de que Billie vivia no campo e nunca fora uma debutante na capital.

Como o destino pode ser um tanto inusitado, George e Billie tendem a surpreender a todos e eles mesmos quando começam a nutrir sentimentos um pelo outro. Começa a surgir uma relação de cumplicidade quando os dois deixam o orgulho de lado.

Foi uma surpresa para os fãs experimentar um gostinho dos Bridgertons passados, mas os novos livros são tão divertidos quanto. Vemos até a origem do famoso taco da morte de Anthony Bridgerton em Uma dama fora dos padrões. E para quem sentir saudade dos irmãos que já conhecemos, há várias cenas do trio beligerante ABC nos livros três e quatro dos Rokesbys. Exceto que Anthony, Benedict e Colin ainda são pequeninos, mas a maioria das cenas traz a essência dos adultos: Anthony sentado em cima da cabeça de Benedict, Benedict revidando e usando a altura em sua vantagem, e Violet Bridgerton reclamando que o Colin bebê não para de comer!

Na primeira página de Uma dama fora dos padrões, Julia Quinn dá aos leitores dez razões para lê-lo. E o livro atende às expectativas dos romances de época tão adorados, carregados de momentos emocionantes e instigantes, que nos fazem prender o ar. E momentos que nos fazem rir com os costumes da família Rokesby que não conhecíamos antes: como os jantares com todos os Bridgertons aos finais de semana; ou Andrew, machucado da batalha e se recuperando em casa, incomodando George e Billie e aproximando os dois sem que percebessem.

Os laços de família construídos pela autora são encantadores e trazem um acréscimo a mais para a história do que o foco completamente nos protagonistas.

30 de jan. de 2021

A elegância do diabo & outras histórias

Por Adrianna Alberti

Sobre suas asas

A pele pareceu desbotada pela maquiagem pesada, a cor rubra vinda do alto descorando o tom original. Aqueles olhos afiados escondiam essa espécie de segredo, um mistério indecifrável que ela sequer ousava tentar entender. Ao contrário, resolveu residir em pecado na miragem da curva daqueles lábios, com a certeza de que estava no lugar errado, aguardando, estarrecida, a surpresa que sempre a atingia, passo após passo. O movimento firme daquele corpo tão forte quanto delicado, movendo-se em giros e saltos exatos a congelou no lugar. Ela estava consciente de que não teria mais uma escolha no momento que leu os movimentos fluídos como fazia com a poesia. Sua mente foi cimentada no encanto de que anjos não voavam, dançavam para seu deleite.

 

Dois lados da moeda

Achou fofas as bochechas infladas com o biquinho teimoso, os olhos fechando-se em seguida em crescentes com a risada e a voz delicada que ressoou no ambiente, os cabelos cor-de-rosa combinavam com a aparência inocente. As letras miúdas da vida só não a prepararam para se condenar na mudança imediata, o par de olhos então afiados como os de um gato a observando, pode notar que pousava a própria mão no pescoço adornado com uma joia cara, os dedos abraçando suavemente o pescoço, enquanto os lábios rechonchudos eram desenhados com a língua úmida. Engoliu em seco, capaz de sentir em sua própria pele as sensações, as pernas fracas em resposta. Era um feitiço, não havia outra explicação.

  

A elegância do diabo

Vá para o inferno!, pensou, talvez a milésima vez em menos de oito meses ao se pegar novamente flagrando aquele ensaio. Talvez demônios prefiram cabelos em tons pastéis, lábios rosados e roupas delicadas. Não era masoquista, detestava a dor e a humilhação, mas lá estava, observando novamente de maneira incansável aqueles movimentos sinuosos e olhares que flertavam debochadamente – era assim em sua cabeça. Um segundo e o ombro surgia desnudo. Havia charme em só poder ver aquele pedaço minúsculo de pele. Sua alma, no entanto, foi embora no movimento seguinte, quando a rapidez deu lugar ao vislumbre da tatuagem nas costelas. Era assim que os homens se sentiam quando viam o tornozelo de uma mulher de relance?

