23 de jan. de 2021

O mundo desencantado de Desseres

Por Rogers Silva

A velha de olhar infantil disse que envelhecer dói, é uma dor que teoricamente em pouco tempo cessará, mas é dor clarividente, uma vez que não há mais ilusões juvenis. Após dizer isso se foi, e ninguém jamais a viu novamente. Seus sapatos foram encontrados a dois quilômetros de sua casa, onde morava sozinha. Estavam sujos, cheirando a papoulas.

O cego que bradava luz olhou sem enxergar para a menina de semblante triste e disse, se referindo à velha de olhar infantil: Conheci-a, nunca a vi – e sorriu –, porém soube através de suas palavras que era triste. Você também – completou, abaixando a cabeça. A menina de semblante triste sorriu tristemente, olhou para o lado e viu uma criança que chorava muito. Na ocasião não estava chorando. Disse a menina de semblante triste: Sou eu, sou eu quando era criança. Depois se voltou para trás e caminhou.

O cego que bradava luz, com a mão no peito, direcionando os inúteis olhos para o céu, amaldiçoando-o, esbravejou: luuuz!!! Então começou a chover. As lágrimas de Deus, achava o cego que bradava luz sob a chuva, se estão em diagonal é porque Ele está de cabeça baixa, chorando pelo projeto fracassado, este ser criado no sexto dia. A dor no peito, que em momento algum dava trégua, persistia, e por isso achou melhor ir embora, voltar para casa. Talvez desse um tiro na cabeça ou... sei lá.

O rapaz que não olhava nos olhos andava calmamente quando tropeçou no surdo e seus olhos de gato. Desculpas mútuas e simultâneas. O surdo e os seus olhos de gato ia à casa do mudo de gestos enfáticos. Lá conversariam no idioma deles e se entenderiam como seres que falam e ouvem jamais se entenderiam, visto que são egoístas e disputam para ver quem mais fala e menos ouve.

A velha de olhar infantil, por não aguentar a dor de envelhecer, resolveu que não deixaria os anos passarem e então procurou caminhos que lá, no Campo em que não se envelhece, dessem. Dizem que vagou eternamente, e vaga, pois eternamente não tem fim. E nunca envelheceu. A máxima Corpo jovem é corpo que funciona surgiu da lenda da velha de olhar infantil, avó da menina de semblante triste, que seria mãe da garota que perdeu a mãe.

Enquanto a Terra que gira gira, conversam, no idioma deles, o surdo e seus olhos de gato e o mudo de gestos enfáticos, filho do homem que detestava ser adulto. Pelas conversas resolvem que, amanhã mesmo, tentariam descobrir a cura para a surdez e a mudez. Prometeram que quando descobrissem não iriam conversar, talvez assim não ferissem os outros.

Outro que foi ferido e por isso não olhava mais nos olhos de ninguém, pois provavelmente iria feri-lo, era o rapaz que não olhava nos olhos. Achava que se voltasse a olhar nos olhos de alguém, e esse alguém fosse mulher, ficaria como o adolescente que foi traído pela primeira namorada, adolescente suicida, que chorou durante dois dias, sem parar, e suas lágrimas encheram duas bacias de prata. Quando as lágrimas acabaram, decidiu ir para a estrada de ferro. Calmamente, mas com muito medo, quando o trem apitava lá no horizonte, subiu nos trilhos. Anoitecia. Ventava.

A garota que foi acusada injustamente, ex-namorada do adolescente que foi traído pela primeira namorada, nunca se recuperou da tragédia. Jamais se alegrou, por nada, a garota que foi acusada injustamente. Em sua casa ninguém ria ou sorria: nem sua irmã, a garota que enlouqueceu por remorsos e raiva, nem seu pai, o cego que bradava luz, nem sua mãe, a dona-de-casa tão-somente da casa. Quando estavam todos juntos, cada um ia para seu quarto, cerrava as janelas e chorava, chorava por impotência. Por raiva. Por remorso. Por nada. Um dia, quando um esboço de um sorriso se mostrava no rosto da garota que foi acusada injustamente, ela, confusa, decidiu que não, jamais iria sorrir. Fora acusada injustamente. Não tinha direito de sorrir. Nunca mais. E assim ocorreu, até a sua morte, de velhice, aos noventa e três anos.

Sua mãe, a dona-de-casa tão-somente da casa, um dia, quando as filhas tinham vinte e vinte dois anos, se perguntou o que tinha feito, o que tinha construído na vida, e resolveu ir embora, abandonar o marido cego e as filhas, cada um com seu problema, com sua solidão. Deixou uma carta ao marido. Não seria vista novamente. Pois viveria na Antártida, gelo lá fora e aqui dentro, no seu coração. Morreria aos cinquenta e seis anos por conta de uma avalanche. Seu corpo nunca seria achado. Nem apodreceria.

Enquanto a menina de semblante triste caminhava, teoricamente rumo à sua casa, teoricamente pois lá não chegaria, uma vez que se perderia nos olhos do surdo e seus olhos de gato e se apaixonaria loucamente, paixão que doía, o jovem que era fissurado em carros, no seu quarto, inventava uma nave espacial na qual iria para a lua, porque aqui se frustrava a todo o momento por ver um carro e não poder comprá-lo.

Seu pai, o homem que detestava ser adulto, melancólico por saber que nunca mais seria menino, e raivoso porque um dos seus filhos nascera mudo, agora se desesperava ao ver o outro filho dentro de uma nave dando adeus, gestos lentos, entre espantado e feliz, indo embora, para onde, se perguntava, e se perguntaria o tempo todo, pois jamais poderia imaginar que o filho inventor iria para a lua, onde morreria.

A garota que enlouqueceu por remorsos e raiva não se conformava com o fato de o homem que amava, o adolescente que foi traído pela primeira namorada, ter se apaixonado pela irmã e não por ela, por que, e assim batia três vezes ao dia a cabeça contra a parede, em forma de protesto, um protesto tímido. Seria sua sina: bater a cabeça, pelo resto da vida, vida longa, de oitenta anos, na parede, parede dura.

O mudo de gestos enfáticos, além de não se dar bem com o pai, sofria por não entenderem os seus gestos, e então tentava, com ênfase nas mímicas, fazer as pessoas o ouvirem, mas não conseguia, visto que entendiam apenas símbolos matemáticos, nunca entenderiam um mudo de gestos enfáticos louco por comunicação. Vinte anos tentando se comunicar, e nada, quando resolveu abrir uma cova e se enterrar, anulando assim sua ânsia estéril.

O homem que detestava ser adulto, seu pai, por sua vez, enquanto cantava uma ópera com uma voz linda, percebeu subitamente que a vida não valia a pena. De raiva, aumentou o volume de sua voz, já potente. Aumentava. E quando atingiria a nota mais alta da escala, seu cérebro estourou. De dentro saíram dores em forma de notas musicais, a voarem, cada uma para um lado, distantes entre si, em direção ao céu, um céu rosado.

O rapaz que não olhava nos olhos até então conseguiu não olhar para outros olhos a não ser para aqueles responsáveis por sua sina, cabeça baixa, quando, fisgado por um pé feminino, instigado em saber de quem era o pé feminino, olhou medrosamente, e olhava medrosamente, até que perdeu o fôlego por causa do olhar direcionado ao seu e morreu, feliz, embora sua alma nunca fosse encontrada a fim de comprovar que realmente morreu feliz. O olhar era da mulher pela qual se apaixonara e em quem encontrara e encontrou, agora, um amor transcendente e mortal.

A criança que chorava muito cresceu e se transformou na menina de semblante triste, que, por seu turno, se apaixonou, paixão genuína, pelo surdo e seus olhos de gato. No primeiro encontro, fizeram amor sob um ipê-amarelo, flores a cair no casal se amando, e daí nasceu a garota que perdeu a mãe. A menina de semblante triste não se conformava: como podia o amor dela pelo marido, o surdo e seus olhos de gato, doer tanto? Todo amor dói? Como pode duas pessoas se amarem tanto, até a anulação mútua? Como pode? Desiludida com as respostas foi para a beira do mar, avistou uma gaivota lá longe, ínfimo branco sobreposto ao azul infinito, sorriu, quão belo é o mundo, quão bela é a vida, meu Deus, mas quão angustiante – e se jogou. As ondas a levaram, para onde, se perguntava a filha, a garota que perdeu a mãe, para onde, se perguntava o marido, o surdo e seus olhos de gato. Juntos, pai e filha, sempre unidos, se abraçaram até o fim da vida, chorando, porém se compadecendo, se completando, até o fim da vida, se perguntando, para onde, quando morreram coincidentemente no mesmo instante, como prometeram.

Enfim, sozinho no mundo, aos cento e trinta anos, o cego que bradava luz, pela milésima vez, o olhar ao alto, esbravejou com toda a sua força: luuuz!!! A luz saiu do seu âmago. Voou. A luz era sua alma.

22 de jan. de 2021

O meu lar não existe sequer em mim

Por Milton Rezende

 

Ódio

Ódio de tudo:

de ti, de

mim, da

sombra no

asfalto, das

conversas

dos vizinhos

comendo

churrasco e

arrotando

bobagens,

dos barulhos

no telhado,

da televisão

ligada em

programas

de auditório,

dos ruídos que

vem das ruas,

do ambiente

de trabalho, das

necessidades

fisiológicas dos

governantes, da

inteligência

pedindo

esmolas

aos agiotas,

dos restaurantes

abarrotados

(que raiva das

pessoas perfi-

ladas mastigando

qualquer carne),

ódio de tudo

e de todos,

neste momento

em que faço

uma análise

antes de deitar

o meu cansaço.

 

Home Sweet Home

Pensei enumerar aqui

todos os meus endereços:

as ruas, as casas, os bairros

o sítio e as cidades mineiras.

Prédios, altos e baixos, áreas

de escape, espaços, córner neutro;

as lojas, os quintais, os bares

e todos os locais de trabalho

que eu frequentei sem estar ali.

Mas já não me lembrava de

muitos deles – andei tanto e

não saí do estágio em que nasci.

Prefixos de telefones, mapas,

placas de carro, janelas, chaves,

portas, armários, quartos fechados,

as camas e os colchões onde dormi.

Vivi a minha vida sempre assim:

entre quatro paredes pintadas

ora de verde, de branco, de rosa

e infinidades de cores e situações.

Nunca me encontrei em nenhum

desses lugares e o meu lar

não existe sequer em mim.

 

Maria

O céu desaba sobre mim

com sua cara de fogo

e nuvens de cores,

num movimento frenético

no compasso do amor.

Quando terminarmos

e o sol e a lua e as estrelas

forem embora nas alturas,

eu voltarei a ser noite

ou terei incorporado luzes

suficientes para esperar

até a próxima vez?!


Do livro ‘Uma Escada que Deságua no Silêncio’ (Multifoco, 2009), esgotado.

20 de jan. de 2021

Um instante de boa literatura...

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

A tal aventura a que damos o nome de vida sempre a nos surpreender. Recebi há alguns dias uma encomenda dos Correios. O porteiro com um olhar meio ressabiado passou-me o envelope contendo um livro. Mas o admirável é que o tal envelope estava completamente avariado. Rasgado em vários pontos, como se tivesse sido violado, ou sofrido acidente grave ou, quem sabe ainda, ter sido saboreado pela mandíbula de algum cão raivoso. Alguém, entretanto, dele se apiedou e toscamente fez curativos com fita adesiva aqui e ali. Uma coisa anormal... muito. Ante meu estranhamento, o porteiro finalmente lançou-me um olhar que traduzi por: “nem pense que eu tive algo a ver com isto...”

Muito bem. O surpreendente continua porque aberto o envelope, encontrei o livro intacto, com uma bela capa reproduzindo a fotografia de um mar encrespado ameaçado por nuvens pesadas. No instante do céu é o título. Renato Tardivo seu autor. Sobrenome não de todo estranho na memória porque recordei de conversa recente que tive com Rogers Silva, editor da revista de literatura O Bule, na qual colaboro regularmente com crítica literária e textos de ficção. De fato, falamos vagamente sobre obra e autor...

 

E minha surpresa continua e aumenta quando da leitura da obra porque constato como um enredo muito simples pode estar pleno de denso conteúdo humano. Um menino, filho único de um casal de médicos, cresce solitário, sofre bullying na escola (por conta de uma ereção inopinada na adolescência é apelidado de ‘barraca’, imagine-se o sofrimento da criatura), e assiste a lenta decadência do casamento de seus pais. Quase podemos ouvir a voz perdida e circular do narrador em busca de si mesmo e dos outros a quem ama, sobretudo quanto à sua relação de afeto e conflitos com Beatriz, ou no forte e confuso apelo sexual que lhe causa a personagem Carolina e, finalmente, a ‘iluminação do novo’, que é o encontro com Iolanda. Neste jogo vamos desvendando sendas ocultas da formação do protagonista. Outra personagem marcante é Tia Sebá –  a vida sempre a surpreender ,  a doméstica que trabalhou  em sua casa desde que ele era criança/adolescente e que ao longo da vida foi alguém sempre ali, apoio à mão. Uma simples empregada doméstica que muitas vezes fez as vezes de mãe e pai.