27 de jan. de 2021

Réquiem para Adalberon

Por Cláudio B. Carlos

Cheguei, apeei do cavalo e lá estava ele, balançando, pendurado na velha figueira que como mão que protege, estendia os galhos sobre o rancho. O cusco me recebeu ganindo alvoroçadamente como que querendo me mostrar o dono enforcado. Galinhas, ao derredor da casa, ciscavam alheias. No fogão a lenha: uma chaleira com água e algumas brasas que preguiçosas se transformavam lentas em carvão. Depois da vala aberta o enrolei no poncho e o plantei próximo aos eucaliptos. Agora são duas cruzes ali: a da finada Dorvalina e a dele, onde depois de puxar pela memória algumas nênias, atei o lenço colorado. Montei a cavalo e a despacito fiz o trajeto inverso, trazendo comigo o peso do imenso vazio de quem perde um amigo. O cusco seguiu-me na modorra da tarde que se extinguia…

25 de jan. de 2021

Humano, demasiadamente humano

Por Rafael Gobbo


Ele estava sentado na cadeira, amarrado. A corda utilizada para imobilizá-lo estava levemente frouxa.  Seu corpo estava coberto de escoriações. O homem que o tinha encarcerado se aproximava com um bisturi na mão. Já utilizara o alicate, para arrancar suas unhas; já lhe esmurrara o rosto repetidas vezes; já lhe chicoteara as costas. Agora era a vez do bisturi.

Ao quase colar sua boca à orelha do aprisionado, o homem sussurrou:

— Nunca tive tanto prazer em machucar alguém como tenho agora. Obrigado por sofrer tão diligentemente. O medo que vejo em seus olhos me deixa cada vez mais excitado. Só para você saber, agora vou abrir sua coxa. Quero ver o quanto você aguenta antes de desmaiar, será só um pequeno cort…

O enlaçado cravou rapidamente seus dentes na jugular no algoz. O homem se contorceu desesperadamente, dando urros e mais urros de dor. Seu sangue começou a escorrer pela boca do prisioneiro. Quanto mais se contorcia, mais o enclausurado apertava os dentes. E não largava; não podia largar, sua vida dependia disso.

O homem começou a esmurrar a cabeça do amarrado para que o soltasse. Mesmo assim, ele não largava. Sentia as pancadas, achava que ia vacilar, mas retomava o esforço e não soltava o pescoço do outro. Enquanto mantinha os dentes bem fixados, pensava: “Não vou morrer aqui. Essa é minha única chance!”

Ao tentar se desvencilhar da mordida, o homem acabou perdendo o equilíbrio. Os dois caíram no chão. Mas o atado continuou com as presas cravadas no pescoço. Agora ele era o predador. Isso, apenas um animal lutando pela sobrevivência. Sentiu que o carcereiro perdia as forças; e o que tinha sido desespero, agonia, agora era calmaria. O homem mordido foi parando; sua respiração foi se esvaindo.

Ao cabo de alguns minutos (que pareceram intermináveis) o corpo do carrasco ainda se debateu fracamente, em pequenos espasmos, até tornar-se inerte de vez. Com a corda já menos apertada, conseguiu se soltar da cadeira e deixou o corpo do outro como estava: estirado no chão e com uma poça de sangue a escorrer da garganta.

Correu em direção à sala contígua, onde estavam sua esposa e filhos. Ufa, estavam bem; ele fora o primeiro e o único a ser torturado da família. Quem imaginaria que seriam sequestrados por um maníaco, um serial killer, e ficariam em cárcere privado por dias a fio? Quando saíram à rua, o sol feriu os olhos de todos, já desacostumados com a claridade, mas foi bom. Estavam vivos.

O sequestro e a fuga foram noticiados por dias — meses até — como os episódios mais importantes da cidade. O pai foi considerado herói e exemplo. No entanto, ele não se reconhecia assim. A mídia reclamava entrevistas, fotografias e mais informações sobre o que sucedera à família, mas ele se recusava a ceder. Continuar a existir era o suficiente.

Contudo, não havia mais alegria; pelo menos não para ele. Aos olhos dos outros, ele era um forte; aos seus, um ser aleijado, amputado; faltava uma parte. Em dias frios, a melancolia era quase insuportável. Sabia que tinha ultrapassado um limite. Tinha sangue alheio em suas mãos. Os flashes daquele dia fatídico causavam-lhe crises de choro.

 Quando se apartava dos filhos e evitava a esposa para ficar só — o que se tornou cada vez mais frequente —, no alto de sua dor, bradava em desespero:

 — Perdi minha humanidade. Sou apenas um bicho que matou para sobreviver e virou notícia, mas queria mais. Queria retornar a ser o que era!

 

Só o conseguiu anos depois, quando, um dia, ao olhar para o céu estrelado, entendeu que há coisas muito maiores que si mesmo: não era mais o mesmo — nunca mais o poderia ser —, mas voltou a ser humano, demasiadamente humano.


Rafael Gobbo é jornalista, escritor e músico amador. Com dois livros publicados: um de contos, Pancadas (Viseu, 2017), e outro de crônicas, A paixão de Vincent van Gogh (Coralina, 2020), o autor vem se dedicando atualmente à poesia. 

23 de jan. de 2021

O mundo desencantado de Desseres

Por Rogers Silva

A velha de olhar infantil disse que envelhecer dói, é uma dor que teoricamente em pouco tempo cessará, mas é dor clarividente, uma vez que não há mais ilusões juvenis. Após dizer isso se foi, e ninguém jamais a viu novamente. Seus sapatos foram encontrados a dois quilômetros de sua casa, onde morava sozinha. Estavam sujos, cheirando a papoulas.

O cego que bradava luz olhou sem enxergar para a menina de semblante triste e disse, se referindo à velha de olhar infantil: Conheci-a, nunca a vi – e sorriu –, porém soube através de suas palavras que era triste. Você também – completou, abaixando a cabeça. A menina de semblante triste sorriu tristemente, olhou para o lado e viu uma criança que chorava muito. Na ocasião não estava chorando. Disse a menina de semblante triste: Sou eu, sou eu quando era criança. Depois se voltou para trás e caminhou.

O cego que bradava luz, com a mão no peito, direcionando os inúteis olhos para o céu, amaldiçoando-o, esbravejou: luuuz!!! Então começou a chover. As lágrimas de Deus, achava o cego que bradava luz sob a chuva, se estão em diagonal é porque Ele está de cabeça baixa, chorando pelo projeto fracassado, este ser criado no sexto dia. A dor no peito, que em momento algum dava trégua, persistia, e por isso achou melhor ir embora, voltar para casa. Talvez desse um tiro na cabeça ou... sei lá.

O rapaz que não olhava nos olhos andava calmamente quando tropeçou no surdo e seus olhos de gato. Desculpas mútuas e simultâneas. O surdo e os seus olhos de gato ia à casa do mudo de gestos enfáticos. Lá conversariam no idioma deles e se entenderiam como seres que falam e ouvem jamais se entenderiam, visto que são egoístas e disputam para ver quem mais fala e menos ouve.

A velha de olhar infantil, por não aguentar a dor de envelhecer, resolveu que não deixaria os anos passarem e então procurou caminhos que lá, no Campo em que não se envelhece, dessem. Dizem que vagou eternamente, e vaga, pois eternamente não tem fim. E nunca envelheceu. A máxima Corpo jovem é corpo que funciona surgiu da lenda da velha de olhar infantil, avó da menina de semblante triste, que seria mãe da garota que perdeu a mãe.

Enquanto a Terra que gira gira, conversam, no idioma deles, o surdo e seus olhos de gato e o mudo de gestos enfáticos, filho do homem que detestava ser adulto. Pelas conversas resolvem que, amanhã mesmo, tentariam descobrir a cura para a surdez e a mudez. Prometeram que quando descobrissem não iriam conversar, talvez assim não ferissem os outros.