 

Entretanto, a narrativa se fragmenta em dois eixos principais, dois focos narrativos que se alternam entre os capítulos. De um lado o homem do agora, relatando vivências do seu dia a dia. No capítulo seguinte o foco recai na formação do mesmo personagem e, através de hábil artifício, os capítulos convocam a cumplicidade do leitor porquanto o pronome “eu” é substituído pelo “você”. Você está assim, você passou por isto, você passou por esta ou aquela experiência traumática ou de descoberta, e assim por diante, de tal forma, e com tal engenho, que vai se construindo o romance de formação do protagonista que também nos fala aqui e agora (os contornos entre passado e presente diluem-se). Temos aí a conjugação da história do menino com a vida do homem caminhado juntas. Acresce a toda essa circunstância a ambientação do humano no redemoinho atual das redes sociais (são transcritas mensagens e imagens postadas no Instagram, Facebook e WhatsApp que, para além de contribuírem na composição do enredo, atestam o que afinal são as tais Redes Sociais: lugares publicamente estranhos, “onde todos são amigos mas quase nunca se sentem”.

 

O leitor ‘assiste’ a técnica cinematográfica de transmitir flashes da realidade como se apanhados por uma câmara de cinema. Observamos que, assim como no cinema, não há um registro sem controle, pelo contrário, existe alguém por trás dela – o autor , que seleciona e combina pela montagem as imagens a mostrar. E sob essa ‘lente’, podemos ter um ponto de vista onisciente, centrado no protagonista (lembramos que Tardivo é autor, entre outros, de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica, portanto sabe muito bem o que está fazendo).

 

Dessa técnica decorrem ainda as montagens – inclusive com visadas na vertente do empenho do protagonista em ser escritor de ficção –, os cortes bruscos, a simultaneidade de planos espaço-temporais, e podemos conferir, em síntese, a busca de uma subjetividade de base filosófica, como forma de minar o mandamento épico da objetividade, porque sabemos bem da impossibilidade de narrar, num mundo hoje reificado pelo domínio da mercadoria; da estandartização provocada pela produção em série e pelos meios de comunicação de massa redes sociais inclusive – , que tende a tudo homogeneizar na mediocridade. Nosso tempo é dividido e caótico, nem religião, nem o Estado e menos ainda a ciência conseguiram apaziguar a nossa insegurança e a nossa desconfiança. E os acontecimentos imersos em reflexões existenciais abalam a cronologia. Funde-se passado, presente e um futuro duvidoso não pode ser antevisto. O plano da consciência se estremece, e até o onírico invade a realidade como acontece no capítulo em que o protagonista sonha, ou imagina ter sonhado com a aparição de uma entidade misteriosa.

 

Toda essa  estratégia narrativa acaba por expor, de forma muito convincente, a relatividade que há na nossa percepção de espaço e tempo; desmascara-se o mundo epidérmico do senso comum, denunciado como simples aparência; a distensão temporal na alternância dos capítulos é revirada pelo avesso, pela fusão do presente com o passado, criando uma simultaneidade que altera radicalmente a estrutura da narrativa.

TRECHO:

“Você descobre que a primeira parte da travessia passa mais depressa. Toda viagem ocorre em perspectivismo infinito; então a segunda parte não existe. Aliás, nem a primeira. Quanto é metade do infinito? Infinito sobre dois? Meio infinito? Infinito multiplicado por 0,5? Há diversas formas de registrar aquilo que não existe. Aí está a (possibilidade de) salvação. Mas a palavra nem sempre dá conta. Há diversas formas de apagar aquilo que existe. Aqui, no espelho, as palavras são números, e números também não dão conta. Como mensurar em definitivo o intervalo entre um ponto e outro? Entre uma frase e outra? Uma palavra e outra? Uma letra e outra? Os números embaralham você. A física que aprendemos na escola é uma mentira. Mas e a física que outros aprendem na faculdade é uma verdade? Uma verdade pode até ser; a verdade, jamais.” p. 79-80.

Registro de ordem pessoal: devo acrescentar que não é mais da alçada da crítica literária (aliás, nunca deveria ter sido) a emissão de juízo de valor sobre obras e autores, entretanto não posso me furtar a afirmar que, surpreendentemente, aquele livro que me foi entregue em um envelope todo rasgado na portaria do prédio se constituiu afinal em uma das mais aprazíveis leituras que realizei no fatídico ano de 2020. No instante do céu é livro muito bem realizado, tanto no que tange à técnica da construção ficcional adotada, quanto à capacidade de criar certeira empatia com os leitores sobre tantas questões que vivenciamos hoje. Sobretudo quanto ao tema do amor que vai se elevando, veja-se só, a visadas tais como a de que “amar é ser testemunha de uma solidão”. É uma verdade; assim como é também passo importante para entendermos melhor como duas almas em suas carências existenciais podem construir sinceramente uma espécie de felicidade.             

Título: No instante do céu

Autor: Renato Tardivo

1ª edição

Editora Reformatório: São Paulo

ISBN: 978-65-88091-08-1

18 de jan. de 2021

Tijolo Baiano

Por Ricardo Novais

Uma garoinha fina caía gélida sobre os telhados desiguais e aleatórios do bairro. A rua, de um asfalto molhado e torto, era íngreme. Aquele bairro de pedreiros, de periferia, tão desassistido em suas construções engenhosas, era monitorado pela cobiça das pálpebras descarnadas.

César chegou em casa e beijou as filhas, a mais velha de três anos e a mais novinha contando alguns meses. Também beijou e abraçou a esposa; e foi à porta de casa tomar cerveja com o amigo Bicudo, um velho colega servente de pedreiro nas obras de alvenaria dos bairros mais elegantes. Os homens da periferia constroem os sonhos dos barões longe da construção de suas próprias casas.

A cerveja barata estocada no muro de uma calçada vulgar, numa esquina sem inspiração da rua íngreme. Entornaram oito garrafas. Depois viraram dois xotes de pinga, pinga feita em indústria cafajeste.

__ Bicudo, meu, vou entrar pra casa...

__ Se liga, fio!

__ Já estou chapado, já, cara... E amanhã vou dar rolê com as meninas no shopping...

 __ Tá tirando, bicho! Deixa de ser bicha, carai!

Entornaram mais duas ampolas. A hora ia longe, o tempo passa mais rápido na periferia. Cada vinte minutos em um bairro suburbano equivale a uma hora e três vidas de uma circunvizinhança elegante.

De repente, parou um carro na esquina. Desceu um homem e foi para cima do Bicudo. César, que era baiano e leal, interviu a acudir o amigo. Outro homem apareceu e o empurrou, ele se desequilibrou e bateu a cabeça na guia. Caiu inconsciente como uma demolição de casa velha quando a especulação imobiliária quer criar sonhos mais sofisticados.

Não pense o leitor que César estava morto, os homens que nascem na Bahia demoram mais para entrar nas estatísticas; embora as estatísticas teimem em formar nuvens pesadas sobre o céu dos subúrbios. Começou uma confusão. Vizinhos, tão apressados como juízes extrajudiciais, levantaram as orelhas cheias de cera, sopesaram na velocidade de um post do Facebook e correram à briga. César seguia caído, desacordado, entre a calçada áspera de cimento batido e o asfalto molhado; não havia sangue na superfície, mas via-se uma luz branca no meio da escuridão. Era o relógio de César sendo retirado do pulso, depois foi-se o celular e a carteira.