Outro que foi ferido e por isso não olhava mais nos olhos de ninguém, pois provavelmente iria feri-lo, era o rapaz que não olhava nos olhos. Achava que se voltasse a olhar nos olhos de alguém, e esse alguém fosse mulher, ficaria como o adolescente que foi traído pela primeira namorada, adolescente suicida, que chorou durante dois dias, sem parar, e suas lágrimas encheram duas bacias de prata. Quando as lágrimas acabaram, decidiu ir para a estrada de ferro. Calmamente, mas com muito medo, quando o trem apitava lá no horizonte, subiu nos trilhos. Anoitecia. Ventava.

A garota que foi acusada injustamente, ex-namorada do adolescente que foi traído pela primeira namorada, nunca se recuperou da tragédia. Jamais se alegrou, por nada, a garota que foi acusada injustamente. Em sua casa ninguém ria ou sorria: nem sua irmã, a garota que enlouqueceu por remorsos e raiva, nem seu pai, o cego que bradava luz, nem sua mãe, a dona-de-casa tão-somente da casa. Quando estavam todos juntos, cada um ia para seu quarto, cerrava as janelas e chorava, chorava por impotência. Por raiva. Por remorso. Por nada. Um dia, quando um esboço de um sorriso se mostrava no rosto da garota que foi acusada injustamente, ela, confusa, decidiu que não, jamais iria sorrir. Fora acusada injustamente. Não tinha direito de sorrir. Nunca mais. E assim ocorreu, até a sua morte, de velhice, aos noventa e três anos.

Sua mãe, a dona-de-casa tão-somente da casa, um dia, quando as filhas tinham vinte e vinte dois anos, se perguntou o que tinha feito, o que tinha construído na vida, e resolveu ir embora, abandonar o marido cego e as filhas, cada um com seu problema, com sua solidão. Deixou uma carta ao marido. Não seria vista novamente. Pois viveria na Antártida, gelo lá fora e aqui dentro, no seu coração. Morreria aos cinquenta e seis anos por conta de uma avalanche. Seu corpo nunca seria achado. Nem apodreceria.

Enquanto a menina de semblante triste caminhava, teoricamente rumo à sua casa, teoricamente pois lá não chegaria, uma vez que se perderia nos olhos do surdo e seus olhos de gato e se apaixonaria loucamente, paixão que doía, o jovem que era fissurado em carros, no seu quarto, inventava uma nave espacial na qual iria para a lua, porque aqui se frustrava a todo o momento por ver um carro e não poder comprá-lo.

Seu pai, o homem que detestava ser adulto, melancólico por saber que nunca mais seria menino, e raivoso porque um dos seus filhos nascera mudo, agora se desesperava ao ver o outro filho dentro de uma nave dando adeus, gestos lentos, entre espantado e feliz, indo embora, para onde, se perguntava, e se perguntaria o tempo todo, pois jamais poderia imaginar que o filho inventor iria para a lua, onde morreria.

A garota que enlouqueceu por remorsos e raiva não se conformava com o fato de o homem que amava, o adolescente que foi traído pela primeira namorada, ter se apaixonado pela irmã e não por ela, por que, e assim batia três vezes ao dia a cabeça contra a parede, em forma de protesto, um protesto tímido. Seria sua sina: bater a cabeça, pelo resto da vida, vida longa, de oitenta anos, na parede, parede dura.

O mudo de gestos enfáticos, além de não se dar bem com o pai, sofria por não entenderem os seus gestos, e então tentava, com ênfase nas mímicas, fazer as pessoas o ouvirem, mas não conseguia, visto que entendiam apenas símbolos matemáticos, nunca entenderiam um mudo de gestos enfáticos louco por comunicação. Vinte anos tentando se comunicar, e nada, quando resolveu abrir uma cova e se enterrar, anulando assim sua ânsia estéril.

O homem que detestava ser adulto, seu pai, por sua vez, enquanto cantava uma ópera com uma voz linda, percebeu subitamente que a vida não valia a pena. De raiva, aumentou o volume de sua voz, já potente. Aumentava. E quando atingiria a nota mais alta da escala, seu cérebro estourou. De dentro saíram dores em forma de notas musicais, a voarem, cada uma para um lado, distantes entre si, em direção ao céu, um céu rosado.

O rapaz que não olhava nos olhos até então conseguiu não olhar para outros olhos a não ser para aqueles responsáveis por sua sina, cabeça baixa, quando, fisgado por um pé feminino, instigado em saber de quem era o pé feminino, olhou medrosamente, e olhava medrosamente, até que perdeu o fôlego por causa do olhar direcionado ao seu e morreu, feliz, embora sua alma nunca fosse encontrada a fim de comprovar que realmente morreu feliz. O olhar era da mulher pela qual se apaixonara e em quem encontrara e encontrou, agora, um amor transcendente e mortal.

A criança que chorava muito cresceu e se transformou na menina de semblante triste, que, por seu turno, se apaixonou, paixão genuína, pelo surdo e seus olhos de gato. No primeiro encontro, fizeram amor sob um ipê-amarelo, flores a cair no casal se amando, e daí nasceu a garota que perdeu a mãe. A menina de semblante triste não se conformava: como podia o amor dela pelo marido, o surdo e seus olhos de gato, doer tanto? Todo amor dói? Como pode duas pessoas se amarem tanto, até a anulação mútua? Como pode? Desiludida com as respostas foi para a beira do mar, avistou uma gaivota lá longe, ínfimo branco sobreposto ao azul infinito, sorriu, quão belo é o mundo, quão bela é a vida, meu Deus, mas quão angustiante – e se jogou. As ondas a levaram, para onde, se perguntava a filha, a garota que perdeu a mãe, para onde, se perguntava o marido, o surdo e seus olhos de gato. Juntos, pai e filha, sempre unidos, se abraçaram até o fim da vida, chorando, porém se compadecendo, se completando, até o fim da vida, se perguntando, para onde, quando morreram coincidentemente no mesmo instante, como prometeram.

Enfim, sozinho no mundo, aos cento e trinta anos, o cego que bradava luz, pela milésima vez, o olhar ao alto, esbravejou com toda a sua força: luuuz!!! A luz saiu do seu âmago. Voou. A luz era sua alma.

22 de jan. de 2021

O meu lar não existe sequer em mim

Por Milton Rezende

 

Ódio

Ódio de tudo:

de ti, de

mim, da

sombra no

asfalto, das

conversas

dos vizinhos

comendo

churrasco e

arrotando

bobagens,

dos barulhos

no telhado,

da televisão

ligada em

programas

de auditório,

dos ruídos que

vem das ruas,

do ambiente

de trabalho, das

necessidades

fisiológicas dos

governantes, da

inteligência

pedindo

esmolas

aos agiotas,

dos restaurantes

abarrotados

(que raiva das

pessoas perfi-

ladas mastigando

qualquer carne),

ódio de tudo

e de todos,

neste momento

em que faço

uma análise

antes de deitar

o meu cansaço.

 

Home Sweet Home

Pensei enumerar aqui

todos os meus endereços:

as ruas, as casas, os bairros

o sítio e as cidades mineiras.

Prédios, altos e baixos, áreas

de escape, espaços, córner neutro;

as lojas, os quintais, os bares

e todos os locais de trabalho

que eu frequentei sem estar ali.

Mas já não me lembrava de

muitos deles – andei tanto e

não saí do estágio em que nasci.

Prefixos de telefones, mapas,

placas de carro, janelas, chaves,

portas, armários, quartos fechados,

as camas e os colchões onde dormi.

Vivi a minha vida sempre assim:

entre quatro paredes pintadas

ora de verde, de branco, de rosa

e infinidades de cores e situações.

Nunca me encontrei em nenhum

desses lugares e o meu lar

não existe sequer em mim.