Um magistrado comum de rede social monocrática chegou, analisou o caso, julgou, sentenciou e executou: Pisou na cabeça de César. Pisou com força, com raiva, por certo, com um ódio tão fútil como a corrente prateada que utilizava pendurada no pescoço. Depois o homem pulou sobre a cabeça de César, chutou-lhe a fronte, os olhos, a boca, o estomago, o tórax. Chegou mais gente, todos julgadores monocráticos, embora emitissem aresto em colegiado. Por fim, chamaram a polícia. Veio uma ambulância com a sirene desligada como se já estive em luto. A mãe de César foi avisada do motim. A velha chegou e viu o filho baiano derrubado vomitando sangue, com os olhos inchados, pálpebras arroxeadas. Irrefletido como a mente de seus julgadores. Estado de inconsciência.

No hospital público, na mesma periferia próxima, César deu entrada na UTI. Ficou no hospital por uma semana completa, sem sair da UTI, com um trauma no crânio, tubos por todos os pontos do corpo e uma infecção hospitalar que vingou em uma grave pneumonia.

Era traumatismo craniano, doutor leitor clínico geral e doutora leitora cirurgiã; e lesões por várias partes do corpo e coágulos internos sérios. O estado clínico era grave, gravíssimo! César morreu.

No IML, não havia dinheiro para o funeral. Sabe-se que a construção civil remunera o operário com meia colher de pedreiro. Um amigo da família, ligado à política e mestre de obras, tirou a memória do pedreiro baiano da indigência; pagou-lhe um enterro digno e cinco coroas de flores.

O pai de César, que havia transmitido o gene da profissão ao filho, retornou de viagem, às pressas, da Bahia. A família do julgador monocrático, jovem suspeito principal de ser o executor no motim, embora houvesse uma dezena de carrascos da pena capital, veio ter com o pai de César.

A bem da verdade dos fatos narrados neste conto, qual narro à boca pequena em confiança a quem está lendo estas parcas linhas e não tem rompantes de fofoqueiro, quem veio ter com o pai de César foi a mãe do jovem carrasco, que era órfão de parte paterna. A mulher, que também migrou, em meados dos anos oitenta, para o sudeste do país vindo do sertão próximo à Bahia, como se quisesse se passar por um desses atores  da sociedade que se julgam pessoas de bem, tão em voga nos posts das redes sociais, fingiu reconhecer o terrível erro de um filho bem-criado e então prometeu compensar dando fraldas de presente às filhas do morto – uma espécie de "Criança Esperança das Estatísticas" que a Globo, por certo, contabilizaria somente como uma chamada telefônica para o Renato Aragão.

O velho baiano, mesmo em luto, ouviu a mulher e nada disse; ele teve raiva, mas uma raiva contemplativa. Chorou sozinho. Chorou pela vida, pela morte; chorou pelo imponderável. Depois chorou pelas duas netas que cresceriam sem figura de um pai. Poder-se-ia dizer até que o choro doído daquele pobre retirante estava sendo representado, como numa alegoria de Sócrates e Glauco, pela garoa fina e gélida que se via cair na cidade. "Maldita cidade!", pensou, mas também não disse.

No jazido do defunto, lia-se na lápide: Bom filho, pai de família e um irmão leal. César era o segundo de cinco na linhagem da família de pedreiros refugiados nordestinos, aqueles pobres-diabos que sobrevivem tijolo por tijolo e têm a esperança da mesma cor dos tijolos baianos que usam nas construções das grandes cidades.

Restou ao velho pai contar com os dedos amarelos as folhas do boletim de ocorrência policial, as promessas de investigação do crime e as derrotas de uma vida que vale menos que um saco de cimento rasgado; contou ainda duas fotos das netas dentro da carteira de trabalho do filho morto, uma mulher desamparada, duas camisas surradas do Corinthians e cinco reais de um bilhete de coletivo.

17 de jan. de 2021

Poemas de Edson Braz (In memoriam)

Fazer

Faço algo que não sei o que é
que não cobiço e nem careço
Porém, mesmo assim faço
e fadigo
Ao fim do dia assisto tv
estirado no sofá
e rumino o meu inútil fazer
Pelos cotovelos
falo dos nós que desato
enquanto almejo a noite
que ateia seu torpor sobre mim
O silêncio se cala
O meu corpo se abandona
Os meus fantasmas me açoitam
O meu sono me acode
E o dia amanhece
Para que eu possa novamente
o meu fútil
fazer.


Ocaso

O caso é o seguinte:
o caos não chegou por
 

acaso.


A vida

As janelas fechadas
As portas abertas
Posso ir e vir
Porém
Sonhar eu não posso.
 

É assim.


A triste história de um poema

Era um poema
que como eu
amava a rima
e o José Bronteu
 

Era um poema
que como a navalha
cortava sem sangrar
a carne do canalha

Mas era um poema
proclamando desgraça
Dormiu e acordou
no banco da praça
 

E esse poema
tão ferino e roto
pagou seu delito
lançado ao esgoto

 

Rotina

A gente se acostuma
contudo

não deveria. 


Arcano

Mergulho nas águas profundas e turvas sem me molhar
Submerso em meus temores e pesadelos, não expiro o
ar de meus pulmões prestes a explodir

Não há peixes, cavalos marinhos ou algas
Não há carcaças de navios piratas naufragados
Não há sequer tubarões famintos ou polvos abobalhados

Há apenas trevas teimando em ser cada vez mais trevas
O sol e o céu azul, a lua e as estrelas
os sons, as vozes, as canções – Onde estão?

Sou carreado por correntes marinhas que, por sua vez,
não me levam a lugar algum, embora me arrastem
Tento me recordar do que deixei alhures, mas tudo

se esvaiu como a fumaça de meu último cigarro
e o gole de minha derradeira aguardente. Não amei
mulher alguma a ponto de sentir saudade, apenas tesão

Minha tentativa de pronunciar algo nesse momento solene se torna
borbulhas de ar, o que é muito mais do que as anteriores, cujas
palavras se perdiam no vazio, invisíveis, inaudíveis, ininteligíveis

As vozes que já ouvi tentam em vão me dizer algo, mas nada
remanesceu de tudo o que escutei e tampouco de tudo o que falei
Devo estar chorando, mas como saber, submerso e impermeável?
 

Indefeso e indeciso, rompo em braçadas e pernadas rumo a
um lugar que cintila ante meu olhar de louco, ou de peixe
morto... e meus pulmões prestes a explodir.

 

Edson Braz nasceu em Juiz de Fora-MG, em 22/10/1957. Cursou, sem concluir, Letras e Psicologia. Publicou trabalhos em jornais alternativos e antologias, destacando Banco de Talentos-2001 (FEBRABAN) e Poesia em Movimento-2002 (FUNALFA). Publicou Poema(s) em vão (Ed. Scortecci, 1989), o livro de contos O tombo e outros acidentes (Editora Penalux, 2013) e o romance Queda livre (Big Time Editora, 2016). Tinha um romance e uma coletânea de textos em fase de conclusão, além de poesias “engavetadas”, como se dizia noutros tempos, projetos que pretendia concluir até o próximo lockdown. Faleceu no dia 13/12/2020 por Covid-19.

15 de jan. de 2021

Alguns lugares estranhos

Por Adrianna Alberti

 Domingos

Alguns legados se escondem na memória dos figurantes, não dos personagens principais, dos vocalistas das bandas de rock ou nas pessoas que cumprimentavam todo mundo, porque realmente os conhecia. Alguns moram na memória desbotada de quem ia em pequenos bandos naqueles shows da concha acústica do parque, de quem se sentava distante porque estava sempre atrasado. Ali, entre as rodas de amigos e a companhia solitária do irmão mais novo, guardam-se recordações melodiosas, vozes que ecoam músicas esquecidas e se desfazem, em uma quarta-feira de chuva torrencial, em um papel em branco e olhos saudosos, enquanto a vida adulta toma das rédeas da vida antes despreocupada. 


Um lugar qualquer

Existe essa memória de um lugar estranho, onde o cheiro de cigarro está impregnado em cada canto, o banheiro sempre tem fila, pois, ou há um bêbado vomitando ou duas pessoas se comendo nas portas que mal fecham corretamente. Cabelos compridos oleosos dividem a atenção com botas de salto alto, mesas de sinucas desgastadas e a cumplicidade silenciosa de um lugar para se frequentar. Há a nostalgia do porão escuro, iluminado com três pares de luzes amarelas, da cerveja barata meio gelada, que só tem a opção de beber no gargalo – e que cria secretamente um hábito difícil de mudar. Entre o rock estrangeiro de letras agressivas e o blues sofrido em bom português, há beijos esquecidos pelo álcool, risadas moles e amizades que escondem segredos que ela nunca descobrirá.

 

A onça e a aroeira

Sendo eu aroeira, quando recebi o convite da onça para bailar, aceitei. Primeiro, porque seus convites são sempre uma aventura, segundo, porque nunca há a possibilidade de arrependimento. Mesmo que male mal tenha ouvido falar do tal lugar, me peguei enfeitada como se fosse para a melhor noite. Timidamente aprendi a me mover no ritmo do vanerão – que certamente nunca mais dancei. Mesmo que o garçom, despretensiosamente, tenha perguntado se preferíamos tirar fotos da cintura para cima, que a bandeira do meu cartão de crédito tenha falhado miseravelmente e que os ouvidos incautos tenham testemunhado palavras indecentes às 2h da manhã em um estacionamento silencioso. Quando uma onça te convida para bailar, você aceita.

14 de jan. de 2021

A última revolta de Jesus Cristo

 (baseado numa história que tudo indica ser real)

Por Rogers Silva

Para Danilo Santana, que sempre achou que Jesus deveria ter morrido por algo melhor.

Doía, muito doía, e não havia nada que pudesse fazer para estancar o sangue que escorria. A impotência doía. Doía, e não enxergavam, não viam – ou não queriam ver? Doía e não era dor pouca, pois em todos os momentos se vira sozinho, todos desapareciam, sua única companhia era o desgosto, era. As aves no céu voavam indiferentes. E doía. Agora percebia enfim que doía, e não só percebia como sentia agora todas as dores passadas, agora. A solidão. A ausência machucava, doía. A ferida aberta, os vermes vindouros. As mãos doíam, e muito. As pernas doíam, e muito. O tronco doía. Muito. A flechada, os cuspes, a coroa, os espinhos – tudo doía. O sarcasmo era o que mais feria, doía. Os risos. Os socos tão somente neste instante sentia, e doíam, como socos dados em vão, porque em vão foram. Apenas serviram para aumentar a dor. A hostilidade. Valeria o sacrifício, valeria? O sol quente. O céu claro. A vontade de urinar doía. Os rins doíam, sobretudo. O suor que sujo escorria. O sal. O fel. O mau hálito. As lembranças também doíam. Herodes (Jesus ainda bebê) mandara matar todas as crianças abaixo de dois anos. As mentiras inventadas, a hipocrisia. Herodes não queria adorá-lo, não queria. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. A crueldade de Arquelau. Os avisos de Deus. As interferências. As tentações de Satanás – tudo premeditado. Doía. Sua história não fora escrita por Si mesmo? A morte de João feria e fazia doer. A cabeça ensanguentada de João. Sangue. Os demônios. A lepra. Os fariseus que tramaram sua morte. Hipocrisia. Ai de Jerusalém! Doía, porque davam dízimo, conheciam as Escrituras, jejuavam, oravam, mas não viviam segundo a justiça e a fé. Muito. Doía. Os judeus hostis. As enganações doíam, e muito. Todas as dores possíveis nele se convergiam. O tremor. A ira. O ódio. A vingança. As mortes dos que não estavam na Arca de Noé. Doíam a piedade e o consequente remorso que sentia, agora, só agora, pelos não privilegiados do Pai. As crianças afogadas nas águas do dilúvio. As crianças se debatendo contra as águas – doces ou salgadas seriam? A compaixão que nutria agora, e só agora, por Caim. O sofrimento de Jó era ele, Jesus, que sentia, e doía, doía mais do que doeu em Jó. A fruta (amarga) que Adão comeu doía o estômago, o seu. A liberdade, a esperança perdidas, o paraíso, a felicidade perdidos doíam, e era uma dor que feria. O pranto sobre a cidade condenada. A figueira estéril. As profecias doíam. A ambição dos humanos. A agonia passada. E após todo o sofrimento, a sentença. Meu Pai. Este suor que escorre e se mistura ao sangue, estas lágrimas que escorrem e se misturam ao sangue, esta saliva que escorre e se mistura ao sangue, estes cuspes que escorrem e se misturam ao sangue. Os raios do sol nos olhos ardem, doem. Ver a mãe chorando e nada poder fazer dói. Ver os irmãos chorando e nada poder fazer dói. Ver os amigos, sobretudo os falsos, e nada poder fazer dói. Ver os inimigos zombando e nada poder fazer dói. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. Zombaria. Zombarias? Este peso nas costas dói. O fardo pesado. Os pecados de todos. Os erros. Os desvios de conduta. Os assassinatos. As vinganças. Os adultérios. As ingratidões. Doía. As feridas. As traições. As armadilhas e provações. Os tapas no rosto. Os socos. Esta barba espessa e suja. Essa feiúra. Esta ausência. Trinta e três anos de falta doem. Trinta e três anos de mentiras e maldades doem. As marcas das correntes nos pulsos doem. Este zunido intenso nos ouvidos. Os zunidos, consequência dos gritos nos ouvidos, doem. Esse riso cínico dói, e muito, demais. As marcas profundas nas costas doem. As pernas cansadas do longo trajeto com esta cruz pesada nos ombros doem. E os tombos. Meu Deus, afaste esse cálice de mim. Afaste a onisciência de mim, afaste essa capacidade de imaginar o futuro de mim. Afaste a lucidez de mim. Afaste este choro amargo de mim. Afaste de mim este soluço convulso que ninguém vê. Pai, por que não disseste antes que minha morte não era para todos? Pai, por que me enganaste? Pai, que culpa têm os que não reconheceram nem reconhecerão como verdade o que eu preguei? Pai, Tu me fizeste profetizar a traição de Judas. Pai, por que me fizeste antever que Pedro me negaria? Se tudo continuar assim, entre ódios privilégios injustiças rancores pesares mortes gratuitas, sobretudo por causa dos seres à imagem e semelhança de Ti, ó Pai, renego a condição de Salvador. Se for para eu ter remorsos eternos, renego, ó Pai. Pai, por que perdoar-lhes o que fazem se eles sabem exatamente o que fazem e mesmo assim continuam fazendo? Essas zombarias. Se tu és o rei dos judeus... Não és tu o Cristo?... Mas este nenhum mal fez. Mulher, eis aqui o teu filho. Sim, filho, e eis aqui tua mãe, chorando. Dor. Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste também desamparo a Ti e aos teus. Vede, chama por Elias. Tenho sede... Rãaan. Este gosto acre. Ha-ha-ha. Sei, Pai, que sempre fizeste todas as coisas para os Teus próprios fins e até o ímpio para o dia do mal. Sei, Pai, que tudo acontece para que as Escrituras se cumpram. Mas, Pai, que não seja feita mais a Tua vontade. Por um segundo apenas quero ter vontade, apenas por um segundo.