 

Maria

O céu desaba sobre mim

com sua cara de fogo

e nuvens de cores,

num movimento frenético

no compasso do amor.

Quando terminarmos

e o sol e a lua e as estrelas

forem embora nas alturas,

eu voltarei a ser noite

ou terei incorporado luzes

suficientes para esperar

até a próxima vez?!


Do livro ‘Uma Escada que Deságua no Silêncio’ (Multifoco, 2009), esgotado.

20 de jan. de 2021

Um instante de boa literatura...

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

A tal aventura a que damos o nome de vida sempre a nos surpreender. Recebi há alguns dias uma encomenda dos Correios. O porteiro com um olhar meio ressabiado passou-me o envelope contendo um livro. Mas o admirável é que o tal envelope estava completamente avariado. Rasgado em vários pontos, como se tivesse sido violado, ou sofrido acidente grave ou, quem sabe ainda, ter sido saboreado pela mandíbula de algum cão raivoso. Alguém, entretanto, dele se apiedou e toscamente fez curativos com fita adesiva aqui e ali. Uma coisa anormal... muito. Ante meu estranhamento, o porteiro finalmente lançou-me um olhar que traduzi por: “nem pense que eu tive algo a ver com isto...”

Muito bem. O surpreendente continua porque aberto o envelope, encontrei o livro intacto, com uma bela capa reproduzindo a fotografia de um mar encrespado ameaçado por nuvens pesadas. No instante do céu é o título. Renato Tardivo seu autor. Sobrenome não de todo estranho na memória porque recordei de conversa recente que tive com Rogers Silva, editor da revista de literatura O Bule, na qual colaboro regularmente com crítica literária e textos de ficção. De fato, falamos vagamente sobre obra e autor...

 

E minha surpresa continua e aumenta quando da leitura da obra porque constato como um enredo muito simples pode estar pleno de denso conteúdo humano. Um menino, filho único de um casal de médicos, cresce solitário, sofre bullying na escola (por conta de uma ereção inopinada na adolescência é apelidado de ‘barraca’, imagine-se o sofrimento da criatura), e assiste a lenta decadência do casamento de seus pais. Quase podemos ouvir a voz perdida e circular do narrador em busca de si mesmo e dos outros a quem ama, sobretudo quanto à sua relação de afeto e conflitos com Beatriz, ou no forte e confuso apelo sexual que lhe causa a personagem Carolina e, finalmente, a ‘iluminação do novo’, que é o encontro com Iolanda. Neste jogo vamos desvendando sendas ocultas da formação do protagonista. Outra personagem marcante é Tia Sebá –  a vida sempre a surpreender ,  a doméstica que trabalhou  em sua casa desde que ele era criança/adolescente e que ao longo da vida foi alguém sempre ali, apoio à mão. Uma simples empregada doméstica que muitas vezes fez as vezes de mãe e pai.

 

Entretanto, a narrativa se fragmenta em dois eixos principais, dois focos narrativos que se alternam entre os capítulos. De um lado o homem do agora, relatando vivências do seu dia a dia. No capítulo seguinte o foco recai na formação do mesmo personagem e, através de hábil artifício, os capítulos convocam a cumplicidade do leitor porquanto o pronome “eu” é substituído pelo “você”. Você está assim, você passou por isto, você passou por esta ou aquela experiência traumática ou de descoberta, e assim por diante, de tal forma, e com tal engenho, que vai se construindo o romance de formação do protagonista que também nos fala aqui e agora (os contornos entre passado e presente diluem-se). Temos aí a conjugação da história do menino com a vida do homem caminhado juntas. Acresce a toda essa circunstância a ambientação do humano no redemoinho atual das redes sociais (são transcritas mensagens e imagens postadas no Instagram, Facebook e WhatsApp que, para além de contribuírem na composição do enredo, atestam o que afinal são as tais Redes Sociais: lugares publicamente estranhos, “onde todos são amigos mas quase nunca se sentem”.