E (talvez porque ainda doía) com a pouquíssima força que restara enfim murmurou:

__ Pelos camelos...

Deus, perplexo, com toda a autoridade possível:

__ Quê?! – esbravejou.

__ Pelos camelos... came... eu... eu vou... morrer... pelos camelos... – fechou os olhos e expirou.

Não escurecera. Nem escureceria.

31 de dez. de 2020

Que sua vontade vire sua ação

Por Maurem Kayna

Não quero falar dos desafios de 2020 porque, além de clichê, seria quase ridículo falar do tipo de dificuldade que pessoas como eu (e tu que estás lendo isso) enfrentam.

Chegamos a este dezembro insólito vivos e saudáveis (ou ao menos recuperados/em recuperação) graças às maiores chances de nos protegermos ou de enfrentarmos com o devido suporte as ameaças à saúde. Alguns perderam pessoas muito queridas e isso vai doer por bastante tempo ainda. A ausência de abraços torna tudo mais complicado, mas chegamos aqui e toda simbologia de recomeço é bem-vinda.

Bem-vindos também os aprendizados deste ano tão atípico para nós que tivemos a sorte de estar sobre o planeta em um dos períodos mais pacíficos* já vividos desde que se tem registros das sociedades humanas. E aqui não me refiro aos 37 diferentes aplicativos para reuniões online ou às variadas receitas que pudemos arriscar. Penso mais nas coisas que cultivar uma horta tem me mostrado; nas descobertas da amiga que decidiu produzir peças de cerâmica; no desabrochar de outra amiga que tem feito da escrita e do otimismo as suas armas; no malabarismo das profes de dança driblando o delay da conexão e decifrando um ângulo melhor para as aulas online e em tantas outras pessoas que aprendem a viver vivendo, em quaisquer circunstâncias.

Mas o clique para a mensagem deste ano me ocorreu em um fim de tarde quente em que estava enfrentando os mosquitos para regar a horta/jardim. No canteiro de girassóis mexicanos, que durante o dia funciona como parquinho de diversões para várias espécies de borboletas, lembrei de quando havia semeado aquelas plantas (no dia desse insight, as mais altas tinham cerca de 1,30 m de altura) e pensei: essa maravilha toda, antes de ter concretude, existiu no meu pensamento… na minha vontade…

A partir dessa constatação, passei em revista outras situações da vida para as quais a afirmação continuava válida. Lembrei particularmente de um exercício da antiginástica em que uma postura bastante desafiante se tornava curiosamente mais viável depois de uma prática de mentalização da posição, orientada pela professora.

Não se trata de nenhuma revelação, naturalmente. É um fato quase banal que toda ação se inicie na decisão de agir, mas dar-se conta dessa sequência (crono)lógica pode ser um bom exercício para selecionarmos bem os passos reais e metafóricos que querermos dar em 2021. E tão importante quanto ter presente essa ligação entre o que realizamos e o que nos propomos a fazer é dar-se conta de que o contrário também funciona: acreditar-se incapaz de algo é o motor da inércia que nos impede de realizar. E não pensem que estou aqui me referindo a slogans de autoajuda do tipo “querer é poder”. Pensar não é realizar ou alcançar, mas autorizar-se a querer; desejar e agir sim são passos para moldar realidades.

Então, deixo aqui um convite/provocação: escolha algo, uma única e simples coisa (cultivar uma planta, escrever um texto, aprender uma técnica qualquer) que queira fazer mas que nunca tenha cogitado muito seriamente executar. Escolha bem… tem que ser alguma coisa que, uma vez realizada, te traga alegria, orgulho, leveza. E faça. Pode começar com uma semente, uma caneta e depois uma palavra, a escolha de uma ferramenta. E depois virão os movimentos diários que levam da semente à planta florida, para ficar nas minhas metáforas favoritas dos últimos tempos.

Se já souberes o que é e quiseres me contar, vou gostar muito de saber e isso talvez nos possibilite boas conversas ao longo da década que se apresenta. E que essa realização seja um jeito bom de atravessar essa tempestade que está chacoalhando a humanidade, mas que cedo ou nem tanto, vai passar.

* Li recentemente que o mundo viveu menos de 10% da história registrada sem uma guerra importante (Empresas que curam, de Raj Sisodia e Michael J. Gelb). Aliás, para os amigos do mundo corporativo, indico a leitura.

Como dica de leitura, recomendo o conto de Ursula K. Le Guin que está disponível gratuitamente no Projeto Cápsula, da Editora Morro Branco.


27 de dez. de 2020

O livro de um conto só

Por Glenio Cabral

O autor, de índole e origem desconhecida, havia publicado um livro de um conto só. Um conto curto, é verdade, mas extenso em obscuridades. O livro, por razões desconhecidas, foi lido apenas por quatro pessoas.   

O primeiro a lê-lo foi um jovem estudante.

Ele achou o livro jogado numa rua qualquer e, curioso, levou-o pra casa. Dias depois, o infeliz foi encontrado vagando despido pelas ruas, pálido como a neve, olhos fitos no vazio, segurando firmemente o livro numa das mãos.

Foi preciso sedá-lo pra fazê-lo largar o livro.

O segundo a ter acesso ao conto foi um conhecido padeiro da cidade.

Recebeu o livro pelos correios, sem nenhum remetente. Bastou ler as primeiras linhas do conto para, no dia seguinte, começar a produzir pães em formatos, digamos, peculiares.

Havia pães em forma de dragões, de elefantes, de formigas, de serpentes, de humanoides, de discos voadores, de anatomias humanas indecorosas... Havia até pães com o formato da cara do John Lennon e do Raul Seixas.    

O padeiro foi demitido, acusado de obscenidades e promoção de tumulto. Já a padaria, nunca vendeu tanto em toda a sua existência.

O terceiro a ler o conto foi um mágico de circo que, durante um número de mágica, acabou tirando de dentro da cartola, no lugar do coelho, o livro de um conto só.

Assustado, logo após a apresentação dirigiu-se ao camarim e leu o conto de uma só vez.

No dia seguinte, durante outro número de mágica, o mágico fez algo inusitado: proferindo palavras desconhecidas, e depois de esboçar um sorriso, no mínimo, tenebroso, ergueu as mãos e fez todo o circo, com plateia e tudo mais, levitar até às nuvens.

O circo voador, como depois passou a ser chamado, voltou ao chão são e salvo.

Quanto ao mágico... Bem, desse nunca mais se teve notícias. Apenas a sua cartola, com estranhas manchas de várias cores, além de pedaços arrancados, foi encontrada ainda levitando no local.

Então o livro desapareceu por anos. Durante muito tempo, não se teve mais notícias da tal obra literária. Ao menos, até o advento da internet e todas as parafernálias tecnológicas de comunicação dos dias atuais. E foi assim que o livro de um conto só veio à tona mais uma vez, como sempre, saindo do nada. O quarto e último leitor do conto teve acesso ao texto num site de literatura. O site se chama O Bule.

E o leitor, bem, é você que me lê agora.

Boa sorte. Vai precisar.

26 de dez. de 2020

A caixa

Por Cláudio B. Carlos

Ele chegou faceiro, depositou a caixa sobre a mesa e chamou toda a família para que víssemos o que havia conseguido no centro da cidade, na saída do trabalho. Foi uma pechincha, disse. Falou que se tratava de um animalzinho frágil, que faria muito bem a todos. Disse que o bichinho comia pouco, e se chamava Paz. Pediu para que todos se aproximassem. Disse que abriria a caixa. O guri menor arregalou bem os olhos e abraçou a perna do velho. Quando o pai abriu a caixa, o bicho voou e desapareceu por um vão da cumeeira. Mal tivemos tempo de ver a cor do animal. A Paz, tão desejada pelo velho, foi embora de nossa casa, e ainda cagou sobre nossas cabeças. O pai nunca mais foi o mesmo.

25 de dez. de 2020

Resultado do sorteio do 'Manicômio', de Rogers Silva

 O vencedor do sorteio do livro Manicômio, de Rogers Silva, é Evandro Gobitsch Paixão. Parabéns!

O contemplado terá sete (7) dias para entrar em contato com os editores d’O Bule pelo e-mail coisasprobule@gmail.com a fim de enviar seu endereço. Ademais, um contato será travado com o ganhador através do e-mail. Após esse prazo, caso não tenha entrado em contato com O Bule e enviado o seu endereço, outro sorteio será feito.

24 de dez. de 2020

Clarissa

 

Por Rogers Silva

Por que papai vai trabaiá todo os dia?, e perguntei pra mamãe e ela disse que senão eu não comia nem tinha como estudá nem nada. E nem presente, eu lembro que ela completou e eu pensei Mas que presentes? Só pensei. Não falei nada pra mamãe porque ela era meio braba. Eu era menino e menino apanha facin. Xispa. Papai era bonzinho. Todos os dia ele chegava umas sete horas da noite, me dava um beijo no rosto que eu logo limpava a baba, me colocava no colo e dizia que no Natal eu ia ganhá do Papai Noel um presentão. E eu ficava feliz imaginando que depois de dormir e acordá eu ia pra árvre de Natal (esse ano tinha que tê árvre de Natal. Em todas casas tinha. Até naquelas da televisão!) – eu ia pra árvre e lá ia tê uma caixa bem bonitinha e tudo, com um lação desse tamanhão, ó, e ia abrir e ia tê uma bicicleta e um videogame e um monte de fitas. Depois ia, voltava pro meu quarto e de debaixo da cama ia tê mais presentes: um monte de caixinhas e outras grandes assim, ó. Mas ainda não era Natal. Até lá...

Eu tinha uma amiga que era muito esperta e se chamava Clarissa. Ela tinha a mesma idade que eu mas era mais inteligente. Ela dizia umas coisa estranha tipo que a água da chuva saía das nuvens e na lua era tudo escuro e o sol que era clarinho, clarinho e quente. Eu dizia algumas coisas também, mas tudo que eu ouvia dos professor, tipo Pedro Álvares Cabral e células e outras coisas mais sobre o Brasil. E ela dizia Mas isso todo mundo sabe e eu dizia Que mentira! e saía chateado porque ela era mais conhecedora do que eu. Um dia ela, branquinha, coitada, com aqueles cabelos pretinhos e grandes, disse que o vô dela era forte que carregava um cimentão assim, ó, bem pesado, com um só dedo. Eu disse Meu avô é mais e carrega um Escort com uma mão só. Ela disse Mentira porque seu vô já morreu. Eu fiquei chateado e disse Ih, você é bobona bobona bobona e fui sentar de debaixo da árvre que a gente sempre falava que ia fazê uma casinha e nunca fizemo. Ela veio toda boazinha e pediu desculpas e falou que quando os avôs morre, eles vai prum lugar que nem a casinha que nós queria fazer, lá, ó, bem calmo, só que bem maior. De repente deu um barulho forte do trovão e ela disse Sabia que os relâmpos vêm antes dos trovão só que eles é o mesmo? Não entendi. Mas ri daquele jeito meu assim que nem um indinho, como todo mundo falava. Ela riu também e eu senti uma coisa estranha e ruim aqui dentro, ó, e depois à noite na minha cama eu até chorei. Chorei até.

Nós passava o dia inteiro juntados, eu e a Clarissa. A mãe dela era legal e dizia que eu era o índio mais bonito do mundo, inclusive aqueles lá de lonjão. Dizia que ia namorá com a Clarissa, mas eu dizia Sai fora. Eu nem vou namorá. Clarissa sorria com aquele jeito dela igual da mãe. As duas tinha uns olhos meio claros. A mãe da Clarissa também era muito bonita. Na escola ela era mais adiantada uma série do que eu, mas no recreio a gente ficava sempre juntado. O povo lá dizia que a gente namorava e eu ficava brabo. Eu nem vou namorá, dizia sem graça quando não ficava com raiva. Ela ria.