 

O leitor ‘assiste’ a técnica cinematográfica de transmitir flashes da realidade como se apanhados por uma câmara de cinema. Observamos que, assim como no cinema, não há um registro sem controle, pelo contrário, existe alguém por trás dela – o autor , que seleciona e combina pela montagem as imagens a mostrar. E sob essa ‘lente’, podemos ter um ponto de vista onisciente, centrado no protagonista (lembramos que Tardivo é autor, entre outros, de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica, portanto sabe muito bem o que está fazendo).

 

Dessa técnica decorrem ainda as montagens – inclusive com visadas na vertente do empenho do protagonista em ser escritor de ficção –, os cortes bruscos, a simultaneidade de planos espaço-temporais, e podemos conferir, em síntese, a busca de uma subjetividade de base filosófica, como forma de minar o mandamento épico da objetividade, porque sabemos bem da impossibilidade de narrar, num mundo hoje reificado pelo domínio da mercadoria; da estandartização provocada pela produção em série e pelos meios de comunicação de massa redes sociais inclusive – , que tende a tudo homogeneizar na mediocridade. Nosso tempo é dividido e caótico, nem religião, nem o Estado e menos ainda a ciência conseguiram apaziguar a nossa insegurança e a nossa desconfiança. E os acontecimentos imersos em reflexões existenciais abalam a cronologia. Funde-se passado, presente e um futuro duvidoso não pode ser antevisto. O plano da consciência se estremece, e até o onírico invade a realidade como acontece no capítulo em que o protagonista sonha, ou imagina ter sonhado com a aparição de uma entidade misteriosa.

 

Toda essa  estratégia narrativa acaba por expor, de forma muito convincente, a relatividade que há na nossa percepção de espaço e tempo; desmascara-se o mundo epidérmico do senso comum, denunciado como simples aparência; a distensão temporal na alternância dos capítulos é revirada pelo avesso, pela fusão do presente com o passado, criando uma simultaneidade que altera radicalmente a estrutura da narrativa.

TRECHO:

“Você descobre que a primeira parte da travessia passa mais depressa. Toda viagem ocorre em perspectivismo infinito; então a segunda parte não existe. Aliás, nem a primeira. Quanto é metade do infinito? Infinito sobre dois? Meio infinito? Infinito multiplicado por 0,5? Há diversas formas de registrar aquilo que não existe. Aí está a (possibilidade de) salvação. Mas a palavra nem sempre dá conta. Há diversas formas de apagar aquilo que existe. Aqui, no espelho, as palavras são números, e números também não dão conta. Como mensurar em definitivo o intervalo entre um ponto e outro? Entre uma frase e outra? Uma palavra e outra? Uma letra e outra? Os números embaralham você. A física que aprendemos na escola é uma mentira. Mas e a física que outros aprendem na faculdade é uma verdade? Uma verdade pode até ser; a verdade, jamais.” p. 79-80.

Registro de ordem pessoal: devo acrescentar que não é mais da alçada da crítica literária (aliás, nunca deveria ter sido) a emissão de juízo de valor sobre obras e autores, entretanto não posso me furtar a afirmar que, surpreendentemente, aquele livro que me foi entregue em um envelope todo rasgado na portaria do prédio se constituiu afinal em uma das mais aprazíveis leituras que realizei no fatídico ano de 2020. No instante do céu é livro muito bem realizado, tanto no que tange à técnica da construção ficcional adotada, quanto à capacidade de criar certeira empatia com os leitores sobre tantas questões que vivenciamos hoje. Sobretudo quanto ao tema do amor que vai se elevando, veja-se só, a visadas tais como a de que “amar é ser testemunha de uma solidão”. É uma verdade; assim como é também passo importante para entendermos melhor como duas almas em suas carências existenciais podem construir sinceramente uma espécie de felicidade.             

Título: No instante do céu

Autor: Renato Tardivo

1ª edição

Editora Reformatório: São Paulo

ISBN: 978-65-88091-08-1