Depois de outubro vem novembro, depois dezembro e depois o Natal, ela disse. A gente tava em frente da represa que minha mãe não gostava que eu ia. Mas eu não entrava, eu era medroso, a Clarissa mesmo que falava. Ela entrava, mas só um pouquinho, e nadava. Ela me chamava e dizia pra mim entrar. Tô sem vontade. Cê tá é com medo. Tô nada! Medroso, medroso, medroso, e jogava água em mim. Eu corria brabo, voltava pra olhar pra ela e ela ria. Perdia com isso minha brabeza. Por que ela sempre ria?

Um dia à noite, a gente brincando de pique-esconde com outros meninos perto de casa, aconteceu uma coisa estranha. O Felipinho que tava contando: Um! Dois! Clarissa me pegou o braço e fomos correno prum pradão, aqueles de luz, bem longe do lugar que o Felipinho tava contando. O Xandão e o Dedé subiu em cima da casa do Dedé. E a Vanessa e a Paulinha entrou na casa da Vanessa que era irmã do Felipinho. Quarenta e nove! Cinqüenta! Pronto! Eu sentia a respiração da Clarissa, távamo muito perto, o pradão era pequeno e apertado e tava até meio escuro lá dentro. Eu ia falá alguma coisa mas ela disse shhhiii e colocou o dedo na minha boca. Távamo pertinho um do outro e ela foi assim chegano, chegano e pegou na minha mão. Eu tremi e senti uma coisa assim estranha. Credo. Aí então ela me deu um beijo na boca assim tão rápido e aí o Felipinho apareceu e gritou Clarissa e Hugo! Peguei! A Clarissa correu bem depressa mas eu fiquei paradinho dentro do pradão sentino aquele gosto estranho além do friozinho. À noite, na cama, eu pensava que Clarissa era minha namorada e beijava o travesseiro e sentia uma coisa boa mas estranha. E chorava. Mas não chorava assim de dor ruim. Era bom.

Chegando perto do Natal, a gente tava brincano de naviozinho porque tinha chovido e ficou meio alagado, a gente pegou e brincava de pirata e tudo. Eu disse que ia ganhá um monte de presentão do Papai Noel esse ano, inclusive um videogame e que tudo ia tá na árvre de Natal de manhãzinha, viu. E ela riu. Disse que Papai Noel ia só pras crianças lá dos Estados Unidos e Europa e de lá bem longe, aquelas crianças boazinhas. Eu disse Mentira. Ele já foi lá em casa e me deu um caminhãozinho ano passado, menti. Eu nunca tinha visto o Papai Noel. À noite, távamo deitados assim no chão e olhando pro céu. Seus olhos parecia brilhar que nem uma lanterna esverdeada do Dedé. Ela disse As estrelas mudam de lugar. Elas andam. Eu ri. Ih, ó. Cê tá doida?, falei. Falamo de um montão de coisa mas principalmente do Natal que tava chegano.

Dezembro chegou e as casas ficaram bonita cheia de luzinhas coloridas e todas enfeitada, inclusive a minha que nunca tinha sido antes. Mamãe até colocou uma árvre na sala mas não tão bonita quanto aquelas da televisão. Eu ia perguntá, mas mamãe era meio braba. A festa mesmo, aquela que todo Natal tem, foi na casa da Vanessa e Felipinho. Os pais deles eram altões e brancos. Diziam que eram gaúchos, mas eu num sabia o quê que era isso. A Clarissa de vestidinho verde-claro e a mãe também tavam, e outras pessoas mais. Minha mãe tava até mais feliz nesse dia e menos braba. Conversava muito com a mãe da Clarissa. Dessa vez ficamo eu, a Clarissa, a Vanessa, o Felipinho, o Dedé, o Xandão e outros meninos que eu não conhecia juntados, todos. Todas as crianças ganhou um presentinho, uma caixa de bombom, do Sr. Ricardo, pai do Xandão. Foi bom até esse dia. Mas eu queria mesmo era chegar em casa, dormir e acordá e vê aquele tantão de presente na árvre lá de casa, de debaixo da cama que Papai Noel ia deixá. Fomo pra casa e eu já tava com sono e cansado e deitei e dormi sem vê. Nem vi. Sonhei com eu e com a Clarissa na nossa casinha da árvre que a gente num tinha feito.

Acordei e fui correno pra árvre de Natal, nem escovi os dentes nem nada, fui é pra árvre de Natal pra vê se Papai Noel tinha passado lá em casa e deixado presentes pra mim. Tinha uma caixona grandona assim, ó, bem grande mesmo e eu tava muito feliz porque era a primeira vez que eu tinha ganhado presente no Natal e era grande. Abri correno correno e quando abri vi que era uma bicicleta. Eu fiquei feliz e fui correno pro quarto do papai e da mamãe falá pra eles que Papai Noel tinha me dado um presentão que eu queria há muito tempo. Eles riam, riam, felizes. Até mamãe. Perguntei pra mamãe se eu podia andá com a bicicleta. Ela disse que à tarde sim, agora não. Eu nem importei. À tarde eu ia com a minha bicicleta que eu tinha ganhado do Papai Noel pra casa da Clarissa e falá pra ela que Papai Noel passa nas nossa casa sim, e não só do povo lá de lá.

À tarde eu peguei minha bicicleta novinha-novinha e fui pra casa da Clarissa que ficava um pouco perto, mas nem tanto, da minha. Chegando lá eu vi algumas pessoas lá fora no jardim, estranhas. Passei, como Ayrton Senna, por entre assim, vrummmm, no meio das pessoas, até chegar na porta. Sua mãe tava vermelha-vermelha e o olho também e ela gritava e chorava e uma outra abraçava ela muito. Eu não entendi nada. E nem vi Clarissa. A mãe da Clarissa não me viu porque saí assim pouquinho depois e perguntei lá fora pro Xandão que era um pouco mais velho e conhecedor que eu e entendia mais as coisas, o que tava aconteceno. Ele disse que a Clarissa pegou um naviozão assim, ó, que tinha ganhado da mãe e foi pra represa sozinha, sem falar com a mãe. Ih, ela é doida, ri. E parece que ela afogou, continuou Xandão. Ih, mentira!, gritei e pedalei bem forte minha bicicleta rumo à minha casa. Tinha chovido, parece, à noite, por isso um ventozinho meio frio batia em meu rosto. Eu corria muito e brequei forte quando cheguei em casa e quase caí, chorando.

Perguntei pro papai depois, noutro dia, o que tinha acontecido e ele disse que Papai Noel tinha levado Clarissa. E eu ficava feliz porque assim ela não ia mais, nunca mais duvidar do Papai Noel porque tava com ele, pertinho, e ficava triste porque eu sentia uma coisa ruim aqui assim, ó, uma vontade de ver ela e aquele sorrizinho e queria ouvir aquelas estranhices que ela falava, mas não podia. Eu nunca mais ia vê Clarissa? Ah, nem! Nem aquele sorriso, assim, ó? Nem!...

Do livro Manicômio.